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segunda-feira, agosto 30, 2004

O meu veneno

O terrorismo, a publicidade e os média

As três premissas que dão título ao texto estão intimamente ligadas. É essa intimidade que horroriza o cidadão esclarecido, ciente do poder de cada uma delas. Se não, vejamos. O terrorismo aumenta porque se lhe dá publicidade; os média são a corporação que impele essa publicidade com o objectivo maior de aumentar os índices de audiência do que denunciar a causa do desespero terrorista ou informar o cidadão leitor, ouvinte e tele-espectador, conseguindo aquilo que é chamado de «caxa». O terrorismo adora a publicidade, os média. Sem a publicidade o terrorismo morre, não consegue atingir os objectivos; o terror através da imagem, do som, etc..

A estação de televisão Al-Jazhira, por exemplo. Se se conseguir convencer esta estação de televisão, que recebe as cassetes de video da organização Al-Qaeda, as gravações dos prisioneiros filmados em poses de humilhação, deixa, pura e simplesmente, de haver notícia. E sem notícia, não existem prisioneiros, reféns decapitados para a maioria dos cidadãos. Exitirá, claro, para os familiares mais próximos, informados pelos governos aos quais pertencem os respectivos nacionais.

Não quero dizer, com isto, que devemos esquecer as causas que levam o fanatismo religioso( já de si um mal terrível) ao assassínio puro e simples de cidadãos comuns, em restaurantes, em paragens de autocarros, em estações de metropolitano e gares de comboios.

Há, evidentemente, causas que os paises melhor preparados e mais experientes no jogo democrático devem procurar entender, e ajudar os paises que aceitam organizações extremistas e enveredam pela via do assassinato público, a (re)encontrarem alguns sinais que os faça (re)tomar princípios de equilíbrio para a resolução dos seus próprios problemas.

O fundo da questão é a que envolve as três premissas do título. Enquanto os média derem publicidade ao terrorismo e ao consequente terror, os cidadãos, cada vez mais, serão incrédulos quanto às possibilidades de um reencontro de culturas que são muito diversificadas.

para além

viveu sempre como um girassol claro.
iluminava o dia como um relógio,
e nas noites estranhas à melancolia
bebia restos de sombras
fugidas à iluminação dos ponteiros.
até que um dia
o pedúnculo cedeu na engrenagem crónica,
e hoje vão surgindo feixes de luz,
quando descem as águas pronominais
no caminho tortuoso da perfeição da morte.

josé félix







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quinta-feira, agosto 26, 2004


O meu veneno

A exigência feita pela Comunicação Social aos atletas que estão em Atenas raia a falta de educação primária, a incompetência profissional. Eles são os principais indicadores da auto-estima portuguesa. A falta de auto-estima causa os discursos mais pobres dos últimos tempos.
Exigir a atletas que não tiveram nos últimos quatro anos a assistênncia necessária das estruturas desportivas denunciando claramente uma falta de política desportiva, toca o anedótico e mente ao ouvinte, leitor e espectador de televisão.
Por outro lado há uma grande falta de humildade que deve reger a prática desportiva em Jogos que se pretendem católicos (vem do grego que quer dizer universais)denunciando uma certa soberba como o fizeram os jogadores de futebol representantes de Portugal em Atenas.
Não se exija o que não se dá nem se oferece. Há muitos atletas bons e só alguns podem chegar ao podium: os melhores e os que tiveram melhores oportunidades nos seus paises com estruturas bem fundamentadas para a prática desportiva a nível amador e profissional.

o tempo

há ventos que rasgam a seda dos dias
e cavam e lavram as manhãs descobertas
no sabor das madrugadas.
as flores sorriem pudicas
no azul que desponta nos lábios fiéis dos amantes.

o tempo perde-se numa folha de amendoeira
que leve e seca e grave toca a terra
úbere por mil vez e mais mil vezes
no ritmo grávido da semente.

josé félix



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domingo, agosto 22, 2004


O meu veneno

Discute-se desde há muito tempo sobre o lugar da poesia nos tempos modernos. Sartre foi um dos pensadores que escreveu alguns textos sobre o interesse que a poesia, hoje, e ele pensou-o no princúipio dos anos 70, pode ter na sociedade.
Não vou dissertar aqui sobre o interesse ou não que a poesia tem no pensamento de hoje. Há académicos e doutores que dissertam sobre o assunto, principalmente aqueles que nunca escreveram um verso.

De qualquer modo deixo aqui duas considerações de António Ramos Rosa acerca do Poeta e da Poesia no Mundo:

António Ramos Rosa, no nº 22 da revista "O Tempo e o Modo", num artigo crítico sobre O Encontro de Berlim, afirma que "enquanto a sociedade mantiver a sua rigidez e as suas múltiplas, patentes ou ocultas, formas de repressão, onde a vida não pode desenvolver-se em toda a plenitude e dignidade, a poesia deverá ser o que ela já é nos mais significativos poetas do nosso tempo: uma afirmação de dignidade e de liberdade humana".
Para ele, o "poeta moderno, mesmo na sua «déraison» tem razão, porque não testemunha só da anormalidade e da violência do mundo em que vivemos, ele é a afirmação, embora desprezível sob certos pontos de vista, do valor mesmo daquilo que falta aos termos sociais e que, no entanto, constituem o fundamento do homem, da condição humana".(1)

(1)António Ramos Rosa

o lugar da poesia

ao josé antónio gonçalves


eu sei onde vou pôr a minha poesia
vou colocá-la detrás dos buracos das fechaduras
nas frinchas das portas

e nos parapeitos das janelas.
vou vê-la andar por aí a fazer jogging
passeando o cão como se ele fosse

o psicanalista de serviço em domingos assim
imaginados pelo ruy belo
que até o sol do meio-dia agarra a melancolia

num girassol seco de sede e solitário
na carícia de uma papoila rubra
no fim da estação.

eu sei caro amigo que as coisas não são simples
e verei a poesia pendurada nos candeeiros
escondida em papel de prata dos maços de cigarros

ou em papel barato embrulhando
as figuras mais ridículas e rejeitadas
atiradas para o sótão onde o lixo aguarda

o tempo propício para que o index resolva
definitivamente a morte feita de gangrena
raiva ódio desprezo e de um amor

incompreensível que só os ratos
na sua extrema compreensão
terão o entendimento possível

das palavras semeadas a esmo
na lavradura de uma terra infértil
esganada pela ditadura de sacanas

que cortam rente as flores silvestres
a língua com o gosto das amoras
o primeiro sabor de um pêssego

e até a infrutescência de um figo lampo.
há tantos lugares onde se põe a poesia
esquecida nos sofás ou a mexer um copo de gin

nas noites que se pretendem mais escuras
do que as noites mais escuras na imaginação
do pedreiro de um poema feito com tijolo

de sete furos para a construção de uma casa-poema
onde cabe o sol de todo o ano e um riso cristalino
a começar as madrugadas.

eu sei onde vou pôr a minha poesia
no canto dos lábios de vinho de um homem do leste
no rap a passear no rossio ou nos restauradores

nos bares das docas da 24 de julho
e no corpo das putas possíveis que amam
na plenitude a vida como as outras mulheres.

ah com tanto lugar onde pôr a poesia
ainda verei gente como numa procissão de
homossexuais e lésbicas com bandeiras de poemas

e caixas parecidas com as dos bombons
a oferecerem a todos os filhos da puta
a poesia travestida de grandeza

como a humanidade se importasse
com as palavras presas numa garrafa
atirada ao oceano à procura de uma areia

longínqua uma ilha do dia antes
como se fosse uma sombra na imaginação
de um poeta-judeu ou de um judeu-poeta

que é precisamente a mesma coisa.
e como não há outra alternativa
eu sei onde vou pôr a minha poesia.

josé félix



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segunda-feira, agosto 16, 2004


O meu veneno

O meu veneno

Após as férias merecidas, na Fuseta, onde retemperei tudo aquilo que havia para justificar, cá estou eu a dar conta de algumas leituras que fiz, entretanto.

Há uma frase que retiro da leitura da entrevista dada pelo ex-Director da PJ acerca
da justiça: "a justiça é uma teia para apanhar moscas e deixar fugir os pássaros". Não é por acaso que o único pobre do processo Casa Pia, O Sr. Silvino, está preso.

Os meus amigos, e inimigos, retirem as suas conclusões.




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