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domingo, julho 25, 2004


O meu veneno

Sinto relutância em escrever sobre as pessoas que se notabilzaram nas artes e outros ofícios, em vida. Depois, nunca li nada sobre os mortos que tivessem sido sacanas em vida. Foram todos(as) boas pessoas, íntegras, humanistas, além doutros panegíricos com que são tecidos.

Apesar disso, e porque é a obra que me interessa, não quero deixar passar em vão a minha homenagem à obra de duas pessoas que me influenciaram na vida: Sophia de mello Bryner Andressen, cuja leitura de poemas de água ajudou a formar o meu carácter poético, e a obra musical de Carlos Paredes - não sendo eu um cidadão nascido na Europa e, portanto, em Portugal,-, que me ajudou a entender um pouco da alma lusitana deste povo marinheiro que há mais de 800 anos procura um caminho ou, se calhar, o seu caminho é o constante descaminho, daí o eterno fado tão bem descrito no movimento perpétuo do guitarrista.


       poema para sophia de mello bryner andressen


conheci sophia na borla da onda
e no murmúrio da água
a palavra dispersa
sã, no canto do sopro
a conhecer o leme do lábio
navegando no limo das ilhas gregas

no mar sonoro ouvi a voz dos náufragos
e percebi a fala da água
quando embalava o olhar
no cicio dos crepúsculos

ternas, as mãos teciam compromissos
indiferentes, e no piar dos pássaros
embarcava distâncias na iluminação
do sol

água sob água, hoje
vou na escama dos peixes
absorvendo silêncios, ecos, restos
de barcos, na germinação dos lábios. 


             um poema para carlos paredes
            (e para o meu amigo josé antónio gonçalves
            que faz de uma ilha um autêntico universo marítimo)



a navegação luminosa dos sons da água.

quilhas envelhecidas traçam cartas
na marinhagem do cruzeiro do sul
e longe a espuma espraia-se na areia

são os acordes. soltam-se dos dedos
com o mergulho dos peixes na praia-mar
com os náufragos
os esqueletos dos navios
e das palavras surdas no eco das pedras
nascem sereias no caminho do vento.

lácio perfeito na forma da guitarra
pranto e alegria no regresso da viagem
que vem que vai e acena
como asas de gaivotas
que pousam e bebem o sol na proa do olhar.

é longe. é perto.
os olhos fixam a navegação -
movimento perpétuo de um fado
nas ondas sétimas de uma guitarra.

josé félix






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