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terça-feira, março 16, 2004



Salvador Correia
de Sá e benevides
libertou o Brasil dos holandeses
e Angola deles pois que sem escravos
o mundo não se açucarava bem.
Um dia regressou a Portugal
à espera de ser visto como herói
(que era). Gastou os fundos dos calções,
as economias, as plumas do chapéu,
e os borzeguins comprados para a Corte,
nas antecâmaras reais e realengas.
E um dia, exausto ele já de esperas e delongas,
a Magestade recebeu-o enfim.
O que é que ele queria? O que é que ele pedia?
Ah não pedia nada. Só licença
de voltar ao Brasil. Estava velho
e não havia
em Portugal espaço para morrer-se.

Jorge de Sena in Poesia III.

Este poema é de fácil entendimento. Não é por ter um filho meu a fazer o mestrado em Biologia Molecular na Universidade de Aveiro que me faz expelir o veneno. É a quantidade de massa cinzenta que se vai perdendo nos meandros da mediocracia nacional, sem que alguém tenha um rasgo de lucidez e ponha termo à debandada de gente que pode fazer muito por este território já perdido na Grande Ibéria com centro em Madrid.
Mesmo aqueles que regressam após dez ou doze anos de ausência, a trabalhar 12 a 16 horas por dia em Institutos, empresas e Universidades americanas, inglesas, canadianas, acabam por não encontrar aqui a massa crítica necessária para que se possa desenvolver ciência de uma forma conveniente.

E, pasme-se, acontecerá aos filhos dos homens dos vários ramos da ciência o mesmo que aconteceu aos flhos de Jorge de Sena, tão bem visto no poema «Noções de Linguística»: "Ouço os meus filhos a falar inglês / entre eles. Não os mais pequenos só / mas os maiores também e conversando / com os mais pequenos. Não nasceram cá, / todos cresceram tendo nos ouvidos / o português. Mas em inglês conversam , / não apenas serão americanos: dissolveram-se, / dissolvem-se num mar que não é deles. (...)

Pois é, caros amigos. Este país que não produz mais nada a não ser o ódio àqueles que que têm dois dedos de testa e que expulsou os meus ancestrais no reinado de D. Manuel I só para satisfazer os apetites de Isabel, a Católica, continua na mais profunda mesquinhez, cada um a olhar para o seu umbigozinho, aparvalhados a polir os automóveis no fim-de-semana, vestidos com fato-de-treino sem nunca frequentarem um ginásio, que nunca leram um livro e só dão uma vista-de-olhos pelos jornais desportivos cheios de erros. Convenhamos que já não são só os jornais desportivos. Leia-se o Jornal de Letras Artes & Ideias, o último número, o 872. Um jornal que devia dar o exemplo de uma linguagem escrita escorreita, já iniciou a viagem para o laxismo.

O meu filho irá para o Japão. Aqui não há lugar para ele. O filho do meu vizinho vai para os States. Aqui não há lugar para ele. A filha da minha colega de trabalho vai para o Canadá. Aqui não há lugar para ela.

Depois virão os escroques enaltecer aqueles que «lá fora» conseguiram vencer com as novidades que criaram.


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