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quarta-feira, setembro 29, 2004

O meu veneno

sobre quase tudo
dir-te-ei um dia
quando a cinza for
menor que a lembrança

de réstia de luz.
até lá façamos
de conta que a vida
é um pormenor

sobre tudo quase
e não vale a pena
beber toda a água
contida no copo.

basta um lábio frio
aquecer a noite.

josé félix



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O meu veneno

Pois. Um país de Comissões de Inquérito, Comissões Permanentes de Educação, da Economia, do Desporto, disto e daquilo. Há um problema na Educação? Faça-se um inquérito. Há um problema nas Finanças? Faça-se um inquérito. Há um problema na Saúde? Faça-se um inquérito. Há um problema na Defesa? Faça-se um inquérito.

E depois? Vamos todos para as praias de Mira, de Carcavelos, de Fortaleza, de Punta Caña, Acapulco.

Problemas? Que problemas? Nunca exitiram. O problema é o problema. Que povinho tão complicado!

E assim caminha o país do Peter Pan!






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domingo, setembro 26, 2004

O meu veneno

É domingo. O país fica mais pasmado, ainda, que os dias da semana. Tudo serve para uma pausa: eleições no Partido Socialista, a busca da Polícia Judiciária em Portimão, as decapitações diárias no Iraque. Não se sabe nada acerca da cultura deste país, e só se fala do rpoblema da colocação de professores uma vez por ano.
Este país é uma sangessuga. Vive dos problemas dos outros e esquece-se dos próprios problemas.

Apesar disso tudo ainda tenho tempo, que é uma coisa preciosa, para fazer algumas leituras e acertar-me com a edição constante de livros e de outros que me vêm parar ás mãos através de amigos e de troca de conhecimentos e saberes.
É o caso de um livro do poeta Fernando Esteves Pinto, "Ensaio Entre Portas", Palavra Ibérica / 1, edição Almargem, 1997. É um livro de poesia que tem a casa como memória e serve-se da palavra porta, polissémica, para nos escancarar a sua escrita; meticulosa, não sincrética. Laiam-no. É um bom livro de poemas. E é da leitura do poema da página 26 do livro que me sirvo de um verso como epígrafe para o poema que se segue e que dedico ao autor.

para alimentar as oscilantes folhagens da voz
Fernando Esteves Pinto(1)

na janela da casa
abro o coração da árvore.
guio a seiva do tronco
rio submerso no chão que habito.
nas margens planto nervuras e bainhas
da nova habitação
lábil no pecíolo das folhas
páginas de tempo medido no parapeito das circunstâncias.
há, mesmo assim, uma voz no fio-de-prumo
que nivela a parede.

inédito de josé félix


(1)Fernando Esteves Pinto, Ensaio Entre Portas, Edição Almargem, Palavra Ibérica / 1, Faro, 1997

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sexta-feira, setembro 24, 2004

O meu veneno




Um país de sugestões. Toda a gente sugere. Sugere-se como deve ser conduzido o processo da Casa Pia (perdeu o imediatismo noticioso por alguns suspeitos aguardarem em liberdade o desenvolvimento do processo), sugere-se como deve ser conduzida a Agricultura, as Pescas, as Obras Públicas, a Administração Pública; sugere-se como deve ser resolvido o problema dos docentes deste país, sugere-se como dever ser resolvido o insucesso escolar, e sugere-se como se deve sugerir.
É, na verdade, um país onde toda a gente sugere;toda a gente tem soluções. O problema é quando estão nos lugares de decisão e perdem, quase sempre, a capacidade de sugerir, não decidindo em prol daquilo que tanto apregoaram como boas intenções, sendo engolidos pela máquina sistemática da burrocracia.

Enfim, o país está sugestionado. Hipnotizado pela constante incapacidade dos governantes: dos que estão no poder e dos que estão na oposição.

apenas uma circunstância

talvez o pormenor esteja no texto. compões
o corpo e os lábios mas sou eu que lhes dou
o sentido literário. a comoção. a emoção do
leitor. sem sobreaviso arranco-te o coração
e dou-o à mercancia do desejo. é a finalidade
da escrita. e tu só para mim. objecto das pa-
lavras que reinvento. planto-te nas tempesta-
des e chuvas contínuas como se fosses o único
espelho bafejado pelo sopro da criação. através
da leitura dás-me outros ventos e outras searas
com papoilas e pássaros nos olhos dos inocentes.
regos de terra manchados de sangue de um
amor puro quase impuro. uma parede branca
cheia de sombras. vejo-te beber uma palavra.
morrer num verbo e numa explosão de flores
ateias toda a gramática do jardim. a suprema
dor da fala. a beleza do incêndio no leito das
mãos. as bocas pronunciam os novos sinais
e o fogo aceso espalha a chama com toda a
inocência. o texto talvez seja um pormenor.
a existência apenas uma circunstância da
leitura.

inédito de josé félix


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sábado, setembro 18, 2004

O meu veneno



A decapitação

Tem-se falado nestes últimos tempos em decapitação. O acto vem do verbo decapitar,decapitare, de caput(cabeça): tirar a cabeça.
O terrorismo é néscio por natureza. Falo do terrorismo das duas margens do rio. Não é a decapitação, pura e simples, por degola, que resolve os problemas inerentes a uma região, a uma sociedade, a uma civilização. Porque há várias civilizações e não uma só, a ocidental, judaico-cristã. Asim como não se resolve o problema do Médio oriente, decapitando selectivamente do corpo que é o movimento terrorista de contestação à presença dos judeus no território que lhes pertence, por jus sanguinis e por jus lex. Decapita-se e aparece um outro chefe no corpo expedicionário do terrorismo; decapita-se e aumenta o ódio dos ocidentais que, se não for parado este ritual contestatário, levará, imperterivelmente, à xenofobia mais primária, com ordem para expulsar os árabes dos paises europeus, alguns deles já cidadãos da Europa, velha, gasta, intelectualmente obtusa e cada vez mais subserviente para com a Bolsa de Nova York. Com todas as consequências no futuro.


flor da paixão

beijo-te flor obscena.
no abraço dos relâmpagos
cai a chuva de pétalas
no corpo do jardim.
é com o sol nos dedos
que brinco na corola
nua de pólen frágil
e no incêndio das flores
na cegueira da luz
uma brisa solar
leva a cinza volida
no fogo brando claro.

josé félix




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quarta-feira, setembro 15, 2004

O meu veneno

Hoje começou o Novo Ano judaico: 5765. Dia 24 é Yom Kipur



Shaná Tová


Amarga o mel na boca dos inocentes.
A metralha da cintura
abafa o som do shofar.
rosh hashanah! shaná tová, meu amor!
para sempre ficarão guardados os pirilampos
dos teu olhos e as laranjas do deserto
adoçarão a língua
no canto do futuro.

o corno do carneiro deixará sons em todas as árvores
e a oliveira, a oliveira deixará, para sempre,
de ser a árvore da paz podre das duas margens da fala.

shaná tová, meu amor!
dá-me a tua mão e deixa para trás o muro das lamentações.
esquece jeremias, aleph e tau, o princípio e o fim de todas as coisas.

nós somos o ribeiro, o canto, a água, o fruto, o riso.
deus não nos rejeita totalmente nem se enfurecerá contra nós
em tão grande maneira.(1)

a lenha, o sopro, a chama, o calor, a cinza
será sempre o nosso sossego
somos os gamos de beter nos montes do líbano
e vamos amar-nos sob as figueiras
e comeremos pão com passas.

de manhã cheiro o teu corpo quente
e entre os seios vou colocar-te um ramo de lírios
mesmo que a metralha caia nas paredes
e haja braços e pernas pendurados nas buganvílias
e mulheres ululantes cantem os filhos mortos em gaza
em jerusalém em haifa ou no deserto de neguev.

ah, meu amor, quanta pólvora me cega a vista
neste ano novo de lamúrias e esperança.
dá-me o corpo no sexo do castigo
e na acalmia das bombas e dos discursos repetidos
vamos ser únicos, só isso, únicos
e que a luz faleça sobre nós
no orgasmo, na ejaculação da raiva
no vómito do sangue temperado com o voo das pombas
que de manhã cedo tocam a madrugada silenciosa.

shaná tová, meu amor
improvisa o dia, a vida, escova os cabelos
e não rezes, por favor.

josé félix
15 de Setembro de 2004
(inédito)




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domingo, setembro 12, 2004

O meu veneno



O portal Terravista deixa de alojar as páginas pessoais e outras de carácter literário e de divulgação da língua e literatura em língua portuguesa, a partir do dia 20 deste mês.
Não vale a pena tecer qualquer tipo de comentário para uma atitude que eu considero retrógrada, porquanto era o portal com o maior alojamento de páginas de Portugal e do Brasil; se dava prejuízo, certamente havia soluções para ajudar a manter aquele serviço que todos consideravam público. É o país pequenino na sua manifestação mais mesquinha.



na casa plantada

na casa plantada
folheio as paredes
de outras aventuras
quando o gato brinca
no musgo dos olhos
a carícia leve.
preguiça do tempo
que vai acomodando
vestuário velho
que salta da pele
das fotografias
ardidas nos dedos.
parece vazia
e no entanto gasta
na fuligem brilhos
novos na leitura
do chão e do tempo
lavrado com risos
e mais sentimentos
que foram crescendo
no lar das janelas
a beber jardins
a água e as pedras
que hoje carrego
no álbum dos ombros
da criança antiga.

não tenho perguntas.
eu sei cada ruga
das telhas vermelhas
caídas no chão.
é que ainda ouço
a fala da chuva
beijando as caleiras.

remexo a mobília
e nos cheiros puros
das ervas sem nome
dou nome às coisas
perdidas nas conchas
são os sopros dizem
duma pátria morta
na cor das piteiras
no sangue sem cor
e nos frutos secos
a casa plantada
sacode a raiz
as paredes tudo
a água a hera
as telhas a cal
a morte de cedo
os passos marcados
no caminho negro
nos regos das árvores
nos ramos nas flores
na língua na língua.

a casa plantada
no dorso nos braços
está caída. renasce
nas sílabas e
nos lábios de cinza
canta na ficção
da verdade morta
uma flor de luz
e na transparência
dos ouvidos claros
vem a ventania
rezar sementeiras
os tectos janelas
as portas a casa
e gente lá dentro
com risos e choros
um cão e um gato
talheres na mesa
com o pão e o vinho
na construção simples
de um pedreiro livre.

uma casa plantada
a casa submersa.

josé félix
Set2004



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domingo, setembro 05, 2004

O meu veneno

No semanário Expresso no bloco de Economia há um cabeçalho interessante: "Ludgero deixa de ser Sr. Engenheiro. A AEP, Associação Industrial de Portugal, por proposta de Couto dos Santos resolveu acabar com os títulos académicos como forma de democratizar o relacionamento o humano e, diz-se, modernizar e romper barreiras sociais.

Ora, não sei o que tem de moderno esse tratamento e, quanto a romper as barreiras sociais é de gargalhar até à morte.
As barreiras sociais não se rompem com a mudança pura e simples, de deixar de tratar as pessoas por Dr, Engº, etc., etc., etc. Ou seja, pensam que a forma diferente de tratamento torna tudo muito mais horizontal; horizontalizam (peço desculpa pelo verbo) por fora mas, por dentro continua tudo vertical. A modernização deve ser feita nas estruturas internas de produção das empresas, onde os chefes devem estar mais próximos dos trabalhadores de base. Isto é que é a modernização, a par da actualização das máquinas envelhecidas para que haja maior produtividade. A produtividade está relacionada com a modernização das máquinas para que se produza mais em menos tempo. Tratar o Sr. Engº Ludgero marques apenas por Senhor não muda nada. Absolutamente nada. É uma posição administrativa para a mesma mentalidade.

Deixo-vos um haibun,(1) série, para fragilizar o veneno.


a morte é o outro lado do espelho. a casa, hoje vazia, tem os sinais líquidos nas paredes, onde o musgo rasga as rugas como num campo de lavra verde. no centro do quarto, lembro, quando os mortos se choravam em casa, vejo o corpo de meu pai; sonâmbulo, como quando descansava às tardes de promessas de ócio.

as flores viçosas
aromam intensamente
o corpo do féretro.


mesmo assim, com as pálpebras cerradas como que a perscrutar a música árabe que ouvias nos crepúsculos luandinos, dás-me a sensação de perceber o mundo às avessas, sussurrando teorias antigas, mas que me pareciam novas como as flores sempre renascendo na buganvília que trepava sem querer na varanda das videiras que davam uvas duas vezes por ano.

as uvas maduram
e beijam as buganvílias
ao som do tom árabe.


hoje, quando te percebo e olho as minhas mãos iguais às tuas, carrego as ferramentas do desenho da vida na polpa dos frutos, e na seda das pétalas novas continuo a ter o teu sorriso de manhãs de sol e água. ah, meu pai,
porque é que há sempre uma palavra que gostaríamos que fosse dita na devida altura?


os dias mais velhos
já mostram no mesmo espelho
as rugas iguais.


é o fim do dia. o segundo que te separa de mim e me separa de ti é o nervo no canto do lábio. dizias «é» e a iluminação do sol abria as santas-noites no jardim. ficávamos em silêncio a olhar sabe-se lá o quê, talvez à espera de um deus peninsular que nos desse notícias dos pássaros que vinham em fevereiro e iam em novembro, do sul para o norte, do norte para o sul.

é na cruz das mãos
que o sol cola uma flor -
lábios de silencio.



José Félix


(1)Haibun é uma combinação de prosa com haiku/haicai. Foca, muitas vezes, experiências diárias e, algumas vezes, uma viagem conforme Matsuo Bashô, um monge japonês, fez nas suas famosas viagens.

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