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segunda-feira, fevereiro 23, 2004



É evidente que um blogue não tem que ser escrito diariamente. Mesmo que tenha que ser um diário, não há diários que tenham sido escritos todos os dias, consecutivamente.
Há intervalos para que o fôlego, ou seja o veneno possa ganhar as propriedades proteicas e cumprir a função maior de amolecer os corpos divagantes dos dias e das noites. Escrevi há dias (não há dias atrás, que é um anglicanismo / americanismo: some days ago) que os escritores deviam ter uma permanência habitual nas escolas como forma de incentivar os alunos à leitura, ao gosto pelos livros.
Ler um livro é viver várias vidas e, por natureza, experimentar com a imaginação essas mesmas vidas. Um livro é ao mesmo tempo microcosmo e macrocosmo. Talvez, se houvesse mais gosto pela leitura incentivada pela presença dos escritores que são verdadeiros agentes culturais, eles, os livros, ficassem menos caros e, portanto, mais acessíveis àqueles que têm sede de saber e não podem tê-los devido aos ganhos parcos da maioria dos educadores.

A Correntes d'Escritas na Póvoa de Varzim é um exemplo disso, mas não passa de um exemplo. Acontece que os escritores vão às escolas e, passando o ritmo da festa volta tudo à ezquizofrénica normalidade.

É por isso, também, que sou total e frontalmente contra todos os dias de comemorações. Seja o Dia da Mulher, Dia Nacional ou Internacional Contra o Aborto, Dia Contra o Tabaco, Contra a Drogas, Contra o Racismo, etc., etc., etc. Quando há muitos dias para comemorar seja o que for é sempre mau sinal e de que muita coisa está podre no Reino da Dinamarca.

Para quê um dia contra o Racismo quando os mass maedia passam a maior parte do tempo mostrando nas câmara de televisão toda a violência do racismo? Não seria melhor fazef a apologia até à exaustão de que exite só a raça humana? Parq quê falar tanto nos malefícios da tabaco e não falar nos benefícios de tantas outras coisas, substituindo o tabaco por outra coisa qualquer? E, assim por diante.

São só ideias, dir-me-ão. E não são as ideias que fazem mover o planeta? Não é o dinheiro, caros amigos. esse, foi e é ditado pelas ideias. Não é o dinheiro que faz a mola deste planeta; são as ideias que o suportam. É uma questão de mentalidade, reforço.

Voltando à Correntes d'Escritas, acharia por bem que, face ao alargamento daquele evento ao país vizinho e a alguns paises da América do Sul, a Câmara Municipal da Póvoa criasse um Gabibnete próprio para que a Corrente d'Escritas, nas escolas, não terminasse com a saída dos escritores para os respectivos países. Seria interessante que os escritores e os discentes interessados pudessem manter alguns laços de afectividade criada nas visitas escolares. Seria o maior incentivo a dar a quem se interessasse pela escrita, pela leitura, pelos livros.

Já chega de veneno. Hoje apetece-me colocar aqui

QUASE UMA CARTA DE AMOR

o fogo que incendeia o corpo lábil
mantém aceso o pólen a semente
revigorada no açoite dos ventos.
não deixes que amaresçam estes dias
de frutos abrasados pelo incêndio
do mel que escorre raso pelas pétalas;
esvoaçam como asas de borboletas
ao tocarmos na pele do pedúnculo.
deixa-me ficar com o olhar das luzes
eternamente azul igual à cor
de todos os princípios. e serenos
cuidarmos do jardim dos corpos breves.
       a subtileza dos amantes sérios
       perde-se nas palavras do poema.


josé félix




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quarta-feira, fevereiro 18, 2004



A discussão sobre o que se deve ensinar nas escolas e nas universidades está em banho-maria. O País está em banho-maria. Estamos todos em banho-maria, o que não é nada agradável.Que esteja tudo em banho-maria, aceito até um certo ponto. Mas eu, precisamente eu, porquê? E se digo eu, digo todos nós.

Os professores - há cerca de 35.000 licenciados com as pedagógicas e, portanto, apetrechados com as ferramentas necessárias para ensinar -, estão divididos quanto ás questões mais básicas do ensino e da própria profissão. Há associações de professores a mais há sindicatos mais; há vozes a mais a fazerem-se ouvir, nem sempre pelas boas razões. Não há uma conjugação de esforços para que os cérebros, em conjunto, teçam uma plataforma comum para uma via de ensino que dure mais do que uma legislatura política. A Educação tem sido sempre a Educação de um Governo, não a Educação de um País.
Ora, digam-me lá - Gonçalo, os sacanas, sendo ignorantes também me enternecem; os sacanas que não são ignorantes causam-me asco - se não há sacanagem que baste?

Lêem-se cada vez menos os clássicos; Homero, Virgílio, Petrarca, Camões, Sá de Miranda, Garcilaso de La Vega; não se lê como deve ser Gil Vicente; ninguém conhece Shakespeare e alguns só ouviram que é dele o to be or not to be.

A ida dos escritores e poetas às escolas deve ser um hábito e não uma festa de vez em quando, enquadrados nas festas de qualquer cidade ou vila. Os Conselhos Directivos das Escolas têm a capacidade e o dever de chamar às aulas os escritores e os poetas contemporâneos para falarem da arte da escrita e dos escritores e poetas de há séculos, numa atitude comparativa pela modernidade que muitos deles, os antigos, encerram.

Isto sou eu a divagar enquanto vou armazenando algum veneno para ferrar alguém.

Enquanto isso coloco aqui um poema.

na concha das tuas mãos
as palavras apetrechadas de asas
voaram na boca de atena

todos os navios
se perderam nos cabelos de neptuno

e zeus ria com a ambrósia
que corria entre os dedos.

despertavas entre as sombras

penélope envelhecida e bela e doce
com a renda no colo
numa carícia perdida de telémaco.

ulisses ouve o canto das sereias.

josé félix



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segunda-feira, fevereiro 16, 2004



Clara! Claro! Só que, às vezes, tanta claridade, cega. Na sua frase eu tiraria o substantivo comerciante e a frase ficaria assim: os que não são e querem ser o que não são? . Deixaria a tristeza para outras coisas bem mais consentâneas com alguns graus de tristeza. Por exemplo: porque é que a senhora Simone de Oliveira está em todos os canais de televisão, ultimamente? Não há gente bem mais interessante, jovem, na mesma profissão que a senhora tem, para nos dar outra(s) visão(ões) do panorama musical português? É uma pessoa que faz parte, quer queria ou não do establishment que tem que dar opinião? Ora, meus amigos, é por isso que este quadrilátero mal engendrado não passa da cepa torta. É por isso que se levantam vozes, umas com base histórica, outras de uma forma soez, que seria bem melhor que fossemos governados pelo palácio de Moncloa.

Quando aparece alguém contra o sistema, seja o das academias, das universidades, das escolas, há sempre alguém a dizer que os outros querem ser o que não são.

Isto é um país de burros, digo eu; Jorge de Sena foi mais longe; isto é um país de sacanas.

Digo.


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domingo, fevereiro 15, 2004



Meus Caros

A actividade literária não se resume a uma simples actividade académica, nem a actividade académica de quem trata das letras se resume à actividade literária.
Há, eu sei - são poucos -, que alguns escritores vivem da actividade da escrita.
A maioria deles têm outras profissões ou actividades que em nada se relacionam com a escrita; engenheiros, médicos, psiquiatras, psicólogos, funcionários públicos, bancários, vagabundos.

Vai ser lançada, esta tarde, às 15:00 horas, na livraria Ler Devagar ao Bairro Alto, na Rua São Boaventura, uma Antologia com 20 autores. É um livro de autores que nasce da actividade de uma lista de discussão poética, a Escritas, com cerca de 200 membros cadastrados que se lêem uns aos outros, comentam o seu fazer poético, fazem autocrítica, rescrevem poemas, e utilizam-nos em ateliês de escrita criativa, uma actividade muito em voga, ultimamente, cujos resultados práticos ainda são incipientes. A Escrita Criativa nasceu nos Estados Unidos nos pricípios do século XX, e só agora, em Portugal, começa a marcar os rodados da actividade literária.

Uma Antologia nunca tem um discurso uniforme, precisamente por ter vários discursos, tantos quantos os autores.

Acho que vale a pena aparecerem na Ler Devagar, que já se vai tornando um hábito com lançamentos alternativos e, penso, de qualidade.

Para aguçar a natural curiosidade, aqui vos deixo um poema de um dos antologiados.

como pomba liberta das mãos

como pomba liberta das mãos,
o poema voa na direcção do espaço;
libertou-se do poeta para o olhar
do mundo inteiro e, sem pudor,
vai contradizer quem o escreveu;
e no futuro dirão que o poeta disse
mas é o poema que o diz e mais ningué;
e quem souber o que pensava o poeta
esquecê-lo-á - só a poesia importa,
só ela vive para sempre, no poema.
nenhum poeta é imortal, nem livre.
só o poema não desce ao cárcere.
só à poesia é dado regressar do inferno,
e visitá-lo incólume e troçar dele,
e despedir-se com um sorriso amável,
de volta ao seu próprio paraíso.


Gonçalo B. de Sousa




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quinta-feira, fevereiro 12, 2004


O título do poema inédito que transcreví na mensagem anterior leva-me a uma discussão bem velha, já com séculos de existência, muitos anos de abstinência e que
vem ao baile, de vez em quando.

Porque se escreve?

Aristóteles disse que se escrevia para fazer catarse, para purgar a alma das paixões várias e Goethe secundou-o com a teoria da libertação, sendo seguidos por Dostievsky.

Libertar os demónios. Ao recordar a infância, fazendo uma regressão da psiquê.

É evidente que há quem escreva como se estivesse em transe. Relembro os surrealistas e a «escrita automática», que escreviam (ainda escrevem) como se estivessem possuídos por Pítia.

Ora, a criação artística vive também do meio social em que o autor está inserido, contrariando, por um lado, a teoria de André Malraux que apela aos mistérios e àqueles que são capazes de interpretar esses mistérios.

Se falamos em criação artística, já estamos a dizer que é necessário criar um artifício(arte e ofício). Esta arte e este ofício formam um conjunto muito bem explicado no poema de Fernando pessoa Auto Psicografia, que diz bem o que é o discurso poético. E não vou dizer que este discurso é moderno no conceito que lhe tomamos ser de hoje. Moderno é tudo aquilo que se escreve e que pode ser entendido e aplicado para além dos tempos.

Aí temos vários exemplos: a poesia do Antigo Egipto, a poesia chinesa dos séc. VII, VIII e alguns sonetos de Luis de Camões. Lembram-se daquele soneto em que o Luis Vaz diz "mudam-se os tempos mudam-se as vontades"? Foi escrito no séc.XVI e podia, muito bem, ter sido escrito hoje. Isto é ser moderno. Luís Vaz de Camões é um poeta moderno. Como é Horácio no célebre poema onde está o verso "aetas, aetas, carpe diem [...]" ou, versando o mesmo tema da temporalidade e da volatilidade do tempo, o grande Ausónio.

Retomando o fio à meada, digo que se escreve por várias razões, sendo duas absolutamente nomináveis; a estética da escrita e a literatura da vida.

Para aguçar os mais curiosos direi que a escrita se intromete numa certa forma de criação de vida, dando origem à sintaxe poético-discursiva de cada um.

Só criando uma sintaxe própria o autor pode almejar ao reconhecimento, embora tardio, da sua Obra. O resto é pura cópia. Literatura de centro comercial, fast poetry ou fast novel. Há muito disso, por aí, em abundância. E aparecem em todos os canais de televisão, nos jornais literários.

Não são fazedores de arte literária. São comerciantes de letras.



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fuga ao artifício ou de como a vida é
feita de episódios



1.
sim. talvez alguém me o tenha dito
embora eu não o haja percebido
por que as palavras por vezes estão
suspensas de uma flor assassinada
no pedúnculo leve solitário
acéfalo corola corrompida
de gestos e de ventos no silêncio
dos murmúrios tardios.
se me disseram de todas as águas
ou da leveza da corrente caprichosa
ou ainda da subtileza dos aromas
talvez sem perceber os olhos vaguem
em azul tão azul no azul do dia
numa linha que alonga tão longínqua
tão mais longe que a espera da agonia
do pescador que espera desespera
soletra devagar as letras nos olhos
do peixe morto preso no anzol.

2.
a bruma de verão é outra bruma
não tem a transparência das ausências
como quem se recolhe num dia frio
a beber chuva cheia de emoções.
há só este murmúrio simples o mar
a ramada das ondas escamadas
há um deus esquecido nos rochedos
genitália das pedras heroínas
em orgasmos de espuma e de pássaros.

3.
na areia desta praia descubro um
coração desenhado de um amante
onde diz eu fiquei aqui na praia
até que a água alague leve surda
ao grito ecoante de amar mar
um amor transponível na ventania das faias.

4.
não sei se me deixaram todas as fontes.
não sei se me tiraram todas as pontes.
permaneço nas ambas margens icthus lúdico
a lamber o sal o sonho da vida
que atravessa no voo da gaivota
a declinar a rota em velho leme.
ocasos matutinos rasgos cegos
em nocturnais festins quando os ossos
já enfeitam as manhãs engravidadas.

5.
deixo um beijo no acaso de uma flor
então que venha o vento e leve a pétala
semeada num rosto lavrado pelo tempo
onde a palavra poisa suave numa carícia
de pássaro na cópula do vento.

inédito
josé félix




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Lá vem o veneno cair no rosto dos incautos.
Então, não é que as marabuntas e os quissondos já se perfilam com as mãos cheias de €uros para pagarem principescamente ao Sr. Carlos Cruz os livros de memórias que ele, dizem, estar a escrever na prisão? Este rectângulo é um Circo, panem et circencis para o Zé Pagode se ir entretendo. São contas de rosários que o povo vai tecendo para não perder o hábito: da má formação; da péssima informação. O Zé precisa de entretenimento para não pensar nos salários fracos, no encerramento fraudulento de empresas, na fuga de empresários para as ilhas do Pacífico, nos cargos de elemetos do PCP em empresas municipais, pagos como se fossem marajás das índias, com carro, condutor de serviço.
Até se enriquece na prisão, caros amigos! Constroem-se ídolos de areia a qualquer preço. Agora é uma carta de Ritto, depois são as memórias de Cruz. No meio sai mais um livro de Margarida Rebelo Pinto com idas a todos os canais de televisão. Vai-se à televisão para ser famoso; é-se famoso e vai à televisão. Sic transit gloria mundi.
Razão tem o poeta Herberto Helder em não querer o busto no Jardim dos Poetas.
Como eu prefiro o Inferno!



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terça-feira, fevereiro 10, 2004


Para o caso de os menos lúcidos não terem entendido bem das razões do meu discurso, vou ser mais explícito.
Por exemplo: sumponhamos que o António ou o Rui qurem organizar uma Antologia com 20(vinte) autores. Já sabem que há uma empresa gráfica que os faz a €1,00 cada um, tendo o livro cerca de 100 páginas, 1.000 exemplares. O António e o Rui fazem a paginação do livro, que é um trabalho não pago, mas trabalho. O papel do «miolo» é o normal com 80 gramas. A capa só tem uma cor para não onerar o preço do custo.
Combina-se com os autores que terão que pagar €50,00 cada um, o que perfaz €1.000,00. No fim, o Rui ou o António dizem que cabe a cada autor 40 exemplares, sobrando 200. Desses duzentos, o que também é normal, são oferecidos aos jornais diários, jornais semanários, jornais e revistas com suplementos literários, Rádio, Canais de Televisão. Há ainda ofertas para o Instituto Camões, Casa Fernando Pessoa, alguns académicos, e o resto vai para as livrarias para a respectiva divulgação, com oferta de um exemplar ao livreiro. Se houver lançamentos e/ou apresentações oferece-se um exemplar aos jornalistas que aparecerem. É normal.
Há a acrescentar a tudo isto, as despesas de transporte de idas e vindas da Gráfifica e para a Gráfica, revisão de textos, inscrição no I.N.P.I. para registo do logotipo, combustível e o aborrecimento que só é consumido por quem anda nas andanças do demónio.

Agora digam-me, caros amigos, qual é o vosso lucro. Vá, respondam. Não se constranjam.

Pois é, amigos, ainda há quem pense que eu enriqueço a fazer um livro desta maneira.

Assim, só me apetece colocar aqui um pouco do meu veneno.

auri sacra fames

viver um dia com normalidade
é ter o olhar cubista, no sentido
que picasso lhe dá. é que são várias
as formas de rever os dias idos.
o olhar é feito sempre de passados.
o tempo é longo na seneridade.
ver multifacetadamente os dias
sem adjectivos é o poder dos fracos,
e os outros, bem, os outros não se importam
com a substância temporal da vida.
carpe diem já o disse horácio
nas odes. mas virgílio, cidadão,
conhecendo pois da fatalidade
de roma e que do mar viria eneias,
sabia bem que da fome execrável
do ouro também se vive cada dia.
a mim basta-me o olhar sem mais palavras
do indivíduo ou de uma multidão
a tentar augurar o seu futuro
enquanto os corvos grasnam sobre os rostos
do império apodrecido pelos séculos.


José Félix, in Quatro Poetas da Net, Edições Sete Sílabas, Lisboa, 2002


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Da natureza e da condição humana

Às vezes encosto-me aqui, no canto mais escuro da despensa e não sei de que falar. Bom, saber, sei, só que os resquícios de constrangimento burguês mo impede de fazer.

Há homens e mulheres ligados à escrita que ganham muito dinheiro com a venda dos livros. Claro. Mas vejamos da qualidade deles. Não raro se escreve sobre aqueles que fazem da escrita um comércio desenfreado com o apoio das instituições oficiais do estado, porque também ligados ao poder, com o apoio das editoras e até com o beneplácito de alguns institutos e/ou associações de escritores.

Ora, tudo aquilo que eu disse atrás é apenas o preâmbulo de outra coisa, não diria, grave, mas que pode fazer pensar algumas cabecinhas tolas, se é que os tolos ainda têm essa capacidade: pensar.

Sabemos que há muita gente a escrever neste País. Sabemos que há muitos poetas. Sabemos que há alguns muito bons. Como o disse o meu amigo Gonçalo B. Sousa, todos podem conviver na escrita, como todos podem frequentar o conservatório de piano. Nem todos eles serão grandes pianistas, assim como nem todos aqueles que têm o gosto pela escrita serão futuros Prémio Nobel.

Ao organizar um opúsculo com uma vintena de autores é tão só para a divulgação da escrita, e nunca o benefício do lucro. Porquê? Porque é impossível haver lucro fiduciário para uma única pessoa num sistema cooperativo.

Isto que fique bem claro para os menos lúcidos.

maresias crepúsculos
abraçam os amantes das margens submersas.
no fogo das águas um beijo
é um navio
no astrolábio do sonho.

o leme segue o lume das estrelas

poema inédito José Félix


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sexta-feira, fevereiro 06, 2004


Enquanto a Teia vai durando, e nenhuma vassourada a transforma numa quantidade de fios enredados como se fosse um novelo de Ariadne, vou passeando por aqui, na minha Cnossos, qual Teseu procurando uma saída, uma justificação simples. Apesar de ter uma tendência borgeana para o entendimento das coisas, depois de Procustres acabarei por derrotar o Minotauro. Não serei como o estúpido arquitecto Dédalus. Então, já se viu um arquitecto que constrói um palácio labiríntico e não consegue sair dele, depois? Não! Eu saio labirínticamente, levo a Ariadne, os fios de teia e tudo, e relâmpagos me queimem se eu deixo Baco apoderar-se da minha mais formosa.
Vamos depois viver para Naxos como dois nababos, um pequinois na trela a lamber-me o peito e as costas, saboreando o sol mediterrânico.
Baco morrerá de amor, eu sei, porque colocou a coroa da minha amada no céu como o prova a Coroa Boreal (corona borealis).

tarde de turner

uma tarde de turner é questão
de estética contemplativa

as aduelas da casa sobressaem
à iluminação do sol

um morcego repousa no mamoeiro
o anúncio de uma sombra no quintal

há sangue e agonia no vasto lume
da tarde incendiada


José Félix
inédito 2004



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quinta-feira, fevereiro 05, 2004



O País está suspenso no fio da Teia. Toda a gente está colada ao ecrã dos televisores. É solto? Continua preso? E pronto!

Duzentos trabalhadores de uma empresa têxtil sedeada no Cacém vão sair com indemnizações; cem ou trezentos sairão de outras empresas do Norte ou do Sul sem indemnizações.

O País continua suspenso no fio da Teia. Já passaram 48 horas. É solto? Continua preso?

Um sem-abrigo vai à Junta de Freguesia e pede ao Presidente da Junta para lhe matar a fome. O Presidente da Junta paga-lhe o almoço mas há mais 1.500 sem-abrigo à espera de sopa.

O País continua suspenso no fio da Teia. É solto? Continua preso?

Que importa que haja só na freguesia do Intendente 3.200 (três mil e duzentas) prostitutas? Os sociólogos dizem que a prostituição é um factor de contenção de tensões sociais. Nesta freguesia há violência que chegue para uma dúzia de freguesias.

O País continua suspenso no fio da Teia. É solto? Continua preso?

Não consigo aborrecer-me, não é faculdade de uma aranha, por hábito e persistência.

São vinte horas e trinta minutos. Vou comer uma laranja de umbigo. "De manhã ouro, à tarde prata e à noite mata". Mata, sim, aquele que se atrever a sossegar nos meus fios.

Ofereço-vos mais um pouco de seiva do meu veneno

a reinvenção da memória


tenho uma casa e um parapeito de flores.
uma casa a beijar o mar. o mar a beijar a casa.
uma casa, o mar e os lábios com pirilampos de água
a dizerem coisas. e essas coisas enternecem-me.
uma ternura de melancolia incompreensível.
são palavras com sons de sol que se embrenham
na pele, nos ouvidos, no nariz, nos dedos
que pegam na caneta. e a caneta desliza
à velocidade da sombra para poder acompanhar
o aroma que vem da chuva. uma chuva limpa,
luzidia, musical. a música da natureza.
os fios de água, o som dos fios a caírem na terra.
a terra a abrir-se. pedaços de pedaços de terra
a ganharem formas de flores. milhares de flores
a abrirem-se no chão. bocados de terra
e de pétalas a saltarem para os lados como
o fogo de artifício.
do parapeito da minha casa o mundo estreita
e alarga na conveniência saudável
que eu tenho da caneta. ela é a consciência
da mão esquerda porque não escreve.
com a visibilidade da tinta vejo para lá
da esquina e dos muros e das árvores e das pessoas
e dos cães e de uma criança em choro. e para além do cemitério
de que só vejo as pontas dos ciprestes. só há ciprestes
nos cemitérios. há sempre ciprestes nos cemitérios
e jarros brancos. uma brancura agónica. sobre as campas.
a morte. a importância da morte. a morte
é importante porque dura mais que a vida.
que importância têm os jarros brancos?
é tudo mais silêncio que o silêncio.
é a contrição de um olhar largo, vasto, interior,
anterior à memória da escrita.

da janela, do parapeito da janela,
vejo um país de fogo. crepita o silêncio na fagulha
da labareda vermelha, no vento inoportuno.
afago a comodidade doméstica no bonsai
nas flores sem nome, nos cactos e nas violetas.
o interior da casa. o regresso do sonho.
a introspecção da escrita numa outra forma de ser
ou na mesma forma de ser, sendo diferente.
permanece a remanescência do aroma
dos ciprestes. a lembrança dos mortos. a lembrança dos vivos.
lembro os mortos mais do que os vivos e, talvez
seja por isso, dou mais importância aos mortos
precisamente porque dou mais importância aos vivos.
o parapeito de flores é a reescrita da linguagem
é o dentro e o fora, é a anulação da contradição,
o estar e o ser, a religião da palavra ausente
e da palavra criada no silêncio do desejo.
a unidade dispersa o pensamento.
e da janela reinvento a memória
tenho o futuro suspenso da janela para o mundo.
o hoje, o agora é a urgência sem o conhecimento
das primeiras causas e dos primeiros princípios.
a morte. o princípio e o fim de tudo o que é sopro.

não vês a sombra da luz que te persegue?

a sombra das árvores. a iluminação das plantas.
a inundação luminosa da sala. a profundidade dos objectos.
dão textura pictórica à reinvenção da memória.
passas os dedos pela esquina dos móveis. antes da morte.
passas os dedos pelas coisas. depois da morte.
uma flor morta não é uma flor morta.
a visão encantadora da palavra. a procura do rosto verbal.
a subversão do texto, da ideia, do reconhecimento dela.
os ciprestes. o cemitério. tens o número 5a.
um simples número que não diz do teu rosto,
das tuas mãos quando tocavam nas ferramentas,
dos dedos a acariciarem o lápis no desenho,
dos silêncios longos durante a refeição.
dos silêncios longos depois da refeição.
da posição secreta a escutar a música árabe no rádio velho.
só eu sei de ti. sinto as mãos no cabelo
quando os aliso, despreocupado, de um modo temporal.

do parapeito da janela com flores, cruzo a escrita,
a visão dupla da flor viva e morta
e, por um instante, percebo o aroma das pétalas
de rosas vermelhas caídas sobre a terra.



Félix, José Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), Colecção Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Lda, Funchal, Outubro 2003






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segunda-feira, fevereiro 02, 2004



Paciente. Persistente. Sou um aracnídeo bem acomodado na minha teia. Espero pela melhor oportunidade para dar uma ferroada.

Já é a terceira vez que começo este texto e sempre de uma forma diferente. Quando o vou colocar no ar, a netcabo pega-me a partida e não funciona. Vai tudo para o nada. Desta vez selecciono o texto como selecciono um mosquito, uma melga, uma borboleta nocturna, um pequeno gafanhoto, e záz. Injecto a seiva bendita e pronto. Teço os meus fios, bem devagar, pacientemente, para depois me deliciar eroticamente o prazer da carne amolecida pelo veneno.

As televisões descobriram, agora, que morre quase todos os dias um jovem ou um adolescente, praticante de desporto, com paragem cardíaca. Até aqui não morria ninguém com aquela cardiopatia, congénita ou não.

Cada vez mais, vejo menos noticiários televisivos. Fiz uma auto formação / sugestão para deixar de os ver. Usei a mesma técnica que utilizei para deixar de ver novelas. Comecei pela estação TVI por ser a mais pastilha elástica. Há meses que ela não existe na minha Teia. Depois comecei a cercear alguns programas da SIC; Herman SIC, os Malucos do Riso, as novelas da noite e, por fim, os noticiários.
Finalmente veio o Canal 1 da RTP que me apanhou na mudança de administração e esperei mais algum tempo para a deitar para o lixo. Sei por interpostas pessoas que fazem lá programas de Triunfo, como as bolachas que acabaram por desaparecer, e repetem, repetem, repetem até à exaustão programas menores e que eles pensam que o povo gosta ou obrigam o povo a gostar.

Fiquei-me pelo Canal Dois. O novo. Só com o noticiário e o programa da Ana Sousa Dias. O Magazine que substituiu o Acontece - apesar de ter tido muitos defeitos era o melhor programa de divulgação cultural no país -, é uma pilhéria de partículas desengonçadas, uma salada russa e fere de alguma qualidade nos apresentadores. Já não acredito que vá melhorar. Nasceu mal, e doente vai morrer.

O que aconteceu? Pasei a ler mais. Consulto mais livros. Estudo mais formas de ferroar a quem se acomete a invadir a minha Teia.

Um poema é o meu veneno final

O idioma possível


há uma casa e um país à deriva
e o idioma possível é a infância
dos objectos na arqueologia
das estruturas. os instrumentos cavam
a árvore donde brota a água
de todas as nascentes.
apodrecem os ramos que eu conheço, todos os caminhos
e das flores suspensas cai o aroma
no sonho da semente fértil.


Félix, José, Geografia da árvore (a reinvenção da memória), Colecção Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Funchal, Outubro de 2003



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domingo, fevereiro 01, 2004



Começo este primeiro dia de Fevereiro com duas considerações: o terrorismo e o fundamentalismo islâmico.

Não vou entrar em propósitos político-filosóficos. O que tenho a dizer em relação aos homens e às mulheres que prendem bombas na cintura e as fazem rebentar em locais públicos de grande concentração de pessoas, nos restaurantes, edifícios de muito movimento e nos autocarros em Israel ou no Iraque, não são suicidas. São homicidas, assassinos, e como tal deverão ser tratados. Porquê? Muito simples. O único propósito que os move não é o sucídio, mas sim o assassinio em massa movido pelo ódio a gente que não tem culpa nenhuma e, muitas vezes, são compatriotas dos homicidas; crianças das escolas, homens e mulheres de trabalho que se servem dos transportes públicos para chegarem aos empregos ou distrairem-se nos restaurantes e bares nocturnos das cidades.
Já é tempo de deixar esse «complexo de esquerda» que varre o continente europeu e começarmos a chamar as coisas pelos verdadeiros nomes.
Digo isto porque não me move qualquer intenção polítuica. Estou na posição cómoda de atacar à esquerda, ao centro e á direita. Não voto, não encontro qualquer sentido no voto e causa-me asco votar num indivíduo ou num grupo de indivíduos que depois me vai calcar o pescoço com os impostos, o aumento dos transportes e do pão; que me afoga em papéis nos institutos públicos, que me chama parvo nos noticiários televisivos e mentecapto nos títulos dos jornais que não têm nada a ver com o miolo da notícia.

Morreram cerca de 250 pessoas perto da cidade Meca. Só o fundamentalismo consegue trasnsformar os peregrinos em mártires da fé. É a segunda vez que isto acontece e acontecerá uma terceira vez. O fundamentalismo vive das grandes desgraças para se propagar e alimentar a turba psicótica que quer encontrar-se com as setenta e tal virgens.

Israel, claro, não é isento de culpa. Não teve, ainda, a clarividência necessária para ceder em termos de colonatos e de uma política dura para fazer prevalecer os seus intentos. Quer queiram quer não, judeus e palestinos estão condenados a viver juntos. Não sabem é quando.

No meio disto tudo, para aqueles que são mais acirrados e ainda têm bem vincado o complexo de esquerda, só lhes digo uma coisa: no Médio Oriente, Israel é o único país com uma democracia. O único que não é árabe.

É mais um veneno que atiro para a minha teia.

Deixo-vos aqui um soneto inglês. Um poema de amar, não um poema de amor.


acolho-me

acolho-me ao lençol do teu cabelo
no amor pedido do teu rosto ilúcido
e entrego-me à irisada luz que zela
os lábios na sombria flor cedida.
a sépala descobre o centro dela
uma a uma dá o corpo à descoberta
na liturgia dos sentidos dados
à reza na capela como oferta.
cavalgo na palavra que me dás
alado nos pequenos montes eros
percorro os sons cativos dos teus ais
aromas luzes são momentos raros.
       passeando pela flor acesa o fogo
       centelha a cada pétala que apago.



José Félix



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