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quinta-feira, fevereiro 05, 2004



O País está suspenso no fio da Teia. Toda a gente está colada ao ecrã dos televisores. É solto? Continua preso? E pronto!

Duzentos trabalhadores de uma empresa têxtil sedeada no Cacém vão sair com indemnizações; cem ou trezentos sairão de outras empresas do Norte ou do Sul sem indemnizações.

O País continua suspenso no fio da Teia. Já passaram 48 horas. É solto? Continua preso?

Um sem-abrigo vai à Junta de Freguesia e pede ao Presidente da Junta para lhe matar a fome. O Presidente da Junta paga-lhe o almoço mas há mais 1.500 sem-abrigo à espera de sopa.

O País continua suspenso no fio da Teia. É solto? Continua preso?

Que importa que haja só na freguesia do Intendente 3.200 (três mil e duzentas) prostitutas? Os sociólogos dizem que a prostituição é um factor de contenção de tensões sociais. Nesta freguesia há violência que chegue para uma dúzia de freguesias.

O País continua suspenso no fio da Teia. É solto? Continua preso?

Não consigo aborrecer-me, não é faculdade de uma aranha, por hábito e persistência.

São vinte horas e trinta minutos. Vou comer uma laranja de umbigo. "De manhã ouro, à tarde prata e à noite mata". Mata, sim, aquele que se atrever a sossegar nos meus fios.

Ofereço-vos mais um pouco de seiva do meu veneno

a reinvenção da memória


tenho uma casa e um parapeito de flores.
uma casa a beijar o mar. o mar a beijar a casa.
uma casa, o mar e os lábios com pirilampos de água
a dizerem coisas. e essas coisas enternecem-me.
uma ternura de melancolia incompreensível.
são palavras com sons de sol que se embrenham
na pele, nos ouvidos, no nariz, nos dedos
que pegam na caneta. e a caneta desliza
à velocidade da sombra para poder acompanhar
o aroma que vem da chuva. uma chuva limpa,
luzidia, musical. a música da natureza.
os fios de água, o som dos fios a caírem na terra.
a terra a abrir-se. pedaços de pedaços de terra
a ganharem formas de flores. milhares de flores
a abrirem-se no chão. bocados de terra
e de pétalas a saltarem para os lados como
o fogo de artifício.
do parapeito da minha casa o mundo estreita
e alarga na conveniência saudável
que eu tenho da caneta. ela é a consciência
da mão esquerda porque não escreve.
com a visibilidade da tinta vejo para lá
da esquina e dos muros e das árvores e das pessoas
e dos cães e de uma criança em choro. e para além do cemitério
de que só vejo as pontas dos ciprestes. só há ciprestes
nos cemitérios. há sempre ciprestes nos cemitérios
e jarros brancos. uma brancura agónica. sobre as campas.
a morte. a importância da morte. a morte
é importante porque dura mais que a vida.
que importância têm os jarros brancos?
é tudo mais silêncio que o silêncio.
é a contrição de um olhar largo, vasto, interior,
anterior à memória da escrita.

da janela, do parapeito da janela,
vejo um país de fogo. crepita o silêncio na fagulha
da labareda vermelha, no vento inoportuno.
afago a comodidade doméstica no bonsai
nas flores sem nome, nos cactos e nas violetas.
o interior da casa. o regresso do sonho.
a introspecção da escrita numa outra forma de ser
ou na mesma forma de ser, sendo diferente.
permanece a remanescência do aroma
dos ciprestes. a lembrança dos mortos. a lembrança dos vivos.
lembro os mortos mais do que os vivos e, talvez
seja por isso, dou mais importância aos mortos
precisamente porque dou mais importância aos vivos.
o parapeito de flores é a reescrita da linguagem
é o dentro e o fora, é a anulação da contradição,
o estar e o ser, a religião da palavra ausente
e da palavra criada no silêncio do desejo.
a unidade dispersa o pensamento.
e da janela reinvento a memória
tenho o futuro suspenso da janela para o mundo.
o hoje, o agora é a urgência sem o conhecimento
das primeiras causas e dos primeiros princípios.
a morte. o princípio e o fim de tudo o que é sopro.

não vês a sombra da luz que te persegue?

a sombra das árvores. a iluminação das plantas.
a inundação luminosa da sala. a profundidade dos objectos.
dão textura pictórica à reinvenção da memória.
passas os dedos pela esquina dos móveis. antes da morte.
passas os dedos pelas coisas. depois da morte.
uma flor morta não é uma flor morta.
a visão encantadora da palavra. a procura do rosto verbal.
a subversão do texto, da ideia, do reconhecimento dela.
os ciprestes. o cemitério. tens o número 5a.
um simples número que não diz do teu rosto,
das tuas mãos quando tocavam nas ferramentas,
dos dedos a acariciarem o lápis no desenho,
dos silêncios longos durante a refeição.
dos silêncios longos depois da refeição.
da posição secreta a escutar a música árabe no rádio velho.
só eu sei de ti. sinto as mãos no cabelo
quando os aliso, despreocupado, de um modo temporal.

do parapeito da janela com flores, cruzo a escrita,
a visão dupla da flor viva e morta
e, por um instante, percebo o aroma das pétalas
de rosas vermelhas caídas sobre a terra.



Félix, José Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), Colecção Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Lda, Funchal, Outubro 2003






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