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sábado, janeiro 31, 2004


Não quero deixar de apôr aqui o meu testemunho antes que termine o dia 31 deste mês. Foi um mês prenhe de situações, umas construídas pelos mass maedia, outras que fazem pensar o mais incrédulo dos habitantes deste planeta que já não é tão azul.

Claro que estou preocupado com algumas situações de guerra no planeta; já não há guerrras localizadas, regionais. Hoje, todas as guerras são nossas: minhas, tuas, vossas. Passe-se a guerra ou terrorismo no Afeganistão, nos States, no Iraque, em Israel ou na nossa própria casa. Tudo diz respeito a todos.
Só que neste rectângulo, que mais parece um Joker de um baralho de cartas feito para jogadores experimentados, tudo é amplificado e distorcido por falta e/ou inépcia dos informadores / formadores. Falo nos formadores / informadores, não é a primeira vez que o faço, por saber ser uma questão muito importante na sociedade actual.
Nesta abordagem, realço o resultado das provas globais tão divulgadas nos meios de comunicação social, em que a média de valores nas disciplinas de Português e Matemática é negativa, rondando o número 7(sete).
Não há vontade política para mudar o estado de coisas. Queixa-se uma prifessora, e eu concordo plenamente com ela, que já não se fazem ditados, redacções, textos para responder às questões. Os alunos só preenchem formulários, levando a linguagem minimalista para a educação. No campo da disciplina de Matemática chega-se ao disparate de alguns alunos saberem quanto é 7x8 e não saberem quanto é 8x7. Ninguém conhece a "A Portuguesa", o hino nacional de Portugal.

Enfim, não há cabresto que se arranje para que este estado de coisas tome o rumo certo.

Estou deveras preocupado com outro problema que me deixa sobressaltado. É Inverno, estamos a meio da estação fria, quando a temperatura é normalmente mais baixa. Se não repararam, pelo menos os habitantes a sul do rio Tejo, há mosquitos enormes a passearem pelas paredes brancas dos quartos. O ambiente nestas zonas não sofreu alterações de nota nos últimos tempos para que os mosquitos tenham a capacidade de resistência a este tempo. Sucede que os ovos que ficaram em alguns sítios e que agora são charcos devido às chuvas, começaram a eclodir causando o desespero dos habitantes da Grande Lisboa e para gáudio do meu apetite voraz. Valha-me ao menos isso.

Aqui vai o Hino Nacional composto por Alfredo Keil e Afonso Lopes de Mendonça:



I
Heróis do mar, nobre Povo,
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

II

Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!


Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!

III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões marchar, marchar!





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quinta-feira, janeiro 29, 2004



Pode-se dizer que é um regresso doloroso. Foram três dias de tentativas, umas falhadas, outras a largar sorrisos de vitória.

O meu computador ardeu. Literalmente; fogo, fumo e restos calcinados. Valeu-me alguns conhecimentos de informática para recuperar os dados que tinha gravado no disco rígido desde Outubro de 2003. Menos o correio electrónico. Esse, desde o mês 10 até 29 de Janeiro ficou irremediavelmente perdido, uma vez que não fiz uma cópia de segurança desde o dia 25 de Outubro.
Adiante que o cavalo não espera e aguarda que lhe ponham as esporas.

Terminada a novela Feher que atingiu o histerismo nacional - conversei com algumas pessoas de bem que convergem quase na totalidade com o meu pensamento -, já a Comunicação Social procura outr(s) alvo(s) para fulminar os cérebrozinhos da gentalha, uma minoria, com apetite pelo que é mais sórdido.

Quando aparece alguém a dizer um poema, a ler um texto de um escritor, a mostrar uma tela, um desenho, uma caricatura, o tempo, em televisão e na rádio como o espaço nos jornais e revistas, são escassos. Ainda não perceberam que na inutilidade da poesia é que está a grandeza. Não é uma contradição

A inoperância não está nos receptores das mensagens como o dizia no blogue do meu amigo Nuno, o Poetry Cafe. A maior parte das vezes a inaptidão está nos formadores de opinião. Uns porque o conhecimento ganho ao longo dos anos ficou nas calendas gregas, outros porque estão definitivamente agarrados a empórios que os algemam e lhes colocam um colete de forças no cérebro.

E assim vai este mundinho na maravilha da crista da onda dos «shows» mediáticos, cada um a procurar os cinco minutos de fama a que se acham com direito.

Deixo-vos um poema longo com uma epígrafe de Jorge Luis Borges.




Escrever um poema é ensaiar uma magia menor. O instrumento
dessa magiam a língua, é assaz misterioso. Nada sabemos da sua
origem. Só sabemos que se ramifica em idiomas e que cada um
deles consta de um indefinido e mutável vocabulário e de um número
indefinido de possibilidades sintácticas

Jorge Luís Borges, in "Os Conjurados", 1985


arte contemplativa - tríptico

no passeio das tágides as gaivotas
vieram beijar-me os dedos dizer-me
da distância delida na dormência
violável da memória.
são imagens sem pele como aquelas imagens
consecutivas são tão sucessivas
de todos os dias.
___ horizontalizava-me na cama caída do quarto
retinha as mãos em cruz como os cristãos
e pretendia ardentemente a morte
num acto voluntário mais diria
sublime do que a própria vida.
a brancura das asas a cor bórea
que leva a salina das angústias
é que me transfigura de morte em morte
em ressurreição e ressurreição.
passeio longe álgido na corrente do tejo gasto
em marés de invenções sobrevivências
medindo todos os passos da habitação
uma casa inventada de memórias.
tejo protocolar visita de vadios
de alma inclinadas vidas
sempre no cio das ondas submersas.

os olhos das gaivotas são o mar
mar laço de naufrágios
a foz de rios avessos
ulisses e penélope nas vagas águas

preso num fio de água tecelão
equilibro a loucura da viagem

no plenilúnio olho a minha sombra
na salsugem suspenso
nas águas naufragadas.

II
bebo mares e bebo madrugadas
no ópio das gaivotas
ébrio no marulhar das águas móveis
perco-me na contagem das estrelas
que já não são. cego. guiam-me rotas
planto palavras fogo de uma fala distante
a alimentar a chama do poema
que doloridamente
me queima os ossos gasta o aroma das flores.
___ há vinte anos que vejo a mesma árvore
defronte da janela do meu quarto.
vinte janeiros. é uma árvore pequena que dá
folhas flores em meados do inverno.
olha amélia este ano aquela árvore já tem folhas.
o tempo muda.
é sempre assim há vinte anos meu amor, dizes-me.
encanto-me de cada vez que nascem
novas páginas na textura do tronco ali defronte.

os navios descansam na cidade sem memória
o néon. o silêncio dos amantes
é igual em qualquer urbe. o cheiro
do rio já não pertence ao rio. é meu
e de todos aqueles que rastejam distâncias
às gaivotas enfraquecidas que
não receiam estranhos viajantes
perdidos no pedrado da calçada
a recordar a árvore que dá
folhas verdes no inverno
poemas contemplações
um sorriso um olhar de água
também a vida inteira.

III
deixo o rio. no silêncio das pedras abandono
o idioma dos sentidos e carrego
as palavras donzelas prostituídas
mais cedo do que as madrugadas
iluminadas nos rostos de mulheres imperfeitas.
dói-me a pureza dói-me a perfeição.
___ no rio está a cidade inteira
de onde em onde as janelas incendeiam
casas de amor tardio.
esgoto as avenidas no suicídio
de noites precavidas entreabertas
e arrasto o poema esperma das manhãs
iniciadas na cópula dos dias.

já não sei o que é o tempo.
a vida é o aroma de uma flor

tenho a réstia de luz que se prolonga
no reflexo das águas e se perde no abraço
das pedras marginais.
marginais confidentes reflectidos egos.

beijo o rio. beijo a flor
uma rosa vermelha espalha as pétalas
nas águas ventanias
permaneço no limbo de uma folha
presa no pecíolo.

josé félix





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segunda-feira, janeiro 26, 2004



Apetece-me dizer como o ortónimo Fernando Pessoa, a minha pátria é a língua portuguesa, e muitos outros amantes desta língua que a tomam quase como uma amásia. Sim, a língua portuguesa é sensual, erótica e, por vezes, comporta-se como uma perfeita prostituta.
Não vou tecer considerações sobre a língua que falo, isso deixarei para alguns académicos tão amantes dela como eu e, também como eu, lhe retiram o pathos para a sobrevivência diária.

O que me traz aqui é outro assunto.
O jogador de futebol Feher desaparece vitimado por uma trombo-embolia pulmonar. Até aqui, tudo bem ou tudo mal. Noticia-se o facto em todos os canais de televisão, em todas as rádios e jornais do país. Nada em contrário. O futebol é um polo galvanizador de várias frentes sociais e há que dar-lhes alimento para que não haja contravenções de maior, fricções.
O que está mesmo mal é dar-nos "Feher" durante 50 minutos à hora do almoço, e à hora que vos escrevo já vai em 30 minutos nos canais SIC e RTP1. Não é uma violência? Não são notícias como esta que banalizam a morte de tal modo que as gentes fogem dela quando ela lhes bate à porta? Cobre-se o morto, chama-se o padre e o rabi e há que despachá-lo o mais rapidamente possível para sob a terra pois está a estragar-nos o fim-de-semana que deveriamos ter no Algarve com os amigos dos copos. Não há pachorra para esta comunicação social. Criou-se uma praxis da comunicação que se toma como acertada mas que é assente, em minha venenosa opinião, uma falácia.
É necessária uma revolução das mentalidades. Devemos tratar (d)os mortos com o respeito que merecem, sem o espectáculo de «reality show», com comentários a torto e a direito, desde os políticos aos empresários do desporto. Um assunto localizado passa, como que num passe de mágica, a assunto nacional.
Porque não colocarmos a bandeira a meia haste? Porque não colocarmos uma sentinela à porta da morgue e pôr, depois, em vez da bandeira do clube,a bandeira nacional? Porque não a presença do Presidente da República, do Perimeiro-ministro, do Cardeal Patriarca? Uma banda a tocar o Requiem de Mozart ou o de Verdi?
Ouço agora o jornalista José Alberto Carvalho a perguntar ao Sr. Valentim Loureiro se não deve haver uma reflexão sobre o assunto.
Procura-se um culpado. O culpado foi do árbrito que deu um cartão amarelo; o culpado foi o grupo paramédico que chegou 10 minutos depois; o hospital de Guimarães foi culpado poque não tem as máquinas de reanimação cardíaca necessárias.

Caramba, amigos. Não será que os únicos culpados somos nós, que permitimos isto tudo e muito mais?

Vasco Pulido Valente desabafou no jornal O Público, de Sábado: o problema é que a Espanha não nos quer anexar.

Recolho-me à Teia. Já perdi muito veneno e tenho de o recuperar.

no espelho, uma vogal subtil caiu
anuviando o reflexo
que fixava
a transparência lábil; a fronteira
do equilíbrio do lábio
que se inclinava
na luminosidade transferida.

na mistura das águas
a vogal
alinhou a navegação
por sobre as árvores
no início da folhagem.

no sol havia a lucidez do olhar.


josé félix


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sábado, janeiro 24, 2004


Confesso, caros amigos, que corroboro inteiramente com o editorial de José António Saraiva

no semanário Expresso de hoje.
E, gostei, mais ainda, porque não sugere nem acusa. Com um simples senão: o título.
O título que vem de parte do texto infere de pecado. Ser português não é nada perigoso. Em absoluto. Eu penso que, e através dos meus estudos em história, presentemente é mais actual dizer-se que este cantinho que não é nada um jardim à beira-mar plantado, é uma mancha, sim, uma autêntica mancha no pano branco que é a Península Ibérica. E quanto aos benefícios que este país teria se fosse uma região autónoma de Espanha nem adianto para não dizerem que estou a gastar inutilmente o meu veneno, quando o poderei fazer noutras alturas mais próprias.
Vejamos e ouçamos os federalistas; Mário Soares, por exemplo, que, além de ser federalista europeu é também um iberista. Diria que é um iberista pela diferença. Só que no mundo globalizado com é o nosso, não se poder ser iberista pela diferença mas sim pela unidade de consensos. Depois há aqui outro problema. Consenso? Pura ilusão. O consenso que tem havido entre Lisboa e Madrid é a ditadura de Moncloa. Só se faz em Portugal o que a Espanha quer ou quiser.
E por aí adiante.

Ser português é ser perigoso? Já não há batalhas de Toro, nem Aljubarrota, nem Conquistas, nem Império.

O que falta, caros amigos, é uma Fábrica de Ideias.

Aí vai mais um fio do meu poemário.



a palavra suspensa
arde breve
enquanto a casa acesa

ilumina na combustão dos dias
a frase interrompida
no princípio da infância

o meu pai colhe musgos
à sombra de um sorriso.


josé félix






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sexta-feira, janeiro 23, 2004



Já viram uma aranha sempre à caça? Não! Ora, o que a aranha faz é ficar à espera, na sua Teia, que algum insecto mais afoito se atreva a tocar nos fios de seda e se enrede de vez para que lhe possa dar a ferroada final.

Na Terça-feira houve um programa feito pelo Júlio Isidro sobre o José Carlos Ary dos Santos. Confesso, o meu veneno, que esperava muito mais de um programa feito pelo Canal 1, público, da RTP. Falou-se de tudo, menos do que ao telespectador interessava: a poesia de Ary dos Santos. O que se viu ali foi um panegírico dos «amigos» do poeta, em vida, e nada mais. Deu Tordo e outros pássaros. Ary dos Santos, mais do que um poeta de canções, escreveu poemas de qualidade literária que deveriam ser estudados nas Universidades e nas escolas, em vez de outros poetas, não digo menores, que figuram nos livros de estudo. Nem a crítica atempada feita por José Jorge Letria e o Joaquim Pessoa fez rodear o programa pré-feito. Pré-feito, não perfeito, por omissão de informar e formar os espectadores de televisão.
Ora, não se estuda o Ary dos Santos, porquê? Eu não tenho qualquer tipo de problema em assinalar tal falta, pois dou ferroadas tanto à esquerda como à direita, conforme apraz a auma aranha que tem por seu habitat uma Teia com todo o espaço político por universo.

Até lá, fico-me por este veneno e mais uns fios de teia.



há pássaros

há pássaros na copa da árvore

percebo o ponto exacto
do silêncio das nuvens
.(1)

as asas brincam nos olhos meninos
na cegueira de tanta luz.

há pássaros nos lábios
quando a sombra regressa

à axila da tarde.

josé félix

(1) Hoje o Luar, um poema de José Gomes Ferreira.


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terça-feira, janeiro 20, 2004



Espero bem chegar ao fim do texto que pretendo escrever. É que tenho tido problemas com o meu servidor de Internet e, de vez em quando, vai para o sossego e deixa-me fora de serviço.

Mas com esses problemas de ligação à Internet passo bem. Já não passo bem com a falta de esclarecimento e a suprema soberba do servidor Terravista que, sem pedir mercê desliga o FTP (File Transfer Protocol) para que se possa fazer a descarga de ficheiros e poder-se, assim, actualizar as notícias e secções respectivas da página.
A página em questão é Encontro de Escritas, uma página que se dedica à divulgação da língua portuguesa com poemas, contos, ensaio, crítica e análise literária.

Estou naquele servidor desde 1999 e o serviço tem vindo a piorar, seja ele o Trravista.pt seja ele o serviço Setemares.pt. Há já 15 dias que não obtenho qualquer resposta às mensagens enviadas por correio electrónico.

Assim sendo, vou emigrar. Vou para os Estados Unidos onde me acolheram muito bem, de uma forma neo liberal, não capitalista porque não paguei um único centavo e deram-me condições de trabalho excelentes: 50 Mg de espaço em disco, várias caixas de correio, um programa informático para transferência de ficheiros e, ainda, um editor de linguagem html wysiwyg.

Depois aparece uma Bonina do Capo ou um Sapo do Amazonas (o tal Aru das palavras cruzadas) dizendo-me que estou de mal com a vida.

Será? Estou?

Vou recolher-me à Teia antes que sinta um aperto na garganta do meu próprio veneno. Antes, porém, deixo aqui um soneto com estrambote para os amigos e inimigos.


Vens, linda Clóris, pousas os teus dedos
nos lábios francos onde a água filtra
o canto do murmúrio que soletra
a margem, sombra lenta dos segredos.

Descubro no teu corpo o gineceu,
o molde, muito e vário, construído
na flor da mão. Em Pilos, perseguido,
no olhar ilhado e puro de Neleu

aguardo a pomba branca com ambrósia,
o voo rasante da ave, a Fantasia,
Aurora, a fonte viva das idades.

A franca nau caminha de alegria
no vento Zéfiro onde a água alia
o remo, o leme, a proa contra Hades.

Embora minta certas realidades
eu não sou tecelão de falsidades.


José Félix
inédito / 2004




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quinta-feira, janeiro 15, 2004



Há dias que não posso sair da minha Teia.
Fui ao Governo Civil actualizar o meu passaporte para uma ida ao Brasil e, quando desço o Chiado para o Parque automóvel dos Restauradores vejo a seguinte publicidade:


- Curso de Clown dirigido pelos palhaços tal e tal. Ora, porque não um curso de Palhaço? Será que «clown» tem outra tradução? Soa melhor em língua inglesa? Ou seremos todos palhaços, eu, aranha incluído?

Confesso que hoje não estou para versos. Ainda não produzí o veneno necessário para que um verso me faça suar 99% de trabalho.
Até lá mais teias.

O servidor que me fornece os sacos para os internautas deixarem o veneno está inoperativo. Fui servir-me noutro espaço e já tenho sacos novos para que alguém possa deixar as mordidas bem vincadas e o respectivo suco mortífero. Assim que o antigo fornecedor regressar das montanhas, certamente, não se perderá uma pitada sequer. Reporei aqui todo o veneno deixado.
Eu sei que que há animaizinhos que até percebem de informática e podem vir aqui estragar-me o contador de visitas, modificar as imagens e outras maldadezinhas possíveis. Estou preparado para isso tudo. É que eles fazem isso em mais de uma centena de páginas e acabaráo por se aborrecer. Eu só tenho este bolgue venenoso e tenho todo o tempo do mundo para repôr os fios da Teia no devido lugar.
Um abraço de morte.



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quarta-feira, janeiro 14, 2004



Não! Caros amigos.

O problema é que tive um ataque de outros vermes e insectos e tive que me recolher à Teia por uns tempos para não ter que sarar as injúrias do abdómen e das patas.
Agora que tudo está como deve já posso regressar aos passeios pelos fios da casa a atentar nas coisas que tacteio ao de leve.
Parece-me que tenho alguns problemas para resolver e o buraco onde se pode deitar o veneno também foi afectado po estranhos rastejantes. Mas aguardem-me. Irei repôr tudo conforme a aranha quer.

Deixo só, aqui, dois sonetos para a Bonina do Campo. Eu sei que ela virá outra vez beber do meu veneno. É uma atracção fatal: quanto mais é mordida, mais atraída se sente.

Tejo - fuga nº 1 - concepção

as ninfas poisam nas águas como éguas,
espreguiçam-se dolentes na pedra
e as ondas que elas sopram eu carrego-as
no fogo que consome e até empedra

na lúcida memória como fráguas.
espelham-se no tejo, não se arreda
uma escama sequer de sobre as águas,
enquanto a vida esvai numa clepsidra

de hipólitos amores sem mais tréguas.
de desencanto em desencanto, fedra
já abandona o corpo com as mágoas

ao abandono do rio que não medra.
quanta água tem a história deste rio
com tanta vida presa por um fio.



Tejo - fuga nº2 -conclusão

as ninfas poisam nas águas com léguas
de preguiça quietas como greda.
porque não sopram as ondas, carrego-as
no fogo consumido sobre a pedra.

a memória aquece como fráguas,
banha o tejo salino sem as rédeas
de potros irrequietos sem as éguas
no pasto esvaindo-se na clepsidra.

mas há tantos amores sem mais tréguas
como o amor desencantado de fedra
sem o corpo de hipólito. só mágoas.

ao rio se abandona, a ele se empedra.
olhando as águas fartas deste rio
mesmo as sombras se prendem por um fio


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quinta-feira, janeiro 08, 2004



Eu não discuto, nunca, a forma externa que o poeta utiliza para o seu discurso. Cada autor deve ser reconhecido através da sintaxe poética, do seu discusrso poético. Cada ideia pode ter o tratamento que o autor julgar melhor. Um tema pede uma ode? Faça-se a ode. Pede uma elegia? Faça-se a elegia. Pede uma canção, um vilancete, uma carja, faça-se, pois claro.
Quanto ao soneto, eu sou da opinião que é uma estrutura que dá para tratar de qualquer assunto; não só para falar de Laura de Petrarca, nem da Infanta Maria de Camões. Dão-me tanto gozo os sonetos de Sá de Miranda, de Camões, os poucos e bons de Jorge de Sena(estes com estrambote), como os sonetos de Jose Guimarães, que subverte por completo as regras das duas quadras e dois tercetos.

Não vou alongar-me em explicações, até porque reitero alguma coisa que o Nuno aqui disse. A ele, ao Nuno, que não conheço pessoalmente dou estes dois sonetos, ambos com estrambote de um verso.


no espelho do teus olhos não me cuido
de olhar a nua breve transparência
que apaga por instantes a ausência
no tempo da palavra eternidade.

talvez assim eu possa ver a idade
nudez a que se dá aos permitidos
harpejos harmonia dos sentidos
na leve pele gestos em descuido

nos lábios róseos de loendro aroma
perfume jovem sempre que se toma
dos sábios a arte de beber o corpo.

no olhar do espelho que reflecte e vejo
a minha própria sede sai do copo
que molda e verte todo o meu desejo.

amor é flor que no teu corpo encarpo.





vejo-te debruçada sobre a cama
tão serena e perpétua nos lençóis
que o brilho e a brancura de mil sois
transformam em velasquez inclinada.

e na serena idade reclinada
jónia, vestal caída, leve e nua
com os meus dedos toco a carne tua
que a minha própria carne tão reclama.

inicio as viagens corporais
que soltas pela mente dão sinais
de incontidos prazeres e paixões.

meço os gestos contidos mas audazes
porque tu me dás, dou-te em intenções;
é assim que nos tornamos mais capazes

de amar, por puro amar, sem condições.



José Félix


À Bonina do Campo envio mais um soneto que diz das coisas de uma puta. Tem um estrambote de dois versos. É só um pouco mais de veneno. Ah! que ansiedade em vê-la enovelar-se na minha Teia.



o teu rosto de virgem messalina
bebe a angústia daqueles que visitam
o teu corpo no beijo da corola
falecida de cedos vendavais.

és a casa, o regaço, o alvo lençol,
o aconchego do sono desejado.
és a mãe, és a filha enternecida
na tristeza que dás e que recebes,

na alegria que mentes e não sentes
no sorriso que tentas e pertence
ao desejo do corpo aquietado.

mulher puta, doméstica, vadia
olhos virgens, os lábios de sexo
rezam o padre nosso e a avé maria.

mulher, sempre mulher a cada dia.
no perfume do sémen e do aloendro.


josé félix


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quarta-feira, janeiro 07, 2004



Margarida

Não discuto com uma bonina do campo se aqulio que eu escreví é um soneto ou não. Para mim é, e pronto. E não é só por ter 14 versos divididos em três quadras e um dístico como no soneto inglês ou sepenceriano - de Edmund Spencer -, e que podia ter sido um soneto latino ou siciliano ou de Petrarca. É soneto, ponto final.
Agora, se a flor não gosta do aroma que o poema deita, já é outra coisa. Não é obrigatório que os versos transpirem mel e nuvens, porque as pústulas, o pus das feridas corre em abundância desde o Big-Bang.
O F.A.P. sempre me mereceu o maior respeito e - porque só se lembram dele quando faz anos ou quando sai um novo livro, depois de morto, é certo -, a forma que encontrei para o homenagear foi aquela. Só quem desconhece na totalidade a obra do Assis Pacheco é que pode confundir a pele com a substância.

Sou um aracnídeio, sim senhor. Uma aranha verdadeira e venenosa. E como todas as aranhas, não me escondo nas tocas dos «nick-names», nas esquinas dos pseudónimos. Estou bem à vista, com fotografia e tudo para todos conhecerem quem é o autor do veneno: José Félix, aracnídeio de cepa, sócio da A.P.E. com o nº 1120, pendurado na esquina da casa, sempre à espreita que uma pétala de Bonina do Campo toque num dos meus fios.

Eu gosto de Camões. Gosto dos sonetos de Camões. Mas garanto-lhe, o Camões até nem é o maior sonetista em língua portuguesa. Há, em minha opinião de aranha, um Sá de Miranda, bem melhor do que ele e, já agora, aconselho-a a ler "As Flores do Lima" de Diogo Bernardes. Há uma reprodução fac similada de uma edição de 1597. Leia-a e veja se não há lá melhor do que o Camões.

Estou de muito bem com a vida e, por isso, destilo o veneno que me apraz. Há quem se enrede na própria teia; eu não conheço aranha que se diga, que se enrole nos próprios fios.

Quanto ao mais, vá bebendo do meu veneno. Pode ser ser que a alimente também e lhe aguce a visão crítica.

Recolho-me à Teia. Tmbém gostei de lhe dar umas picadelas.



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segunda-feira, janeiro 05, 2004



O veneno da aranha contém proteínas, polipeptídeos e aminas. Algumas dessas substâncias são capazes de interromper a comunicação entre o sistema nervoso e os músculos e depois, záz! não há tempo nem antibiótico que valha para que um simples fio prenda à vida.

Confesso que tenho andado um pouco enredado na minha própria teia, esperando, talvez, o momento propício para dar uma ferroada e desfazer o abdómen de algum insecto que se acoite nos meus fios.

Também vivo do veneno dos outros. Por sisso, teçam os vossos comentários, digo, as vossas teias e venham deitar o vosso veneno sobre qualquer bicho que se esconda nas esquinas da casa.

Até lá, uma picadela.

É um gozo ver tanta gente numa roda viva acerca da pedofilia. Deve ser um assunto muito interessante porque há muita gente a pronunciar-se sobre ele: os jornalistas, os políticos, o supremo dirigente da Casa com cheiro a bafio, os dirigentes de todas as religiões, os meninos e as meninas das escolas, os srs. professores. Esta Casa é muito interessante, maravilhosa para uma aranha sempre prestes a deliciar-se com pequenos insectos corruptos, com o amiguismo, o nepotismo, o toma-lá-dá-cá como instituição pública.

Recolho-me à teia.


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domingo, janeiro 04, 2004



Uma boa notícia é sempre uma notícia boa!

Fernando Assis Pacheco, depois de morto, é digno de panegíricos. Não falo, claro, dos verdadeiros amigos do FAP, como o José António Gonçalves de quem vi ontem um fotografia da época com o Pacheco, mas daqueles que sempre lhe outorgaram os piores emcómios e, agora, sopram de mansinho sobre a tumba do falecido.
O F.A.P. foi sempre uma pessoa, não diria incómoda porque não incomodava ninguém, mas a sua escrita acerada como a lâmina fina de uma adaga, incomodava, certamente, alguns sectores instiyuidos.
Lembro-me da "Musa Irregular" e de alguns poemas onde ressalta a fina ironia e o mais doce, sim, doce, sarcasmo.
"This Sporting life" recorda-me a Ilha de Luanda, os Pézinhos na Água, as kizombas e as mulatas, "Soneto aos filhos"; "[...] não peço nada usai o meu nome / se vos praz lembrai-me / o que for costume[...]" e por aí adiante.
Por isso li a boa notícia do novo livro de Pacheco, embora morto. É por isso que é um grande Homem: publicar um livro depois de morto é sempre obra. Aguça-me a curiosidade para o comprar. "Respiração Assistida" será, seguramente, um bom livro.

Dedico-lhe este soneto pois mais nada tenho para lhe oferecer, sabendo que aos mortos nenhum cuidado assiste nas ofertas.


és a puta mais puta desta rua
que ofereço os meus versos marginais;
palavras que se rendem e fatais,
lá vão, perfuram, entram como a pua.
vendes o corpo com silêncio, nua,
para gradeares a alma com sinais;
vergastas, cintos, gritos animais,
bebendo o sémen onde desagua
a falta de intenção dos esponsais;
na posição horizontal e crua
na vontade dos dias verticais
no lento sombrear da luz da lua.
és puta, puta na senhora vais
a mais senhora puta na manjua

José Félix


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sábado, janeiro 03, 2004


Caro a.

Normalmente não respondo por esta via. Claro, como todas as aranhas, por vezes, saio da teia e dou uma passeata por outros muros, vasculando as frestas das paredes. Encontra-se lá, quase sempre, bichinhos minúsculos com os quais me entretenho nas cócegas das minhas patas. Valeu-lhe ter-me comparado a Mário Henrique Leiria. Sabe porquê? Não o conheci apesar de ter nascido em 1923 e ter morrido 57 anos depois. Eu nascí 43 anos depois e ainda teço as minhas teias nas casas onde me deixam.
Como um bom aracnídeo, perspicaz e desejoso de descoberta, fui patear por alguns sítios e descobrí, afinal, quem é o Mário Henrique Leiria; um poeta, surrealista, um pintor. Gostei do que vi e li, pelo rasgo febril da escrita, pela contundência da frase e, sobretudo, pelos Contos do Gin Tónico.

Por outro lado, só lhe encontro semelhanças na quantidade empregos que teve.

Gostei de conhecer a aranha, embora já faça parte do reino de Hades.

Aqui deixo a minha homenagem:

"TELEFONEMA
Telefonaram-lhe para casa e perguntaram-lhe se estava em casa.
Foi então que deu pelo facto. Realmente tinha morrido havia já dezassete dias.
Por vezes as perguntas estúpidas são de extrema utilidade."

Mário Henrique Leiria



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sexta-feira, janeiro 02, 2004


Pensavam que eu tinha desistido? Como assim? Sem mais nem menos? Sem ver quão inglória é esta actividade dos blogues? Não! Caros amigos! Ainda tenho veneno para destilar, teias para tecer e ficar no meu canto, de presas alerta para poder apanhar a próxima vítima.


no canto da sala
vou tecendo a minha teia -
zunem os mosquitos.

Neste Inverno tenho percebido uma coisa inusitada. Talvez não tão inusitada assim, uma vez que o tempo tem sofrido mudanças «terríveis» que fazem com que estes bichinhos gostosos para as minhas mandíbulas apareçam na minha sala e no meu quarto, apesar de temperaturas a rondar os 0 (zero) graus centígrados.

Eu cá os espero, tecendo, tecendo e tecendo. Um dia, depois de uma actividade febril em picadelas na carne suculenta, cairão na minha teia perfeita, como um espelho e, zaz! Nesse dia fará parte da minha dieta alimentar.

Sou uma aranha com uma certa idade e, como já perceberam, ainda estou aqui, no meu canto, após grandes e digestivas batalhas contra um batalhão de mosquitos pérfidos no seu labor sanguíneo.

O que a teia nos reserva?


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quinta-feira, janeiro 01, 2004



Do canto da parede, como o escaravelho de Kafka, vou discernindo as baixezas daqueles que me rodeiam; o microcosmo da casa e o micro/macrocosmo além da janela, discreta, onde vejo todos os anos, por esta altura, a mesma árvore que se enche de botões e grita ao tempo para nascer as folhas.
É dia 1 de Janeiro. É só um dia no calendário que começa em 2004. Dir-me-ão «é Ano Novo», como se a novidade estivesse no simples gesto de virar a folha do calendário. O ano é velho, será sempre velho e cada vez mais velho; até para aqueles que nascem hoje, já começa a envelhecer.
Bordejo as linhas da minha teia e percorro convencionalmente os quadros das quatrro estações pendurados na parede.
E fico-me por aqui, antes que, kafkianamente, alguém me sapateie e me envie para a vida que nunca será eterna.
Deixo-vos um poema colocado na lista Escritas e que, tão sabiamente, o meu amigo José António Gonçalves teceu algumas considerações. Diz ele: "Meu caro José Félix, estamos já em outro ano, traçamos nova meta de vida, mas a poesia fica, segue um rumo, cumpre um percurso.
Abro o e-mail deste 04 e encontro, logo à primeira, "a flor da água" e encanto-me com a sua cadência, a inóspita
viagem da escrita por dentro das coisas: o poema circular que vai e vem, numa doce e amarga manifestação de infinito.
Gostei; valeu a pena este regresso ao computador, no primeiro dia, de um tempo novo.
Não podia deixar de dizer-to e de remeter-te os meus sinceros parabéns, com a esperança de que tudo te tenha corrido bem, no abrir de mais uma página de um calendário que, muito embora até agora estivesse fechado, apresenta sempre janelas de esperança ao Homem!
Brindo contigo e com os nossos confrades das "Escritas" por este processo de renovação na vida e na poesia!
Abraços!
JAG"



a flor da água

o copo de gin é o teu
segundo corpo ou o outro
corpo que procuras na resignação
de uma janela semi-cerrada
com receio de que a réstia de sol
aclare a ideia e a visão
de um saber que não soubeste
alisar a esquina sem ferir.

procuras o balcão, suporte dos olhos,
perdido nas ruas de uma cidade imaginada
e sangras palavras que o álcool
faz mais eficaz aos ouvintes
possíveis que escutam provisoriamente,
de passagem, à espera de um conto
sobre um gajo que ganha a existência
fazendo rodas de fumo cinza
nodando os dedos sobre o madeiro.

na tertúlia do próprio corpo
constróis o poema que é lido
com a voz de vinho por um tipo qualquer
e o leva para casa
como a relíquia mais presente de um dia de agonia.

há vidas que estão presas aos costumes
como outros há que se acostumam
aos restos das paredes onde se escondem
alguns minutos de sexo e esperma
e,também, ilusões de sonho no inox das colheres.

há quanto tempo não beijas o ventre
de uma mulher acesa
e sentes a flor da água seguir-te os dedos?

josé félix


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