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segunda-feira, maio 31, 2004



A Feira do Livro.

Eu gosto cada vez menos de ir à Feira do Livro. Cada vez mais a Feira do Livro é um conjunto de livrarias ambulantes para poderem vender mais livros; não vendem a preços módicos, e os livros menos caros são aqueles de quem ninguém se interessa, e os mais baratos são, quase sempre, intragáveis.

Lembro-me da feira do Livro, em Lisboa, quando era uma festa do livro e amontoava-se gente com sede de folhear, ao ar livre, alguns autores da sua preferência, lendo algumas frases, uns versos para mitigar a fome de leitura. Depois de algumas horas a calcorrear o jardim, lá se levava um livro, propagandeando, que foi adquirido na Feira do Livro.

Agora vou lá de passagem, só para marcar presença porque para saber notícias basta-me a televisão e o jornalista Lagartinho a fazer perguntas mais ou menos estúpidas a alguns autores que só sabem mealhar dinheiro, salvo, claro está, algumas excepções.

A Feira é a continuação da Livraria: apresentações, lançamentos, mais de autores do que livros;é uma autêntico fait divers
de ocasião.

O sal, esse desapareceu já há muito tempo.

Para o ano há mais do menos.

prelúdio - morte

ela vem em silêncio
embora aberta
à carícia nua

sem atropelos sem fagote pisa
o chão da casa
e os cantos conhecidos da infância

consigo leva a flor
no pedúnculo frágil da madrugada.


josé félix



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domingo, maio 30, 2004



No dia 13 de Junho, dia do santo casamenteiro, vai haver a maior abstenção da história da jovem democracia portuguesa, para a eleição de deputados ao Parlamento Europeu.

A abstenção não é devido à leitura ou à propaganda da leitura do livro do Nobel José Saramago: o Ensaio sobre a Lucidez. O abstencionismo galopante deve-se, principalmente, à actuação dos políticos, cuja arte no governo da coisa pública fica aquém das espectativas de quem foi chamado a votar, obrigatoriamente, nas pessoas impostas pelos partidos políticos, que escolhem sem consulta das bases os membros que querem ver eleitos para umas férias prolongadas em Bruxelas ou Estrasburgo, salvo raríssimas excepções.

Bom! Eu não voto! Nunca votei! Não dou o meu voto de confiança a nababos cujo salário mensal é um autêntico insulto à pobreza que existe neste país.

Até mais morder!


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Por qué cantáis la rosa, ¡oh Poetas!
Hacedla florecer en el poema

Vicente Huidobro
Arte poética (El espejo de agua, 1916)



um dia hei de saber coisas que nunca cheguei a entender
as palavras magnólia florilégio precipício
e muitas outras palavras colocadas antes e depois dos verbos.
talvez a aproximação da morte
­­­– o pressentimento dela pode ser apenas um desejo;
infinitamente finita, que horizontaliza tudo
até a verticalidade de carácter construída–,
venha a entender a música da infância
quando fazia parte dos ramos das árvores
e havia aquela música específica,
e via tudo na mais explícita forma de ouvir e ver.
como lembro, ainda, das figuras sem rosto
das crianças que éramos
corolas de flores sem nome.
um dia hei de saber coisas com a lucidez dos espelhos,
e da claridade das águas retirarei gestos,
e sem pedir à alquimia dos olhos
a chama orvalhada de fulcanelli
terei na boca a espuma do tempo das pétalas azuis
que o olhar enfatiza na excelência de prolongada melancolia.
o que é a melancolia senão o desaparecimento dos pássaros?
um dia, uma colheita de flores
me agasalhe da aparente invernia
e apanhe o sentido da música na transformação patética
que possa sentir a leveza dos ossos
na grandeza das palavras murmuradas
como se fossem os segredos de deus.

turva indignação dos obstáculos que navega na margem das águas
a impotência das fontes periféricas
que não alcançam o sabor do mel
no labor imperioso, drástico, a caminho da morte.
hei de saber por que tens na claridade dos olhos
a transparência do sol e o voo das abelhas
um riso de chuva miudinha a plantar girassóis
nos cantos húmidos dos lábios em oração.

cativam as águas nas margens, nas raízes das mãos
e o corpo é uma gávea de navegação transformada
em mil portos de aventura e sequestro, mil horizontes
na vida feminina dos rios a beijar as sementes férteis
em passeios de louca procissão, religiosamente.
eu sei. um dia vão abrir-se as árvores e hei de beber a seiva
de um navio de sob as águas, proibido, e terei ao mesmo tempo
o sabor de todos os frutos, o sabor único do maio.

não me pertenço neste mar de náufragos
de sacanas de subtileza enfermidade, e
com a quilha envelhecida, cordame de muito uso
enxárcias obsoletas e mastaréu caído, eu hei de
limpar os cristais da água com a saliva da marinhagem.

tenho braços que atravessam os oceanos do medo
com cartas de palavras e geografias antigas
para desenhar futuros sem estratégias pré-concebidas.
sim, um dia hei de saber coisas
torneadas pelo vento de todos os nomes
e na linguagem das árvores
terei o murmúrio dos duendes a ecoar
nos troncos envelhecidos e no olhar
de quem ali esquece a margem dos rios.


josé félix




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sábado, maio 22, 2004



Somos todos espanhóis e não sabíamos

De repente, não mais que de repente - parafraseando Vinícius de Moraes -,somos todos espanhóis.
Dizia-se, já não se diz, que de Espanha nem bom vento nem bom casamento mas, pelo visto nestes últimos dias nos mass maedia, vêm bons ventos (a fruta boa, as máquinas, os programas de TV, os Bancos, os rios, os médicos, os enfermeiros nos hospitais estatais ou nos hospitais S.A.)e, claro, o casamento de Felipe de Borbón e Letizia Ortiz.


Já se sabe, através do conhecimento da história, que desde D. Afonso Henriques, salvo raríssimas excepções, os reis de Portugal e Espanha são primos. A confirmar isso está a dedicatória que D. Duarte Pio de Bragança e Helena de Herédia, os reis de Portugal, embora não reconhecidos pela República, claro, colocaram nas bomboneiras oferecidas ao casal nubente: "aos primos Letizia e Felipe".

Até aqui, tudo muito bem. A partir daqui, tudo muito mal.

Então, uma televisão pública como o Canal Um da RTP que deve fazer um serviço público de televisão não devia ter mais cuidado e não desperdiçar o tempo pago pelos milhões de contribuintes com estas ninharias casamenteiras de príncipes? Não há coisas muito mais interessantes neste país, embora dominado, de facto, economicamente, pela Espanha?

Não bastaria dar uma notícia do casamento, um pequeno hitorial dos nubentes e, ponto final?

É preciso toda a parafernália da comunicação social ajoelhar-se perante o rei de Espanha, e prestar-lhe vassalagem deste modo?

Somos espanhóis e não sabíamos.
Eu confesso a minha ignorância.

passagem


uma nuvem descansa no teu corpo.
o pêssego de polpa rosa, aberto,
contém a mão no princípio do gesto.

o sol é uma cegueira de passagem.

josé félix



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sábado, maio 15, 2004



Beth

Na cidade da amasia
não há calor nos corpos
e os lencçóis estão arrefecidos.

Do amor abençoado
pelo Deus de Abraão
corre fel e amargura.

Não há shophar nem cantoria
e as casas do amor quente
estão caídas e vazias.

Ó Jerusalém! Tens tantos inimigos!

Jacob Kruz



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Hipocrisia e incapacidade para resolver os problemas

É evidente que o problema iraquiano é uma extensão do problema do terrorismo internacional. Os paises ocidentais não estão a saber resolver a questão, e nem sei se é possível resolver pelos métodos da «santa democracia». Claro que não sou adepto de soluções finais para liquidar o terrorismo internacional. Também não pretendo, de forma alguma, tornar relativo ou particular o terrorismo árabe.
Só não aceito, com veemência, que se fale e se faça gala das mossas aos Direitos Humanos pelos soldados americanos e ingleses em relação aos prisioneiros iraquianos e se deixe passar em branco, a degola e assasinato de centenas de pessoas, mulheres e crianças, perpretados pelos filhos de Alá. O complexo de esquerda que varre a Europa capa a memória(mens captio) de muitos cujos ascendentes sofreram a sanha e o ódio daqueles que em nome de Deus bebem o sangue dos inocentes.

E não nos esqueçamos, senhores agentes da informação, não há guerras limpas. Todas as guerras são sujas e todos os que nelas se metem têm ou ficam com as mãos pestilentas.

Leiam a história! Leiam a história, e aprendam, de uma vez por todas, que a guerra é feita de ódio, seja qual for o motivo por que ela se faz.

como flor maligna

flor maligna, solto os pólenes
da agonia. tem a marca
da cor deserta dos líquenes
na viagem de uma parca

a tecer o meu destino.
fia, doba a minha barca
no pensamento malino
da corda fraca da forca.

prendo-me à gávea sem tino
bebendo o vento que a pino
revolta o meu olhar de cego

e quando o rumor menino
liberta o pó descortino
o peso da alma que nego.

a flor herdada declino.

josé félix



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sábado, maio 08, 2004



Em nome de Deus

Desde que o homem encomendou deuses para tentar solucionar os problemas irresolúveis, tem havido várias contendas, lutas e aberrações em nome Dele(s) para as coisas mais estapafúrdias.
Ora, os States colocam "In God we trust" - eu diria trusties -, nas notas verdinhas, ora o líder xiita Moktada Sadr paga, sempre em nome de Deus, para que se capturem as mulheres-soldados ingleses para serem transformadas em concubinas dos líderes religiosos. Isto tudo em nome de Deus. Coitado!
Se Deus fosse vivo sentiria, penso eu, uma grande repugnância perante estas atitudes e carácteres dos líderes religiosos árabes e dos líderes dos países ocidentais que matam também em nome de Deus para salvaguardar a tradição e moral judaico-cristãs. Em nome de Deus e em nome do Petróleo, esse novo deus das sociedades modernas que tudo domina: os pequenos e os grandes países; a classe média e os pobres. Esquecem-se que os corvos do Ocidente são os mesmos corvos do Oriente.

Aleph

Perdi um beijo em Jenin
e em Belém um abraço.

Há medo e silêncio no caminho.

No muro, um choro.

Uma litania ecoa e prolonga
a voz do muezim.

Estão desertas as ruas de Deus.

Jacob Kruz

in "Breviário Lamentoso" (1)

(1) A partir de hoje vou colocar aqui o "Breviário Lamentoso" de Jacob Kruz, uma série de poemas que segue canonicamente as Lamentações de Jeremias. Os assuntos só por casualidade tocarão os célebres lamentos.



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