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quinta-feira, janeiro 08, 2004



Eu não discuto, nunca, a forma externa que o poeta utiliza para o seu discurso. Cada autor deve ser reconhecido através da sintaxe poética, do seu discusrso poético. Cada ideia pode ter o tratamento que o autor julgar melhor. Um tema pede uma ode? Faça-se a ode. Pede uma elegia? Faça-se a elegia. Pede uma canção, um vilancete, uma carja, faça-se, pois claro.
Quanto ao soneto, eu sou da opinião que é uma estrutura que dá para tratar de qualquer assunto; não só para falar de Laura de Petrarca, nem da Infanta Maria de Camões. Dão-me tanto gozo os sonetos de Sá de Miranda, de Camões, os poucos e bons de Jorge de Sena(estes com estrambote), como os sonetos de Jose Guimarães, que subverte por completo as regras das duas quadras e dois tercetos.

Não vou alongar-me em explicações, até porque reitero alguma coisa que o Nuno aqui disse. A ele, ao Nuno, que não conheço pessoalmente dou estes dois sonetos, ambos com estrambote de um verso.


no espelho do teus olhos não me cuido
de olhar a nua breve transparência
que apaga por instantes a ausência
no tempo da palavra eternidade.

talvez assim eu possa ver a idade
nudez a que se dá aos permitidos
harpejos harmonia dos sentidos
na leve pele gestos em descuido

nos lábios róseos de loendro aroma
perfume jovem sempre que se toma
dos sábios a arte de beber o corpo.

no olhar do espelho que reflecte e vejo
a minha própria sede sai do copo
que molda e verte todo o meu desejo.

amor é flor que no teu corpo encarpo.





vejo-te debruçada sobre a cama
tão serena e perpétua nos lençóis
que o brilho e a brancura de mil sois
transformam em velasquez inclinada.

e na serena idade reclinada
jónia, vestal caída, leve e nua
com os meus dedos toco a carne tua
que a minha própria carne tão reclama.

inicio as viagens corporais
que soltas pela mente dão sinais
de incontidos prazeres e paixões.

meço os gestos contidos mas audazes
porque tu me dás, dou-te em intenções;
é assim que nos tornamos mais capazes

de amar, por puro amar, sem condições.



José Félix


À Bonina do Campo envio mais um soneto que diz das coisas de uma puta. Tem um estrambote de dois versos. É só um pouco mais de veneno. Ah! que ansiedade em vê-la enovelar-se na minha Teia.



o teu rosto de virgem messalina
bebe a angústia daqueles que visitam
o teu corpo no beijo da corola
falecida de cedos vendavais.

és a casa, o regaço, o alvo lençol,
o aconchego do sono desejado.
és a mãe, és a filha enternecida
na tristeza que dás e que recebes,

na alegria que mentes e não sentes
no sorriso que tentas e pertence
ao desejo do corpo aquietado.

mulher puta, doméstica, vadia
olhos virgens, os lábios de sexo
rezam o padre nosso e a avé maria.

mulher, sempre mulher a cada dia.
no perfume do sémen e do aloendro.


josé félix


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