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quinta-feira, janeiro 29, 2004



Pode-se dizer que é um regresso doloroso. Foram três dias de tentativas, umas falhadas, outras a largar sorrisos de vitória.

O meu computador ardeu. Literalmente; fogo, fumo e restos calcinados. Valeu-me alguns conhecimentos de informática para recuperar os dados que tinha gravado no disco rígido desde Outubro de 2003. Menos o correio electrónico. Esse, desde o mês 10 até 29 de Janeiro ficou irremediavelmente perdido, uma vez que não fiz uma cópia de segurança desde o dia 25 de Outubro.
Adiante que o cavalo não espera e aguarda que lhe ponham as esporas.

Terminada a novela Feher que atingiu o histerismo nacional - conversei com algumas pessoas de bem que convergem quase na totalidade com o meu pensamento -, já a Comunicação Social procura outr(s) alvo(s) para fulminar os cérebrozinhos da gentalha, uma minoria, com apetite pelo que é mais sórdido.

Quando aparece alguém a dizer um poema, a ler um texto de um escritor, a mostrar uma tela, um desenho, uma caricatura, o tempo, em televisão e na rádio como o espaço nos jornais e revistas, são escassos. Ainda não perceberam que na inutilidade da poesia é que está a grandeza. Não é uma contradição

A inoperância não está nos receptores das mensagens como o dizia no blogue do meu amigo Nuno, o Poetry Cafe. A maior parte das vezes a inaptidão está nos formadores de opinião. Uns porque o conhecimento ganho ao longo dos anos ficou nas calendas gregas, outros porque estão definitivamente agarrados a empórios que os algemam e lhes colocam um colete de forças no cérebro.

E assim vai este mundinho na maravilha da crista da onda dos «shows» mediáticos, cada um a procurar os cinco minutos de fama a que se acham com direito.

Deixo-vos um poema longo com uma epígrafe de Jorge Luis Borges.




Escrever um poema é ensaiar uma magia menor. O instrumento
dessa magiam a língua, é assaz misterioso. Nada sabemos da sua
origem. Só sabemos que se ramifica em idiomas e que cada um
deles consta de um indefinido e mutável vocabulário e de um número
indefinido de possibilidades sintácticas

Jorge Luís Borges, in "Os Conjurados", 1985


arte contemplativa - tríptico

no passeio das tágides as gaivotas
vieram beijar-me os dedos dizer-me
da distância delida na dormência
violável da memória.
são imagens sem pele como aquelas imagens
consecutivas são tão sucessivas
de todos os dias.
___ horizontalizava-me na cama caída do quarto
retinha as mãos em cruz como os cristãos
e pretendia ardentemente a morte
num acto voluntário mais diria
sublime do que a própria vida.
a brancura das asas a cor bórea
que leva a salina das angústias
é que me transfigura de morte em morte
em ressurreição e ressurreição.
passeio longe álgido na corrente do tejo gasto
em marés de invenções sobrevivências
medindo todos os passos da habitação
uma casa inventada de memórias.
tejo protocolar visita de vadios
de alma inclinadas vidas
sempre no cio das ondas submersas.

os olhos das gaivotas são o mar
mar laço de naufrágios
a foz de rios avessos
ulisses e penélope nas vagas águas

preso num fio de água tecelão
equilibro a loucura da viagem

no plenilúnio olho a minha sombra
na salsugem suspenso
nas águas naufragadas.

II
bebo mares e bebo madrugadas
no ópio das gaivotas
ébrio no marulhar das águas móveis
perco-me na contagem das estrelas
que já não são. cego. guiam-me rotas
planto palavras fogo de uma fala distante
a alimentar a chama do poema
que doloridamente
me queima os ossos gasta o aroma das flores.
___ há vinte anos que vejo a mesma árvore
defronte da janela do meu quarto.
vinte janeiros. é uma árvore pequena que dá
folhas flores em meados do inverno.
olha amélia este ano aquela árvore já tem folhas.
o tempo muda.
é sempre assim há vinte anos meu amor, dizes-me.
encanto-me de cada vez que nascem
novas páginas na textura do tronco ali defronte.

os navios descansam na cidade sem memória
o néon. o silêncio dos amantes
é igual em qualquer urbe. o cheiro
do rio já não pertence ao rio. é meu
e de todos aqueles que rastejam distâncias
às gaivotas enfraquecidas que
não receiam estranhos viajantes
perdidos no pedrado da calçada
a recordar a árvore que dá
folhas verdes no inverno
poemas contemplações
um sorriso um olhar de água
também a vida inteira.

III
deixo o rio. no silêncio das pedras abandono
o idioma dos sentidos e carrego
as palavras donzelas prostituídas
mais cedo do que as madrugadas
iluminadas nos rostos de mulheres imperfeitas.
dói-me a pureza dói-me a perfeição.
___ no rio está a cidade inteira
de onde em onde as janelas incendeiam
casas de amor tardio.
esgoto as avenidas no suicídio
de noites precavidas entreabertas
e arrasto o poema esperma das manhãs
iniciadas na cópula dos dias.

já não sei o que é o tempo.
a vida é o aroma de uma flor

tenho a réstia de luz que se prolonga
no reflexo das águas e se perde no abraço
das pedras marginais.
marginais confidentes reflectidos egos.

beijo o rio. beijo a flor
uma rosa vermelha espalha as pétalas
nas águas ventanias
permaneço no limbo de uma folha
presa no pecíolo.

josé félix





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