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quinta-feira, janeiro 01, 2004



Do canto da parede, como o escaravelho de Kafka, vou discernindo as baixezas daqueles que me rodeiam; o microcosmo da casa e o micro/macrocosmo além da janela, discreta, onde vejo todos os anos, por esta altura, a mesma árvore que se enche de botões e grita ao tempo para nascer as folhas.
É dia 1 de Janeiro. É só um dia no calendário que começa em 2004. Dir-me-ão «é Ano Novo», como se a novidade estivesse no simples gesto de virar a folha do calendário. O ano é velho, será sempre velho e cada vez mais velho; até para aqueles que nascem hoje, já começa a envelhecer.
Bordejo as linhas da minha teia e percorro convencionalmente os quadros das quatrro estações pendurados na parede.
E fico-me por aqui, antes que, kafkianamente, alguém me sapateie e me envie para a vida que nunca será eterna.
Deixo-vos um poema colocado na lista Escritas e que, tão sabiamente, o meu amigo José António Gonçalves teceu algumas considerações. Diz ele: "Meu caro José Félix, estamos já em outro ano, traçamos nova meta de vida, mas a poesia fica, segue um rumo, cumpre um percurso.
Abro o e-mail deste 04 e encontro, logo à primeira, "a flor da água" e encanto-me com a sua cadência, a inóspita
viagem da escrita por dentro das coisas: o poema circular que vai e vem, numa doce e amarga manifestação de infinito.
Gostei; valeu a pena este regresso ao computador, no primeiro dia, de um tempo novo.
Não podia deixar de dizer-to e de remeter-te os meus sinceros parabéns, com a esperança de que tudo te tenha corrido bem, no abrir de mais uma página de um calendário que, muito embora até agora estivesse fechado, apresenta sempre janelas de esperança ao Homem!
Brindo contigo e com os nossos confrades das "Escritas" por este processo de renovação na vida e na poesia!
Abraços!
JAG"



a flor da água

o copo de gin é o teu
segundo corpo ou o outro
corpo que procuras na resignação
de uma janela semi-cerrada
com receio de que a réstia de sol
aclare a ideia e a visão
de um saber que não soubeste
alisar a esquina sem ferir.

procuras o balcão, suporte dos olhos,
perdido nas ruas de uma cidade imaginada
e sangras palavras que o álcool
faz mais eficaz aos ouvintes
possíveis que escutam provisoriamente,
de passagem, à espera de um conto
sobre um gajo que ganha a existência
fazendo rodas de fumo cinza
nodando os dedos sobre o madeiro.

na tertúlia do próprio corpo
constróis o poema que é lido
com a voz de vinho por um tipo qualquer
e o leva para casa
como a relíquia mais presente de um dia de agonia.

há vidas que estão presas aos costumes
como outros há que se acostumam
aos restos das paredes onde se escondem
alguns minutos de sexo e esperma
e,também, ilusões de sonho no inox das colheres.

há quanto tempo não beijas o ventre
de uma mulher acesa
e sentes a flor da água seguir-te os dedos?

josé félix


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