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sábado, abril 03, 2004



É costume dizer-se que os extremos tocam-se. A propóstito da frase "a verdade é o reflexo da mentira". Lembram-se? Goebels? 2ª Guerra Mundial? A mentira repetida até à exaustão passa a uma verdade inquestionável. Mas aqui não se trata, evidentemente, de uma observação tão prosaica. É, na verdade, uma reflexão mais profunda que levaria páginas de questões filosóficas e metafísicas para chegarmos a alguma conclusão.

Partindo desta premissa, a verdade é o reflexo da mentira -- confesso que já havia chegado a esta conclusão antes de começar a ler o livro de José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez --, faz-me ver com mais clareza aquilo que o Prémio Nobel de Literatura apela: voto em branco nas próximas eleições para deputados europeus.
O Sr. Saramago continua um percurso de inteligência e lucidez e a declaração/apelo que faz não tem nada de transcendente. É, simplesmente, uma declaração para se fazer uma leitura política. Se os autores e analistas políticos tivessem lido o livro de Saramago (eu duvido que o tenham feito), chegariam à conclusão que o apelo que ele faz é uma extensão da sua própria escrita.

Resumindo: tal como no livro, apelando ao voto em branco -- não tem qualquer tipo de leitura este voto --, a disciplina no voto que existe no PCP (p.d.e. do livro) cai lá inteirinha, traduzida em aumento de percentagem. A preguiça da classe média, média alta e alta seria, assim, severamente punida.

Há coisas tão simples de entender que os analistas e políticos analfabetos só complicam porque não se dão ao trabalho de fazer uma leitura do livro de José Saramago. Está lá tudo muito bem explicado.

O apelo do Sr. José Saramago não me diz nada. Simplesmente não voto.

as águas cantarinhas


em abril lavo as águas cantarinhas.
a minha geografia tem, garanto,
outro equinócio e vejo a minha mãe
com o cabelo fresco, bela e nua
saindo da corrente morna da manhã.

o olhar que vem do jardim
traz-lhe uma flor aberta e pousa-a
na coxa quente ainda húmida
como uma prece ao sol que a luz coroa
sobre a cabeça protectora e terna.

há gestos e confiança sobre a face
e as minhas mãos meninas sentem a pele
de um rosto ainda jovem
e uma ternura que o tempo não envelhece
no cálice preso no pedúnculo frágil.

há chuva que sedenta a sede que era morta.


josé félix
in "a casa submersa" (inédito)


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