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domingo, outubro 10, 2004

O meu veneno

Pão e circo

Num país normal, digo, com vida, a saída do Professor Marcelo Rebelo de Sousa de uma estação de televisão seria uma coisa normal. Só que este país não existe. Ultimamente tem sido o produto da virtualidade dos mass maedia que cosntroem e desconstroem o país conforme as necessidades de audiência: o famoso share.

Todos sabemos que num país normal há pressões de todos os lados: pressões económicas, pressões políticas, pressões desportivas, e até outras pressões que entram no campo da chantagem, pura e simples.

E só num país adormecido, e atormentado pelas «grandezas» do passado, há alimento para engordar a auto-estima e os falhanços em quase todos os campos da vida de uma nação - (este termo já vai perdendo o significado que teve antes, e com a vinda da aldeia global vai deixando de ter qualquer sentido: não é por acaso que já nem falamos da Alemanha, da França, da Bélgica, e sim da Europa mesclada de contrariedades e outras contradições mais profundas; a Europa actual é também um velho mundo virtual que, mais cedo ou mais tarde vai ter um fim triste).

O problema não é o Dr. Marcelo, nem o Dr. Santana Lopes, nem o Ministro dos Assuntos Parlamentares. O problema é deste país vazio.

Então não é que o jornalista que acompanha a selecção portuguesa de futebol ficou aborrecido com a derrota frente à selecção de futebol do Lichtenstein? Porquê? Então ninguém acha capaz o Lichtenstein de ganhar à selecção portuguesa?

A história está cheia de pequenos que derrotaram os grandes. Lembram-se de David e Golias?

Não há pachorra para tanto!

eu sei amigo

eu sei, amigo, que o flamingo da pirogravura
não tapa o estalido da parede, só.
mexe as asas e movimenta o pescoço longo, o bico
na ponta como a seta a equilibrar o espaço,
com a folhagem seca movimentando-se entre as patas;
navios velhos carregados de clandestinos e de troncos de madeira
e de sonhos desembarcados na outra margem, a das conveniências.
os pássaros azuis do tapete de arraiolos
brincam sob os meus pés em lagoas tranquilas de gin tónico
e nos passos da dança macabra de camille sans saëns
pétalas violeta cobrem-me o copo nu
a olhar com o olhar mais terno do mundo
uma noite estrelada de van gogh
percebes agora, amigo, que a luz
não ilumina tudo, se os olhos permanecem na transparência
das manhãs claras, luzidias, e que cegam à mesma velocidade
com que atravessas a avenida e os teus olhos se perdem
na folhagem do arvoredo e cais fulminado como camus
nas ruas de paris ensolarada?

tenho um pássaro na janela e angustia-me saber
que nunca mais terá o pouso do meu olhar.

o flamingo e os pássaros azuis, os frutos bordados na parede,
têm o sorriso das mãos, os gestos familiares do dedal e da agulha,
a linha serpenteando na serapilheira
fabricando voos, árvores, sentidos que o olhar dos outros dá
às coisas simples, do tempo consertado em vigílias de ternura.

vai a tarde e com ela os sorrisos das mulheres de atenas
que debruçadas sobre o parapeito das janelas
congeminam traições aos ulisses que vagabundeiam pela cidade

José Félix, Antologia Escritas nº1, Encontro de Escritas, Lisboa 2004




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