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domingo, março 28, 2004




"[...] o poema para nos falar não pode apenas lembrar-nos os instantes vividos, mas tem ele mesmo de adquirir vida própria, precisamente para ser capaz de reflectir a vida, que constitui a matéria prima da qual irrompe.[...]" Jorge Gomes Miranda, Poética, in Revista Relâmpago, nº12 4|2003.

É aqui que reside o cerne da questão, ou seja, o germe da poiesis.
Temos visto por aí muita poesia de supermercado, de centro comercial, fast poetry - de comer e deitar fora ou daquela que é impossível tragar -, que se serve e serve o imediatismo, lembrando aquelas pessoas que aparecem na televisão para dizerem que existem. A poesia (e não há nada menos inútil do que a poesia)1 é a criação que parte do concreto e vai para o abstracto e/ou parte do abstracto e vai para o concreto. Há até a conjugação desta duas premissas, por exemplo, em Luis Miguel Nava.

A surpresa da poesia parte, precisamente, da surpresa que o poeta tem com a palavra; a capacidade de a surpreender e reconstrui-la de modo que se faça uma primeira vez. É a esta capacidade de surpreender uma palavra, uma frase, que faz com que o legente diga: é novidade. A experiência constante da escrita poética é que nos dá o novo. Ruy Belo redefiniu a palavra de poesia como essencialmente metafórica, o que não tem nada que ver com a utilização das metáforas.

Seguem-se dois poemas sobre a casa da série de poemas inéditos "casa submersa":

silêncios longos na tarde morta

tenho a memória nos dedos
labirinto de gestos semeados
na textura do pólen percebido.

quantas vezes reflecte a infância
a viagem adulta o eco sóbrio
mesmo o silêncio mais pesado que a sombra.

no rosto o meu desvelo o espelho do gesto
crescendo na moldura de uma casa
aberta à fantasia onde as heras

rasgam a pele branca das paredes
e as ferramentas permanecem caladas
como os silêncios longos na tarde morta.



a leveza da água

na leveza da água
o eco da tua voz pousa
na mesa dos conciliábulos
onde é permitido dizermos de nós.
acariciamos as raízes guardadas
que saem da bainha das folhas
de um livro velho.
um ramo de avencas enche as mãos de coisas simples.

à tarde a escrita é uma faca
na leveza da água que sobra dos telhados.

josé félix
2004.03.27 (inéditos)


1 - Gastão Cruz, Revista relâmpago nº12 4|2003



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