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segunda-feira, janeiro 10, 2005


O meu veneno

A morte espectáculo

Lamento profundamente que o maremoto tenha provocado tantos mortos na Ásia. Estes acontecimentos dizem bem da nossa pequenez perante acontecimentos desta natureza, da Natureza.

Lamento também que os mídia transformem a morte como um espectáculo a ser mostrado e publicitado até à exaustão. Quanto mais se fala na desgraça humana, mais ela é uma normalidade de que ninguém, com o passar do tempo, liga. Basta! Deixem as organizações vocacionadas para o efeito fazerem o seu trabalho, e bem, sejam elas médicas, das Nações Unidas ou da União Europeia.
Quinze dias a fazer da morte um espectáculo em todas as televisões é dose que a Autoridade para a Comunicação Social e os jornalisatas deviam pôr cobro.

Por aqui está toda a gente preocupada com um dia de mergulho de um ministro nas águas de S. Tomé e de uma juíza a querer saber porque é que o Sr Carlos Silvino se expressa da mesma forma quando quer transmitir o que se passou nas casas de Elvas e noutros locais: «forró bodó com sexo à mistura». A juíza não sabe o que isto quer dizer.

Este país é maravilhoso!

A sombra da morte

Não há mais nada para reflectir.
Depois da morte a capacidade de reflexão fica
reduzida à expressão máxima do silêncio.
É como uma flor morta sobre a campa
no cemitério de Albufeira.
Supõe-se que as plantas estão sempre com viço;
uma forma de prolongar a memória nas visitas
escassas conforme o tempo vai bebendo
o sangue nos carris.

Na mão direita o lápis faber número um, e uma
borracha mole, verde, na outra mão, compõem a sombra no rosto
de António Aleixo; servo de deus, crias um rosto igual
ao do livro da quarta classe, e por baixo
uma das quadras mais conhecidas do poeta.

Sonho-te com o engenho de furar metais, e outras ferramentas,
a coleccionar anilhas e parafusos que servem
para a utilidade nula da respiração.
Admiras como um jardineiro que poda as plantas
e ri com as flores raras e tardias de uma estação qualquer.

A reflexão sobre a sombra é o tamanho
do eco invisível,
a dor que se constrói entre um passo
e outro passo, até que o nome seja a luz
frágil da lareira em fim de conversa.

O cão ladra na cozinha e a tua voz
acaricia os pratos e os talheres.
A conversa flúi como um rio que se faz na chuva
e a doçura das frases fica agridoce
até que te substituis pelas imagens da televisão
com os mortos amontoados no Sri Lanka.

A morte é uma miragem da literatura.

José Félix
10.01.2005(inédito)




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