<$BlogRSDUrl$>

quarta-feira, abril 28, 2004



















"O grito"de Edward Münch




suspenso na tarde
o grito de münch.

quanto dó ravina
os braços, as pernas,
as entranhas, sim,
numa explicação
que as próprias palavras
ficam desenhadas
noutra lavradura.
no peito e nos lábios
sinal doloroso
- mais forte no olhar -
que transporta a dor,
a pequena luz,
um sopro inventado
na sombra dos cílios,
enquanto a canalha
assiste à lembrança
de um pequeno gesto
plantado no tempo.

silêncio do grito
na cor da memória;
corte de agonia.

José Félix
27.04.2004


|

domingo, abril 25, 2004






um cravo vermelho
vai murchando na lapela -
abril vinte e cinco

josé félix


Nota: um haiku de abril


|

sábado, abril 24, 2004



Num ponto estou plenamente de acordo com o editor do Expresso acerca das comemorações dos 30 anos do 25 de Abril de 1974: são deprimentes pelas causas últimas focadas no texto.

Já não estou de acordo quanto às primeiras causas que fazem com que as comemorações sejam deprimentes e aborrecidas para a maioria das pessoas, principalmente para os jovens. Porquê?
Porque o sistema educativo tem sido incapaz, ao longo dos 30 anos, de explicar convenientemente aos nossos jovens o que causou a mudança no dia 25 de Abril de 1974. A mudança, não a revolução. A «mudança» não é um eufemismo para «revolução»; acho esta última palavra demasiado forte para explicar a transição entre o regime que capitulou de fraqueza e podridão e o regime que se lhe seguiu com todas as virtudes e fraquezas. Ontem, o professor Marcelo Rebelo de Sousa que tanto gosta de dar notas aos políticos, numa aula sobre os 30 anos do 25 de Abril de 1974, numa classificação de 0 a 10, dou-lhe 9. Não gostei, mesmo nada, da explicação final da «revolução» que teria durado até ao dia 25 de Novembro ou até 1976 quando foi redigida a Lei Fundamental do País. Ficou uma explicação demasiado estática dando a entender que as mudanças terminaram naquela altura.
Ora, uma mudança para a democracia dura vários anos; é feita de uma constante aprendizagem e experiências, umas falhadas, outras com relativo sucesso. Pelo que conhecemos, ainda estamos a dar passos de caracol a caminho da democracia e das liberdades fundamentais. Uma democracia constrói-se com tempos longos, não com tempos curtos, demasiado curtos segundo a dissertação do Prof. M.R.S.

O neo liberal país mais odiado pelos europeus, os Estados Unidos, dá-nos um exemplo de como se deve comemorar um dia que represente muito para uma nação: através da participação popular. Mas, para isso, é necessário que o sistema educativo vincule a escola e a envolvência dela nestes actos oficiais. Não deixar que as Juntas de Freguesia façam tudo ou quase tudo porque não estão vocacionadas ou não têm gente capaz nos pelouros que tutelam a educação e a cultura.

A participação cívica continuada nas comemorações deste tipo - 25 de Abril, Restauração, etc. - agrega o povo, torna-o mais solidário e não tem nada a ver com a esquizofrenia de um certo nacionalismo apregoado e criticado por alguns senhores com o complexo de esquerda.

Apesar do 25 de Abril de 1974 me ter tirado uma Mátria, uma chão e me ter transformado num exilado convicto, viva, sempre, o 25 de Abril de 1974

o mesmo poema

o mesmo poema é
pisar a terra inteira sobre as mesmas solas
just like the river waters
flows on the bottom

que me interessa o silêncio das tulipas
se a tua fala oriental
acaricia a pele
e vejo-te, mesmo assim, límpida
num campo de margaridas?

é a luz que dá a sombra
e, não sendo objecto nem sujeito dela
não sobrevive sem a clara definição
filosófica ou de uma certa epistemologia.

a sombra é o ombro que acolhe
uma falha no olhar sibilino
e por isso é que eu digo
tal como os livros da sibila de cumes
também eu escondo o destino
numa dúzia de versos

com uma diferença
o destino só de um homem
e não de um povo inteiro.

josé félix


|

sábado, abril 17, 2004



O veneno da aranha atacou-me e tive necessidade de fazer uma cura de desintoxicação durante 8 dias. Nada de grave. Uma caixa de pílulas e outros produtos da farmacopeia oficial e os pólipos que infectavam a garganta foram desaparecendo, atacados pelos antibióticos que cada vez menos fazem efeito.

Bom, o que hoje me traz aqui é um assunto que nesta altura é discutido até à exaustão nos meios governamentais, no sistema educativo e literário.
Nos meios governamentais, já sabemos que o 25 de Abril - é dele que vos escrevo - desde os sucessivos governos de há 30 anos, tem vindo a perder a essência e a importância que lhe é devida. Foi através daquela mudança no dia 25 de Abril de 1974 que a sociedade portuguesa chegou aos meados do século XX. Importância sociológica, de revolução de mentalidades e do início da construção da democracia num país que nunca havia passado por qualquer vivência onde o povo tivesse voz como uma força de pressão no sistema deliberativo.

Pois bem. O que sucede é que a cultura fast food, que já tinha chegado à literatura, poesia e prosa de ficção, principalmente, também já se estendeu ao pensamento daqueles que fazem do «lixo» arte, produzindo freneticamente poemas de centro comercial e na prosa, a chamada «literatura light» dando a entender que é um bem escrevê-la.

Regressando ao "25 de Abril" há alguns homens e mulheres de letras que já dizem que o 25 de Abril não lhes diz absolutamente nada, a não ser que é um feriado mais no calendário dos feriados portugueses, um dos mais extensos da Europa caquética, pedinte e subserviente.
Dizem que não têm memória sobre a data, portanto não se acometem a falar dela. Pura estupidez! Só um mentecapto pensa assim! Então o que é a memória de um país? O que é a memória de uma nação? O que é a memória de um povo? Não é feita pela história e pelos historiadores no estudo dos factos (hermenêutica, heurística, etc. pela crítica dos documentos?) .Não é pelo estudo de cada um, através do sistema educativo que devemos construir essa memória que forma a memória colectiva de um povo? Será que aqueles que falam assim, também não conhecem (de cognoscere) o Dom Afonso Henriques, a batalha de Toro, a Guerra dos Trinta Anos, os Descobrimentos? Isso não lhes interessa?

Só lhes interessa tudo aquilo que se passou desde o seu nascimento? O 25 de Abril de 1974 não interessa aos intelectuais (?) nascidos nessa altura?

Não é uma questão de ser de Direita ou de Esquerda ou do Meio. É uma questão de formar uma consciência colectiva com base na história do povo a que se pertence, malfadado ou não.

Qem assim fala ou escreve, certamente desconhece o hino nacional e se o cantarola é com indisfarçado constrangimento.

Tenham paciência, mas a memória constrói-se, mesmo com aquilo que se passou no século V de Péricles, com a história do Antigo Egipto, com a guerra civil de Espanha, com a Regeneração, com a Ditadura de Salazar e também com o que se passou no dia 25 de Abril de 1974.

Só porque se nasceu depois dessa data já não têm capacidade de ter memória? Há lixo que não devia ser mostrado, mas há uma apetência dos media com uma grande percentagem de lixo que procura o outro lixo.
Abyssus abyssum invocat!

tudo, conforme as águas, vem
no movimento da flores.
uma pétala brinca com o tempo
- visão perpétua das coisas possíveis
no limiar da luz que sobra -, vertendo
a queda do olhar preso no crepúsculo;
a sombra do princípio
no precipício dos líquidos.
o leito é o corpo da corrente
leve, suave e breve
do pólen que murmura na tarde.


josé félix



|

sexta-feira, abril 09, 2004



É melhor não voltar ao voto em branco porque é continuar a chover no molhado. O voto em branco está consignado no sistema eleitoral português, e pronto. Votem em branco, em preto ou em arco-íris que é a mesm coisa para mim.
Eu, que estou lúcido, não voto em cor alguma.

O resultado das negociações com os homens e/ou as organizações que utilizam o terrorismo está à vista: é o início da baixeza mais do que o medo de ser morto ou ser apanhado pela explosão de uma bomba assassina.

Há quem diga que devemos procurar as causas do terrorismo. Há «causas» para o terrorismo? Digam-me, ó cegos, quais são as causas do terrorismo chechéno. Digam-me, ó cegos, quais são as causas do terrorismo palestiniano. Digam-me, ó cegos, quais são as causas do terrorismo indiano. Digam-me, ó cegos, quais são as causas do terrorismo paquistanês. Digam-me, ó cegos, quais são as causas do terrorismo filipino. Digam-me, ó cegos, quais são as causas do terrorismo global da Al-Qaeda.

Se nos ativermos um pouco no estudo destas organizações, verificamos que o "terrorismo" floresce muito bem nos países democráticos ou em vias de implantação da democracia.

Não há terrorismo nas ditaduras puras e duras. Não há. E quando acaba uma ditadura, ou é por apodrecer naturalmente, como a ditadura portuguesa de 48 anos, onde houve um cravo a enfeitar a sala (não houve revolução, nem sequer das mentalidades que continuam tão obsoletas como há 50 anos), ou há uma revolução constituida pela maioria da população para se estabelecer uma ordem nova. As revoluções de inspiração militar (putch) normalmente não produzem efeitos de mudança dignos de nota.

Sendo a democracia um sitema muito frágil de fazer política, ela é considerada a melhor forma de governar os povos, nao havendo outra que se lhe subtitua, por enquanto - já há tentativas globalizantes com relativo sucesso e , em minha opinião, será a forma futura de governar, a fórmula orwelliana, com todos os malefícios e benefícios que possam vir daí, não se sabendo ainda, se haverá mais benefícios do que malefícios -, o polvo do terrorismo internacional procurará por todos os meios (estamos vendo isso, agora) desestabilizar a fragilidade da democracia, pelo medo, pela coarcção, e todo o tipo de chantagem que já começa a produzir alguns efeitos no governo indigitado de Madrid.

É uma luta entre a democracia e o terrorismo internacional. Quanto mais democracia houver e ela se alastrar mais depressa desaparecerão as organizações terroristas, sejam elas quais forem.

o eco das coisas imutáveis


há uma voz que vem do telhado.
brinca na flor dos dedos
límpida como a chuva da manhã.

o eco das coisas imutáveis é
um relógio preciso
na pele envelhecida.

mesmo que a cal dos ossos
invoque a terra de uma casa fria
não há nunca o último minuto

a reclamar a prece dita
na parede do templo de uma casa
construída prestes da partida.

velhas madeiras são o altar do sacrifício
na invenção do animal degolado
como se desse por cumprida

a morte resgatada dos corpos
daqueles em que a única invenção
foi viver com as sombras

dos que lhe deram os sinais do rosto
e a semelhança da voz
que a idade enriquece no caminho.

uma casa, a substância das janelas
presa no parapeito da distância
o olhar peninsular como se fosse

uma vingança feita na ressurreição
dos rostos da família desistida.
a casa, o templo vivo mesmo morto.

José Félix
in "a casa submersa"
08.04.2004


|

sábado, abril 03, 2004



É costume dizer-se que os extremos tocam-se. A propóstito da frase "a verdade é o reflexo da mentira". Lembram-se? Goebels? 2ª Guerra Mundial? A mentira repetida até à exaustão passa a uma verdade inquestionável. Mas aqui não se trata, evidentemente, de uma observação tão prosaica. É, na verdade, uma reflexão mais profunda que levaria páginas de questões filosóficas e metafísicas para chegarmos a alguma conclusão.

Partindo desta premissa, a verdade é o reflexo da mentira -- confesso que já havia chegado a esta conclusão antes de começar a ler o livro de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez --, faz-me ver com mais clareza aquilo que o Prémio Nobel de Literatura apela: voto em branco nas próximas eleições para deputados europeus.
O Sr. Saramago continua um percurso de inteligência e lucidez e a declaração/apelo que faz não tem nada de transcendente. É, simplesmente, uma declaração para se fazer uma leitura política. Se os autores e analistas políticos tivessem lido o livro de Saramago (eu duvido que o tenham feito), chegariam à conclusão que o apelo que ele faz é uma extensão da sua própria escrita.

Resumindo: tal como no livro, apelando ao voto em branco -- não tem qualquer tipo de leitura este voto --, a disciplina no voto que existe no PCP (p.d.e. do livro) cai lá inteirinha, traduzida em aumento de percentagem. A preguiça da classe média, média alta e alta seria, assim, severamente punida.

Há coisas tão simples de entender que os analistas e políticos analfabetos só complicam porque não se dão ao trabalho de fazer uma leitura do livro de José Saramago. Está lá tudo muito bem explicado.

O apelo do Sr. José Saramago não me diz nada. Simplesmente não voto.

as águas cantarinhas


em abril lavo as águas cantarinhas.
a minha geografia tem, garanto,
outro equinócio e vejo a minha mãe
com o cabelo fresco, bela e nua
saindo da corrente morna da manhã.

o olhar que vem do jardim
traz-lhe uma flor aberta e pousa-a
na coxa quente ainda húmida
como uma prece ao sol que a luz coroa
sobre a cabeça protectora e terna.

há gestos e confiança sobre a face
e as minhas mãos meninas sentem a pele
de um rosto ainda jovem
e uma ternura que o tempo não envelhece
no cálice preso no pedúnculo frágil.

há chuva que sedenta a sede que era morta.


josé félix
in "a casa submersa" (inédito)


|

quinta-feira, abril 01, 2004



A verdade é o reflexo da mentira.

josé félix


|

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

AddMe.com, Search Engine Optimization and Submission Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com






br>


referer referrer referers referrers http_referer