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domingo, agosto 22, 2004


O meu veneno

Discute-se desde há muito tempo sobre o lugar da poesia nos tempos modernos. Sartre foi um dos pensadores que escreveu alguns textos sobre o interesse que a poesia, hoje, e ele pensou-o no princúipio dos anos 70, pode ter na sociedade.
Não vou dissertar aqui sobre o interesse ou não que a poesia tem no pensamento de hoje. Há académicos e doutores que dissertam sobre o assunto, principalmente aqueles que nunca escreveram um verso.

De qualquer modo deixo aqui duas considerações de António Ramos Rosa acerca do Poeta e da Poesia no Mundo:

António Ramos Rosa, no nº 22 da revista "O Tempo e o Modo", num artigo crítico sobre O Encontro de Berlim, afirma que "enquanto a sociedade mantiver a sua rigidez e as suas múltiplas, patentes ou ocultas, formas de repressão, onde a vida não pode desenvolver-se em toda a plenitude e dignidade, a poesia deverá ser o que ela já é nos mais significativos poetas do nosso tempo: uma afirmação de dignidade e de liberdade humana".
Para ele, o "poeta moderno, mesmo na sua «déraison» tem razão, porque não testemunha só da anormalidade e da violência do mundo em que vivemos, ele é a afirmação, embora desprezível sob certos pontos de vista, do valor mesmo daquilo que falta aos termos sociais e que, no entanto, constituem o fundamento do homem, da condição humana".(1)

(1)António Ramos Rosa

o lugar da poesia

ao josé antónio gonçalves


eu sei onde vou pôr a minha poesia
vou colocá-la detrás dos buracos das fechaduras
nas frinchas das portas

e nos parapeitos das janelas.
vou vê-la andar por aí a fazer jogging
passeando o cão como se ele fosse

o psicanalista de serviço em domingos assim
imaginados pelo ruy belo
que até o sol do meio-dia agarra a melancolia

num girassol seco de sede e solitário
na carícia de uma papoila rubra
no fim da estação.

eu sei caro amigo que as coisas não são simples
e verei a poesia pendurada nos candeeiros
escondida em papel de prata dos maços de cigarros

ou em papel barato embrulhando
as figuras mais ridículas e rejeitadas
atiradas para o sótão onde o lixo aguarda

o tempo propício para que o index resolva
definitivamente a morte feita de gangrena
raiva ódio desprezo e de um amor

incompreensível que só os ratos
na sua extrema compreensão
terão o entendimento possível

das palavras semeadas a esmo
na lavradura de uma terra infértil
esganada pela ditadura de sacanas

que cortam rente as flores silvestres
a língua com o gosto das amoras
o primeiro sabor de um pêssego

e até a infrutescência de um figo lampo.
há tantos lugares onde se põe a poesia
esquecida nos sofás ou a mexer um copo de gin

nas noites que se pretendem mais escuras
do que as noites mais escuras na imaginação
do pedreiro de um poema feito com tijolo

de sete furos para a construção de uma casa-poema
onde cabe o sol de todo o ano e um riso cristalino
a começar as madrugadas.

eu sei onde vou pôr a minha poesia
no canto dos lábios de vinho de um homem do leste
no rap a passear no rossio ou nos restauradores

nos bares das docas da 24 de julho
e no corpo das putas possíveis que amam
na plenitude a vida como as outras mulheres.

ah com tanto lugar onde pôr a poesia
ainda verei gente como numa procissão de
homossexuais e lésbicas com bandeiras de poemas

e caixas parecidas com as dos bombons
a oferecerem a todos os filhos da puta
a poesia travestida de grandeza

como a humanidade se importasse
com as palavras presas numa garrafa
atirada ao oceano à procura de uma areia

longínqua uma ilha do dia antes
como se fosse uma sombra na imaginação
de um poeta-judeu ou de um judeu-poeta

que é precisamente a mesma coisa.
e como não há outra alternativa
eu sei onde vou pôr a minha poesia.

josé félix



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