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sexta-feira, dezembro 31, 2004


O meu veneno

Há um ano inciei este blogue com a certeza de que teria uma duração curta, pensando na proliferação «democrática« deste método de comunicação e discussão. Apesar de o meu pensamento não ter mudado muito desde aquela época, o certo é que a A Teia da Aranha continua a ter amigos indefectíveis, e inimigos de estimação, que fazem o favor, ou não, de visitarem com o seu mel ou o seu veneno bífido e purulento.

Sendo assim, caros amigos, e inimigos, estou pronto para iniciar mais um ano de actividade de comunicação escrita na A Teia de Aranha, e verter o meu veneno sobre todos aqueles que pensam ser os donos do mundo, do pensamento dos outros, dos que pensam ter o conhecimento e o saber como dados adquiridos.

A ignorância cura-se, a estupidez ataca-se com todo o veneno disponível nas glândulas.

NA CONSOA DA MEMÓRIA

No espelho partido
o teu rosto cubista
é um arlequim azul
na modéstia do sorriso.

Acendes com as mãos a casa.
O café é só um paliativo
para trocarmos o leme dos dias

num pedido mútuo
sem explicações.

Ambos saímos sós,
acompanhados um do outro,
bebendo filhos e agruras
numa navegação dupla
para a mesma viagem.

O regresso é o desejo
para regarmos as plantas do jardim;
no pó da mobília
desenharmos os rostos
que aparecem à mesa
para a consoa da memória

José Félix



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sexta-feira, dezembro 24, 2004


O meu veneno

Aos meus leitores, fiéis e infiéis, ofereço um tanka referente à época de Natal



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neve nos pinheiros -
há um cheiro a rabanadas
nas ruas da aldeia.

no novo presépio mora
um menino jesus negro

josé félix
04.12.24



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quarta-feira, dezembro 22, 2004


O meu veneno

Já nada me pasma neste país.
Agora é o escândalo de uma separata que aparece nos jornais diários a explicar, em linguagem corrente, o orçamento geral do estado para o ano de 2005.
Toda a oposição ao Governo em Gestão assim o classificou: escândalo. A palavra escândalo, de origem grega, só quer dizer obstáculo imprevisto. Como tal dê-se o beneplácito ao Governo por ter colocado esta pedra no sapato da Oposição. A Oposição, amorfa, apática, sebastianista, vale-se da (in)evolução semântica da palavra e torna-a (maldito verbo transitivo!) num significado altamente pejorativo. Dizem, então, que o Governo fez a separata com o dinheiro dos contribuintes. Certo. E as eleições, são feitas com que dinheiro? Não é do bolso dos contribuintes? A verba não sai do Orçamento geral do Estado para os partidos gastarem até ao desmazelo o dinheiro dos contribuintes?

O problema, aqui, caros amigos, não é a separata que vem nos jornais. São os votos, são as eleições ,constantes, que esvaziam os bolsos dos contribuintes. E digo mais. Se os Senhores Deputados não tivessem uma reforma vitalícia após duas legislaturas, não havia tantas eleições antecipadas e, por conseguinte, a estabilidade seria muito maior.

Nas próximas eleições legislativas que ninguém vote. O voto é a forma de fazer com que os partidos perdedores governem através do método de Hondt. Abaixo o voto!

Saudações proudhomianas





como um bailado clássico
a espuma da folhagem
reinventa silêncios

em orações de sul.
são tão frágeis os ramos
que a seiva nobre deixa

feridas nas palavras
breves, graves, no tronco
solitário do chão.

dança o tempo no olhar
e o vento chove a água
nas sombras escondidas.

josé félix




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terça-feira, dezembro 21, 2004


O meu veneno

a morte é a sombra do teu rosto
iluminada por cem mil relâmpagos.

josé félix



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domingo, dezembro 19, 2004


O meu veneno

Este país, para ser um país estável, só necessita de ficar parado. Estático, à espera que os outros façam por nós aquilo que deveríamos fazer. É uma beleza.

Há dias ouvi um professor americano, numa Universidade portuguesa, dizer que Portugal é o único país da Europa que está a ser colonizado. Aceito a aculturação porque sempre a houve entre povos que convivem mais de perto, e mais, ainda, devido à globalização dos sistemas. O povo absorve praticamente tudo aquilo que é mau dos países que influenciam este país: muitas novelas que não reflectem a realidade social no Brasil, onde a história de muitas histórias é um novelo cor-de-rosa onde o rico fica menos rico e o pobre ascende a uma classe mais elevada; novelas que transmitem a ideia de que os sacanas não o são tanto, e a bondade, esse conceito sublime, é tratada de uma forma vaga. Dos países de leste também vem uma certa influência negativa, não aproveitando este país aqueles que chegam da Ucrânia, da Rússia, da Roménia, por exemplo, com elevados graus académicos e um «conhecimento» superior em algumas matérias que bem poderiam ser um valor acrescentado na matéria social portuguesa.

Todos sabemos que esses indivíduos estão melhor preparados nas matérias que cursaram e exige-se-lhes que façam exames estapafúrdios para as respectivas equivalências. Um exemplo gritante, focado nas televisões, são os alunos desses países, do Ensino Básico e Secundário, que têm notas elevadas em quase todas as matérias e, pasme-se, notas elevadíssimas na disciplina de Língua Portuguesa.

E mais não digo.

do outro lado da fala

do outro lado da fala
a infância é um duende
na exploração dos pássaros.
caminha sub-reptícia
no segredo das árvores
acariciando ecos
suspensos como frutos
que vão caindo, ou perdem-se
no sabor da linguagem
feita literatura.
é aí que se revive
a cor das plantas íntimas
a sombra dos objectos
e até a ressonância
dos nomes que não moram
nos corpos que vestiram.
do outro lado da voz
a língua é um desejo
no halo de um sol de bruma.

josé félix



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domingo, dezembro 12, 2004


O meu veneno

Como este povo está contente! Em Fevereiro do ano de 2005, no dia 20, vão todos passear e votar naqueles que lhes vão mexer nos bolsos. Viva! Mais um Governo! Em 28 anos já houve 17. E na vizinha Espanha? Em 28 anos houve 4 Governos. Caminhamos de uma forma galopante para o sub-desenvolvimento. Este país é maravilhoso! Quanto mais triste, mais maravilhoso é. Viva o fado!

O país precisa é de fado. Cumpra-se a sina da desgraça. Se não for assim, como é que vamos dizer mal de todos e de toda a gente?

chopin e a morte de um país(1)

tenho a vertigem nos lábios
e o sabor da falésia na espera das mãos.
a virtude é uma folha branca
na tosse de chopin
no compasso da polonaise mentindo
o realismo no disfarce romântico do piano.

a morte de um país é mais que uma máscara
pendurada na parede
ao lado de uma flecha e um arco de recordações.

é a perseguição da sombra
uma pedra sem nome
e mesmo que uma tela abarque todos os disfarces
de um pintor escroque
ou um barco navegue todos os mares e rios,

a vertigem tem sempre a dupla visão
do espaço na tentativa da reconstruir
no outro lado da margem uma sabedoria nova
que limpe a água já que a palavra suicida
impossibilita a iluminação das veias.

nem chopin disfarçado de romântico
me tira os estiletes espetados no coração.

josé félix

(1) Também podia ser a morte de Portugal; apesar de viver em estertor, ainda não se prenuncia o acto final. O poema nasceu da leitura
de dois livros de José Eduardo Agualusa, escritor angolano, Estação das Chuvas e Nação Crioula, ambos de 1997


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sábado, dezembro 04, 2004

O meu veneno


A alegoria de S. Pedro

Pedro Santana Lopes disse que, dois dias antes do Presidente da República ter-lhe dito que iria iniciar o processo para a dissolussão da Assembleia da República, portanto Segunda-feira, perguntou três vezes e três vezes o Presidente da República lhe garantiu que não iria dissolver a Assembleia. Como S. Pedro em relação a Cristo, aquele negou três vezes que o tivesse visto. O Presidente terá negado três vezes o óbvio. Em política (arte de governar os povos) é um erro de palmatória. Só que, aqui, ficamos à espera da resposta do Sr. Presidente da República, que mais parece das bananas numa ilha qualquer do Pacífico, para sabermos se a alegoria serve ao Pedro ou ao Jorge.

O país era triste. O país está triste. O país continuará triste. E não há circo que lhe valha. A gargalhada cede o lugar à raiva escondida.

não denuncia a pedra o gesto(1)
nem as arestas de um cinzel
que se revela manifesto
nas linhas curvas de rebel.

na luz e na sombra outra pedra
já se insinua forte e lisa
no olhar cativo que não medra
no passo doído que se avisa

tropeça, cai, vem e anuncia
a pedra sobre a pedra na ânsia
de ver o movimento sombra

buscar a luz da voz perdida.
tudo tem que ter a medida
até o buril na pedra romba.

a pedra forte que não tomba
tem uma sombra de medida.

José Félix

(1) Xavier Zarco

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quinta-feira, dezembro 02, 2004

O meu veneno

Para o poeta Albano Martins

Colhe o fruto


Colhe o fruto, meu amor.
Amadurece os lábios na conversa
da manhã. Há sinais
de sol na boca
quando o aroma é fértil,
e o loendro
deixa sinais de chá
no corpo, o chão
de todos os inícios.


josé félix
inédito(02.12.2004

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quarta-feira, dezembro 01, 2004

O meu veneno

O Circo

O circo continua neste grande afiteatro que é Portugal. Há os Palhaços, os trapezistas, os animais e, sobretudo, os espectadores.
Ora bem! O Sr. Presidente da República vai dissolver a Assembleia da República, pois chegou à conclusão, tarde, mal e a más horas como soe dizer o povo, que o Governo não garante a estabilidade governativa e, ou, está ameaçado o normal funcionamento das instituições.
Como não voto em partido nenhum, dá-me a possibilidade de ter a distância necessária para assumir algumas posições de carácter político-social.
Quantos ministros do governo do Sr António Guterres se demitiram? Muitos. Aí, não deveria o Sr. Presidente da República ter dissolvido a Assembleia pelo carácter instável que o governo causava? Deixou passar demasido tempo para que isso acontecesse, e foi preciso o Primeiro-Ministro demitir-se das suas funções para que houvesse eleições antecipadas. Foi tarde! Foi tarde, também, agora, quando o deveria ter feito na saída do Sr Durão Barroso para o Parlamento Europeu.

Mas, o que mais me surpreende neste circo é quer o Sr. Presidente dissolve a Assembleia da República, portando, vai haver novas eleições, com novo Governo e novo Primeiro-Ministro, com novas políticas sociais, novas políticas económicas, novas políticas culturais. Porquê então aceitar o Orçamento de Estado para o ano de 2005, deste Governo, aprovado em Assembleia?
O Orçamento de Estado de um Governo contém as linhas fundamentais das políticas sectorias a desenvolver por um Governo. Para o bem e , ou, para o mal, não é correcto, de forma alguma aceitar um Orçamento de Estado de um Governo que sofre críticas de quase todos os espectadores deste grande circo. Era bem preferível que o novo Governo governasse com Um Orçamento aprovado pela nova maioria a conquistar em futuras eleições, mesmo que esse Orçamento fosse aprovado em Abril. É um delírio! É uma grande gargalhada!
E todos batem palmas aos palhaços, aos trapezistas, aos animais.



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