<$BlogRSDUrl$>

quarta-feira, outubro 13, 2004

O meu veneno

A relação com a morte

Vamos convir que a peqena manifestação contra a presença de um edifício que pode tratar os mortos com a dignidade que eles merecem, além de pequena foi exagerada nos comentários de alguns presentes.

Não quero aqui esclarecer quanto à probidade dos proprietários do futuro edifício, nem quanto à legalidade perante a Câmara Municipal de Lisboa. O que me interessa é a relação que os vivos têm, hoje, com a morte. Houve tempos que o homem enterrou os seus mortos dentro de casa, depois no adro das igrejas, e por fim o mais afastados possível da casa dos vivos, em espaços e recintos fechados. Como antes se faziam as vigílias na casa dos defuntos, hoje apressa-se o serviço, despachando-os o mais rapidamente possível do convívio com os vivos (passe o pleonasmo). Há muita gente que deveria ler Guilherme, o Conquistador, de Georges Duby para saber como era encarada a morte no sec XI, e ainda Philipe Aries, sobre o desenvolvimento da relação que homem tem tido com os seus mortos. E ,presentemente, é muito má.

A mim não me importa, absolutamente nada, que haja cemitérios (deveriam ser abertos e não fechados) dentro das cidades, como em Hamburgo, na Alemanha, nem me choca que haja empresas que tratem dos mortos com a dignidade que merecem, uma vez que os familiares querem desfazer-se deles com a maior brevidade possível.

Acho, sim, que devemos ter uma relação mais próxima com os mortos, até porque é essa a finalidade para que vivemos. Pura, e seimplesmente, para morrer.

a teoria da morte

pois.é verdade amigos.
a morte é uma carícia a envelhecer-nos
o rosto e o resto do corpo.
rasga a pele na esquina de dezembro

e espreita fria. sobre ela tenho gestos de ternura
quando o silêncio bêbado de gin
procura na memória um sorriso
impossível na descrição do poema.

é a literatura a intrometer-se
na construção da escrita
e, se a morte é a penumbra na janela
onde um fio de sol brinca na gota

de água que segue o olhar de nada e tudo,
não é a morte que por mim espera.
trago-a comigo até que a carga pese
e o fiel decline e cumpra assim a vida.

josé félix, Geografia da Árvore (a reinvenção da memória), Múchia Publicações, Lda, Poéticas de Lav(r)a, Funchal, 2003


| |

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

AddMe.com, Search Engine Optimization and Submission Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com






br>


referer referrer referers referrers http_referer