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domingo, maio 30, 2004



Por qué cantáis la rosa, ¡oh Poetas!
Hacedla florecer en el poema

Vicente Huidobro
Arte poética (El espejo de agua, 1916)



um dia hei de saber coisas que nunca cheguei a entender
as palavras magnólia florilégio precipício
e muitas outras palavras colocadas antes e depois dos verbos.
talvez a aproximação da morte
­­­– o pressentimento dela pode ser apenas um desejo;
infinitamente finita, que horizontaliza tudo
até a verticalidade de carácter construída–,
venha a entender a música da infância
quando fazia parte dos ramos das árvores
e havia aquela música específica,
e via tudo na mais explícita forma de ouvir e ver.
como lembro, ainda, das figuras sem rosto
das crianças que éramos
corolas de flores sem nome.
um dia hei de saber coisas com a lucidez dos espelhos,
e da claridade das águas retirarei gestos,
e sem pedir à alquimia dos olhos
a chama orvalhada de fulcanelli
terei na boca a espuma do tempo das pétalas azuis
que o olhar enfatiza na excelência de prolongada melancolia.
o que é a melancolia senão o desaparecimento dos pássaros?
um dia, uma colheita de flores
me agasalhe da aparente invernia
e apanhe o sentido da música na transformação patética
que possa sentir a leveza dos ossos
na grandeza das palavras murmuradas
como se fossem os segredos de deus.

turva indignação dos obstáculos que navega na margem das águas
a impotência das fontes periféricas
que não alcançam o sabor do mel
no labor imperioso, drástico, a caminho da morte.
hei de saber por que tens na claridade dos olhos
a transparência do sol e o voo das abelhas
um riso de chuva miudinha a plantar girassóis
nos cantos húmidos dos lábios em oração.

cativam as águas nas margens, nas raízes das mãos
e o corpo é uma gávea de navegação transformada
em mil portos de aventura e sequestro, mil horizontes
na vida feminina dos rios a beijar as sementes férteis
em passeios de louca procissão, religiosamente.
eu sei. um dia vão abrir-se as árvores e hei de beber a seiva
de um navio de sob as águas, proibido, e terei ao mesmo tempo
o sabor de todos os frutos, o sabor único do maio.

não me pertenço neste mar de náufragos
de sacanas de subtileza enfermidade, e
com a quilha envelhecida, cordame de muito uso
enxárcias obsoletas e mastaréu caído, eu hei de
limpar os cristais da água com a saliva da marinhagem.

tenho braços que atravessam os oceanos do medo
com cartas de palavras e geografias antigas
para desenhar futuros sem estratégias pré-concebidas.
sim, um dia hei de saber coisas
torneadas pelo vento de todos os nomes
e na linguagem das árvores
terei o murmúrio dos duendes a ecoar
nos troncos envelhecidos e no olhar
de quem ali esquece a margem dos rios.


josé félix




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