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quinta-feira, fevereiro 12, 2004


O título do poema inédito que transcreví na mensagem anterior leva-me a uma discussão bem velha, já com séculos de existência, muitos anos de abstinência e que
vem ao baile, de vez em quando.

Porque se escreve?

Aristóteles disse que se escrevia para fazer catarse, para purgar a alma das paixões várias e Goethe secundou-o com a teoria da libertação, sendo seguidos por Dostievsky.

Libertar os demónios. Ao recordar a infância, fazendo uma regressão da psiquê.

É evidente que há quem escreva como se estivesse em transe. Relembro os surrealistas e a «escrita automática», que escreviam (ainda escrevem) como se estivessem possuídos por Pítia.

Ora, a criação artística vive também do meio social em que o autor está inserido, contrariando, por um lado, a teoria de André Malraux que apela aos mistérios e àqueles que são capazes de interpretar esses mistérios.

Se falamos em criação artística, já estamos a dizer que é necessário criar um artifício(arte e ofício). Esta arte e este ofício formam um conjunto muito bem explicado no poema de Fernando pessoa Auto Psicografia, que diz bem o que é o discurso poético. E não vou dizer que este discurso é moderno no conceito que lhe tomamos ser de hoje. Moderno é tudo aquilo que se escreve e que pode ser entendido e aplicado para além dos tempos.

Aí temos vários exemplos: a poesia do Antigo Egipto, a poesia chinesa dos séc. VII, VIII e alguns sonetos de Luis de Camões. Lembram-se daquele soneto em que o Luis Vaz diz "mudam-se os tempos mudam-se as vontades"? Foi escrito no séc.XVI e podia, muito bem, ter sido escrito hoje. Isto é ser moderno. Luís Vaz de Camões é um poeta moderno. Como é Horácio no célebre poema onde está o verso "aetas, aetas, carpe diem [...]" ou, versando o mesmo tema da temporalidade e da volatilidade do tempo, o grande Ausónio.

Retomando o fio à meada, digo que se escreve por várias razões, sendo duas absolutamente nomináveis; a estética da escrita e a literatura da vida.

Para aguçar os mais curiosos direi que a escrita se intromete numa certa forma de criação de vida, dando origem à sintaxe poético-discursiva de cada um.

Só criando uma sintaxe própria o autor pode almejar ao reconhecimento, embora tardio, da sua Obra. O resto é pura cópia. Literatura de centro comercial, fast poetry ou fast novel. Há muito disso, por aí, em abundância. E aparecem em todos os canais de televisão, nos jornais literários.

Não são fazedores de arte literária. São comerciantes de letras.



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