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domingo, setembro 05, 2004

O meu veneno

No semanário Expresso no bloco de Economia há um cabeçalho interessante: "Ludgero deixa de ser Sr. Engenheiro. A AEP, Associação Industrial de Portugal, por proposta de Couto dos Santos resolveu acabar com os títulos académicos como forma de democratizar o relacionamento o humano e, diz-se, modernizar e romper barreiras sociais.

Ora, não sei o que tem de moderno esse tratamento e, quanto a romper as barreiras sociais é de gargalhar até à morte.
As barreiras sociais não se rompem com a mudança pura e simples, de deixar de tratar as pessoas por Dr, Engº, etc., etc., etc. Ou seja, pensam que a forma diferente de tratamento torna tudo muito mais horizontal; horizontalizam (peço desculpa pelo verbo) por fora mas, por dentro continua tudo vertical. A modernização deve ser feita nas estruturas internas de produção das empresas, onde os chefes devem estar mais próximos dos trabalhadores de base. Isto é que é a modernização, a par da actualização das máquinas envelhecidas para que haja maior produtividade. A produtividade está relacionada com a modernização das máquinas para que se produza mais em menos tempo. Tratar o Sr. Engº Ludgero marques apenas por Senhor não muda nada. Absolutamente nada. É uma posição administrativa para a mesma mentalidade.

Deixo-vos um haibun,(1) série, para fragilizar o veneno.


a morte é o outro lado do espelho. a casa, hoje vazia, tem os sinais líquidos nas paredes, onde o musgo rasga as rugas como num campo de lavra verde. no centro do quarto, lembro, quando os mortos se choravam em casa, vejo o corpo de meu pai; sonâmbulo, como quando descansava às tardes de promessas de ócio.

as flores viçosas
aromam intensamente
o corpo do féretro.


mesmo assim, com as pálpebras cerradas como que a perscrutar a música árabe que ouvias nos crepúsculos luandinos, dás-me a sensação de perceber o mundo às avessas, sussurrando teorias antigas, mas que me pareciam novas como as flores sempre renascendo na buganvília que trepava sem querer na varanda das videiras que davam uvas duas vezes por ano.

as uvas maduram
e beijam as buganvílias
ao som do tom árabe.


hoje, quando te percebo e olho as minhas mãos iguais às tuas, carrego as ferramentas do desenho da vida na polpa dos frutos, e na seda das pétalas novas continuo a ter o teu sorriso de manhãs de sol e água. ah, meu pai,
porque é que há sempre uma palavra que gostaríamos que fosse dita na devida altura?


os dias mais velhos
já mostram no mesmo espelho
as rugas iguais.


é o fim do dia. o segundo que te separa de mim e me separa de ti é o nervo no canto do lábio. dizias «é» e a iluminação do sol abria as santas-noites no jardim. ficávamos em silêncio a olhar sabe-se lá o quê, talvez à espera de um deus peninsular que nos desse notícias dos pássaros que vinham em fevereiro e iam em novembro, do sul para o norte, do norte para o sul.

é na cruz das mãos
que o sol cola uma flor -
lábios de silencio.



José Félix


(1)Haibun é uma combinação de prosa com haiku/haicai. Foca, muitas vezes, experiências diárias e, algumas vezes, uma viagem conforme Matsuo Bashô, um monge japonês, fez nas suas famosas viagens.

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