Sexta-feira, Agosto 28, 2009
O país que estava moribundo morreu
rostos admirados.
tempo imperfeito na composição
desta moldura que suporta o quadro
na colecção de vidas.
o teu rosto é um puzzle
que vou compondo no laborioso
ofício de viver.
Quarta-feira, Julho 01, 2009

O arquipélago é onde o autor se ilha em cada lugar. A ilha é o isolamento físico transportado para a escrita poética descobrindo os sinais presos no território, saltando a fronteira imaginária de ser, estar só, mesmo que a além fronteira se chame Alentejo.
“a minha alma, tanta vez a procurei no Alentejo, /Entre as ilhas brancas. /O oceano, ora é verde / Ora acastanhado pelos aluviões de rios invisíveis. […]A minha alma nunca a vi, mas sei que existe.”
O autor, ao criar o seu exílio interior, procura-se através da palavra que se anima, esta “anima” que vagueia numa tarde, junto do Guadiana, que ele sabe que está lá, mas, pensa ser ainda cedo para escutar “a secreta linguagem do rio”.
Toda a escrita poética, até pelo acto criador, é o confronto com o vazio. As ilhas, o arquipélago, são a brancura das folhas onde o autor começa por estabelecer a diferença entre o vazio e nada. Este vazio vai-se preenchendo com o discurso poético, formatando, na elaboração, do real ou sobre o real, uma disponibilidade que é inesgotável, aparentemente.
Seja à “à beira do açude”: “as letras apagar-se-ão de todo o mármore, / Mas a sombra no açude há-de perpetuar-se / No sangue das águas”
A memória, essa função terrível e boa é que faz escrever sobre tudo e sobre o todo. A memória vai trabalhando para “Quando eu souber / e, algures no caminho, / for o tempo destas coisas” até porque, “da clausura da terra ergue-se a esperança nova”.
O poeta vai coleccionando palavras, versos no caos, onde elas estão sem dono[pág. 12]para construir o exílio mental, neste caso, e dito por Tsvetáieva, apesar desta ter tido um exílio verdadeiramente físico, concreto, objectivo, de diáspora judaica.
A procura da fonte começa no poema “antes, o silêncio”, dedicado ao poeta José Gil.
A escrita poética é um dos últimos redutos em que o espírito se pode espraiar, ainda que no sentido metafórico. Em linguagem. Numa linguagem que reassuma a função originária de nomear as coisas do mundo “em que consiste a essência da poesia” (61), segundo Gadamer, citado por Gianni Vattimo, em O Fim da Modernidade: Niilismo e Hermenêutica na Cultura Pós-Moderna.
O autor tacteia a terra, ausculta o rumor da água, cria uma respiração interior até que venha o «sopro» e apareça a palavra ajustada ao tacto, à auscultação, ao acto visionário da criação.
O poeta diz: “o exílio é o chão em movimento, / O caminho balizado de hieráticas aves.”
Noutro poema diz, ainda: “há um rio que separa o mundo, / E os que o atravessam, morrem. / Os que o não fazem, não são mais / Que espectros, vogando à luz do sol”
A luta entre “estar” e «não estar», entre «ir» e «ficar» cria uma cosmografia que pode ser tanto o microcosmo com que se debate o autor como o macrocosmo do desejo.
Sentado junto à fonte, e este “junto à fonte” prevê um movimento no caminho do discurso de exílio, em que o presente é a excelência do trabalho da memória futura: “estas coisas do presente, meus amigos, são a nossa eternidade”, diz.
Vai descobrindo lugares, chão, metáforas que são colocadas devidamente na descoberta de uma fronteira cada vez mais alargada, pedindo para centrar “o olhar no alvo até que nada mais vejas / senão a estrela a alcançar “
Traça rotas, rumos, “o corpo irá aonde puder[…]”; “.o Mundo / é o seu secreto e partilhado jardim”.
Andarilho, frugal, o desejo é tudo, pouco, ou nada: “ as coisas que desejo cabem todas á mesa / de uma cozinha Rústica”ou “tudo é tão simples que me sinto ridículo, / por todas as coisas que acumulei na cabeça”
Há uma alma «anima» constante no discurso, uma espiritualidade a roçar o impressionismo em poemas onde o tratamento da morte aparece. Um tratamento sacro-profano, sem preconceitos, colocando a pluralidade divina, “agradece aos deuses o seu favor” e “que a distância que o separa de Deus / é só a do estender da mão”.
O poeta escreve o que todo o poeta deve escrever: da morte e do amor. Ainda da morte, uma certa ironia perpassa, por exemplo no poema da página 34: “hoje apetece-me escrever o meu epitáfio / ne ir morrer à cama, simplesmente. / Os amigos farão o favor de verter umas lágrimas
Por mim, e dirão palavras bonitas / Sobre a minha suposta campa / (deixarão também umas rosas. É costume.
Amanhã poderei renascer, enfim, e voltar / Ao vosso convívio. Juntos poderemos então / Rir da volubilidade da vida. / E a morte terá outro sentido”
Sobre a volubilidade da vida já o escreveram Arquíloco, poeta do século VII e Horácio, século I a.C. seu imitador tanto na métrica como na sátira.
A morte, ainda, o poema «melancólica» é um quase aforismo: “entristece sempre quem está vivo: / Dói-lhe expor-se ao mundo. / Ninguém se forra dos vermes, / Somente, morto, os não sente.”
O poeta procura o caminho; o poeta procura vários caminhos que se cruzam na descoberta e na emoção, formando uma teia de diferença onde, num único livro, apesar da unidade referencial, se exerce a mudança tão necessária a quem escreve. Quem muda permanece na fidelidade de mudança intrínseca ao próprio homem.
A obra tem hoje uma ideia segundo a época em que vivemos; será com outra ideia e com outro espírito que alguém lerá esta obra. Por isso devemos reflectir sobre a obra em cada momento da sua história. Reflecti-la em cada momento é manter a fidelidade a si próprio. Apesar deste texto não ser uma crítica literária, confirmo aquilo que Casais Monteiro disse: “não há duas críticas literárias iguais sobre a mesma obra; só as más críticas se assemelham umas às outras.” Também uma apresentação de um livro terá, certamente, um texto diferente segundo o apresentador do livro.
O exílio construído até aqui continua nos caminhos traçados pelo poeta: “a força do meu pé cresce para sul”.
A conversa onde «tu» se faz excelente, o outro é o receptor da mensagem para não haver um monólogo e é como uma forma de catarse para transmutar em ouro o metal vil.
“antes são as lágrimas, / o exílio itinerante, / até que a terra floresça / e o fruto venha às mãos pacientes”
É uma espera de paciência que doba a palavra em versos até que que se a promessa de Deus.
É interessante a mistura ideográfica, por exemplo, no poema V de “Caminhos” onde o exílio é a ausência da amada tão bem cantada pelos poetas do Al- Andaluz como Al Muthamid, Ibn Amar, Ibn Qasi e outros.
Do exílio, aqui, não se trata apenas de demora, de delonga, mas antes da coisificação que tenta rever num objecto o concerto total de onde provém o ritmo, o fruto mesmo da estilização. Como em Ibn Sara a demora da observação, “ao entardecer do claro dia / repousa com a amada, sob as copas” parece querer transfigurar o objecto que se contempla.
Perpassam dicotomias como «o fogo tempera o metal e o purifica”, “toda a morte anuncia m nascimento”, “a vitória forja-se na derrota”, “na mão esquerda o corvo, na direita a pomba”.
O poeta, apesar de tudo, e da constante procura da fuga, permanece na ilha, nas ilhas, no arquipélago, junto à fonte a procurar caminhos, sejam eles quais forem, mesmo “quando a tua água for um espelho / a ave pousar-te-á no ombro. Porque, como diz o poeta, “cada coisa e lugar têm o seu tempo”
Procurei ser esclarecedor, reclamando os valores estéticos da obra. Procurei penetrar na obra, segundo a minha cultura, segundo a minha integração social, segundo a minha informação e conhecimento.
Ao criador deste livro de poemas interessa-lhe mais a comunicação do que o entendimento. O poeta não precisa de recorrer a um método, a uma verdade, a um sistema, para ir ao encontro do que impõe este livro à nossa admiração(Casais Monteiro, Clareza e Mistério da Crítica).
Concluo: "Todos os poetas são judeus" – Marina Tsvétaieva.
Segunda-feira, Junho 29, 2009
Quadro de Domingos Mota - 1919 Salão Nobre da Casa do Alentejo
brincadeira de mulheres
brinca o ventre na mão que te sossega
a euforia no jogo de cabra-cega.
uma criança cobre a criança-mãe
o salto lúdico que no vai vem
do sopro, na transparência do linho,
desenha o corpo onde se acoita o ninho.
é porque espreitas os seios desnudos
que o desejo cala todos os medos.
a flora brinca na clara clareira
obedecendo ao jogo da fogueira.
deitada sobre as ervas de nocturno
espera a paciência de fauno.
josé félix
Segunda-feira, Junho 15, 2009
um lírio vermelho
solta-se dos dedos
a água leva o sonho
com os olhos de água
josé félix in no caminho há flores
José Félix
Sábado, Junho 13, 2009
Doença: ditadura
Sintoma: censura, medo, perseguição, atitude persecutória
Poema 22 in Teoria do esquecimento
22
a casa é o precipício onde
a infância morre na traição do fruto.
é de passagem, a casa, na escrita,
reconstruída ruga a ruga com
a parcimónia da literatura.
os quartos, a salinha, o corredor,
um vaso velho com papeis inúteis
e até a voz da família ausente
está presente no eco das paredes
com a fotografia de duendes
a segredar-nos conversas.
a casa: envelhece com a idade
de quem a habita na memória, mesmo
que a infância permaneça viva, ténue.
José Félix, Teoria do Esquecimento, Temas Originais, Lda, Coimbra, 2009
Sexta-feira, Junho 12, 2009
(Holguin, 1943 - Nova Iorque, 1990).
Quarta-feira, Junho 10, 2009
RENGA DE ANIBAL BEÇA E JOSÉ FÉLIX
Em memória do haijin Wenceslau de Moraes,
quem primeiro cultuou o haicai em Portugal.
1.
Silêncio no lago -
o vento frio vai levando
o que voa leve.
Anibal Beça
a pétala de jasmim
desliza na borla da água
josé félix
2.
Chuva passageira -
as notícias de ontem vão
da sarjeta ao bueiro
Anibal Beça
No barquinho de papel
viajam as mãos meninas
José Félix
3.
Casa abandonada -
apenas se ouve o cri-cri
de um grilo na hera
Anibal Beça
na lombada da janela
a gaiola pequenina.
josé félix
4.
O espelho reflete
um rosto desconhecido -
outro outono passa.
Este já não é o pássaro
que cantava claro e forte.
Anibal Beça
5.
no cair da folha
parte a última andorinha -
O sol perde o brilho.
José Félix
À toa, à toa, uma lua
cresce ao fundo da campina
Anibal Beça
6.
Nas folhas do livro
uma pétala de rosa -
palavras antigas.
José Félix
No parque um menino joga
um pouco de milho aos pombos
Anibal Beça
7.
As rugas cativam
as mãos frias no cabelo -
círculos de água.
José Félix
Formigas em fila carregam
as últimas folhas verdes
Anibal Beça
8.
No chão do pomar
se vê um outro crepúsculo -
os caquis maduros
Anibal Beça
à sombra do caquizeiro
vão caminhando os sapatos.
José Félix
9.
Pouquíssimos talos
oscilam na grama seca -
Vento de outono.
Anibal Beça
o rato do campo esconde-se
no ninho dos perdigotos
José Félix
10.
O que tanto falam
estes velhos na pracinha?
Palavras, palavras
Anibal Beça
As tábuas da mesa antiga
tremem sob os nós dos dedos
José Félix
11.
Leveza de vôo -
Ah, se as palavras pousassem
como esta libélula
Anibal Beça
As folhas secas deslizam
Sobre a água transparente
José Félix
12.
A tarde se põe
em tons vivos de amarelo-
jardim de crisântemos
As nuvens passam ligeiras
contrárias ao caminhar
Anibal Beça
13.
Um rebento novo
à sombra da bananeira-
Um velho e um jovem
Na celha a roupa lavada
espera pelo varal
José Félix
14.
Tarde de outono -
o bambu se curva ao vento
mas não se quebra
Anibal Beça
Voa, voa andorinha
leva o caminho do sul.
José Félix
15.
Os patos selvagens
em viagem descem famintos -
plantação de arroz
De porta em porta o romeiro
estende sua tigela
Anibal Beça
16.
O tosquiador
pousa a tesoura afiada -
ovelhas na várzea
Batem teares antigos
guiando o fio de lã.
José Félix
17.
A primeira lua
tão cheia e tão amarela!
Bênçao para os olhos.
Prilampos no quintal
e a Via Láctea tão nítida
Anibal Beça
18.
O velho bonsai
é um jogo de paciência -
sombra na parede.
As palavras de Bashô
estão coladas no tempo.
José Félix
19.
Na manhã de frio
um sabiá na neblina
chama pelo sol
Depois de uma noite longa
muitas luzes ainda acesas
Anibal Beça
20.
Na manhã de orvalho
gotas de água no pé de arroz -
um colar de pérolas.
Na margem do rio Sado
duas sombras de flamingos.
José Félix
21.
Eclipse de outono -
refletida na parede
meia-lua apenas.
Anibal Beça
No plátano dois pardais
sacodem as asas húmidas
José Félix
22.
Finzinho de outono -
Ah, cigarra cantadora
já cantas tão longe...
Anibal Beça
Os olhos do gato seguem
as sombras por entre os choupos.
José Félix
23.
O primeiro sol
leva as asas da cigarra -
juntam-se as formigas
Os meninos camponeses
debulham o milho na eira
José Félix
24.
Uma folha seca
pousa no chapéu do ancião -
Visita ao asilo
Em cada nó na tarrafa
uma outra história tecida
Anibal Beça
25.
Passa um funeral -
murcha a última papoila
na seara de Beja.
Nos beirais alentejanos
os ninhos estão vazios.
José Félix
26.
Na noite comprida
vagarosos são os passos
até o banheiro
Há tempos que o sono solto
se interrompe mais de uma vez
Anibal Beça
27.
Casa abandonada -
nas portas escancaradas
entram folhas secas.
A furgoneta carrega
uma cadeira e a mesa.
José Félix
28.
Trinados de pássaros
embalam velhas memórias -
calmo cemitério
O vento nas folhas secas
inventa um murmúrio de ondas
Anibal Beça
29.
Bengala esquecida
no tronco da cerejeira -
regresso às origens.
Rasto de passos pesados
marcam os sulcos da terra.
José Félix
30.
Noite longa -
a lua cheia é a mesma
mas não os ruídos
O que se ouvia tão forte
agora se ouve baixinho
Anibal Beça
31.
Amanhece o dia -
há montes de folhas secas
na borla do lago
os pescadores furtivos
acoitam-se para a sesta
José Félix
32.
no dia de outono
um novo olor no jardim -
orquídea florida.
As abelhas jandaíras
preparam nova colméia
Aníbal Beça
33.
Aroma a tabaco -
os apicultores limpam
com fumo os cortiços.
Ouve-se o zunir das abelhas
a rondar o campo de urzes
José Félix
34.
Antes da chuva
folhas arranham a porta -
Vento de outono.
Anibal Beça
Correm coelhos no montado
pouco antes de anoitecer.
José Félix
35.
Esta lua cheia
também estava por lá -
primeira paixão.
Anibal Beça
Aqui os bicos da lua
arredondam ao contrário
José Félix
36.
O outono se vai -
à porta entre folhas secas
a carta esperada
Anibal Beça
Na mesa de castanheiro
há muitas cartas antigas
FIM



