Segunda-feira, Maio 12, 2008

O meu veneno

O humor tosco de "Os contemporâneos"

Fazer humor é uma arte o qual só alguns têm a capacidade e o discernimento para «saber tocar» em alguns pontos quentes de determinada sociedade. Ora, sabendo que a sociedade portuguesa ainda está atada nos princípios católico apostólico romanos, é de muito mau tom fazer humor com aquilo que é bastante prezado por alguns sectores dessa sociedade.
Depois dos Gato Fedorento, que tão bem souberam criar personagens humorísticas e cómicas acerca da religiosidade das pessoas, e também sobre política, vêm agora os Contemporâneos desfazer o que tinha sido bem feito. O sketch acerca da aparição da Senhora em Fátima é de muito mau gosto e, confesso, desde que apareceram na televisão ainda não conseguiram tirar-
-me, sequer, um sorriso. Não sou religioso, portanto não me fere o humor de faz-de-conta. O humor deve ser abrangente e não só para determinados sectores da sociedade. Se não se pensa assim agoira-se uma curta vida para aqueles que querem fazer do humor balas de ricochete.
Pode-se brincar com a religiosidade das pessoas, sim, só que é necessário saber «como».

a fuga da língua .3


partiste. deixaste um som
na campânula da água
onde um pássaro poisou.

uma palavra de vento
foi o manto que cobriu
a boca; o anúncio de espanto.



josé félix
in a fuga da língua

Domingo, Maio 11, 2008

a fuga da língua .2



encontro-te despojada
sem as vestes, sem a adaga

que corta, fere, apaga
uma língua desejada.

é erótica a pronúncia
no crescimento dos ramos

e na seiva se faz núncia
dos frutos que comemos.


josé félix in a fuga da língua

Sexta-feira, Maio 09, 2008

O meu veneno

Peço as minhas escusas aos leitores que têm este espaço como visita regular. As contrariedades apanham-nos de surpresa, às quais temos que fazer face, e o tempo, esse escárnio do ócio, é implacável.
Assim, e voltando ao veneno que caracteriza este espaço, vamos tecer algumas considerações acerca do mau fado que o Acordo Ortográfico está a ter. Já disse em anteriores textos que mais nenhum país fez acordos ortográficos como a forma de unificar a língua em determinados espaços. Espanha, Inglaterra, França, Holanda e Alemanha fizeram algumas mudanças necessárias nas suas línguas sem qualquer tipo de acordo com outros espaços falantes.
Não entro em delírio por o Brasil falar e escrever de modo diferente algumas palavras portuguesas. O português do Brasil tem a especificidade do contexto espacial em que se move; o português de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Timor, Goa, tem a especificidade destes espaços. Há palavras destes países e regiões que entraram, e bem, no léxico da língua portuguesa. Portanto, não há que unificar coisa alguma. Não me importo que seja úmido no Brasil e húmido em Portugal. Não me importo que em Angola se use o "K" ou o "W" em algumas palavras de origem kimbundu ou de origem umbundu ou tchoqwe. É a língua portuguesa a movimentar-se naquelas regiões.
Por isso sou frontalmente contra qualquer tipo de Acordo Ortográfico por se mostrar absolutamente inócuo.

a fuga da língua .1


perco-te na superfície
da água. como um artífice

procuro o corpo no texto
na reflexão do pretexto

de encontrar a sedução
da pronúncia, a oração

religiosa do corpo
sem mácula e sem estupro.

josé félix in a fuga da língua

Sábado, Abril 26, 2008

madrigal


para cecilia meireles
in memoriam



há uma luz que me assombra
na alegria da manhã
um florilégio, a alfombra
que enfeita o meu divã.

persegue e leva-me a sombra
para a clareira artesã
vai limando a vida romba
na vida que vem anciã.

josé félix

Sexta-feira, Abril 18, 2008






















A edium editores tem o prazer de anunciar o evento "Dois Poetas", organizado por Ana Maria Costa, a realizar no próximo dia 26 de Abril, em local a designar.
Durante a cerimónia serão apresentados o livro "Fractura Possível" de José Gil e o livro "Ascensão do Fogo" de Jorge Vicente.





para o francisco coimbra


casida de ausência


quando o pássaro poisa
no descanso da janela
tenho o meu país na mão
nos dedos uma arandela.

cada gota de silêncio
suplício de cantarola
é o meu chão magoado
no pólen de uma corola.


josé félix

Quinta-feira, Abril 17, 2008

o desenho de uma vida


Com o tempo perdi o rosto
que me encontrava no ombro da memória.
Vinha com um sorriso, e até o cheiro
das flores impossíveis me passeavam
no suplício bem-vindo, de estar assim;
voltar a caminhar os passos duplos
na sincronização amorosa, livre
de intenções, das quais não fossem deixar
no caminho a labareda dos amantes.
Que traços e que olhar ainda me prendem
à constelação das rugas,
nesta possível iluminação fátua,
brincando azul nos dias modestos.
Uma palavra é o desenho de uma vida

José Félix

Quarta-feira, Abril 09, 2008




A edium editores tem o prazer de anunciar o lançamento do livro "Gravado no Tempo" a ter lugar em Leiria, no Café-Teatro Orfeão Velho (à Rua Latino Coelho) no próximo dia 12 de Abril pelas 21.30 horas.A apresentação da obra e autor ficará a cargo de Mercília Francisco.O evento contará ainda com interpretações ao piano por Daniel Bernardes.
Se puder, não falte.

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