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segunda-feira, fevereiro 28, 2005


O meu veneno

Acabo de receber o nº19 da Revista 365.

É uma revista irreverente, de jovem claridade. Ironia e sarcasmo que bastam para manter acesa a leitura. Orgulho-me de pertencer a esta iniciativa com a publicação de alguns poemas na nº16.

Desde uma reportagem brutal de Eduardo Pinto à entrevista a Anabela Chalana, a mulher a quem aconteceu não sei o quê, passando pelo Manuel Venda e alguns autores estrangeiros, tudo vale a pena.

Leiam, basta contactar a Revista 365 e eles enviam-lhes os números que pretenderem.
Bem hajam!



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sábado, fevereiro 26, 2005


O meu veneno

Após as eleições do dia 20 já fui a alguns organismos do estado para tentar resolver alguns assuntos particulares com a urgência que se pede e de direito de um cidadão. Acontece que, invariavelmente, obtive a mesma resposta: - "Desculpe, mas os serviços estão praticamente parados em virtude das eleições legislativas, e porque o sr. director está à espera de ser substituído com a tomada de posse do novo governo".

Enquanto a cultura política deste país for esta, tanto faz quem tome o poder do estado. Sabendo-se que são os directores-gerais as cintas que prendem as engrenagens que fazem funcionar a máquina administrativa do país, só se compreende tal atitude com a distribuição de benesses aos correligionários de partido através do nepotismo.

Pois é! Só as moscas é que mudam.

reflexões sobre a morte

1.
perdi o nome
o rosto que lhe pertenceu.

nesse dia havia flores
e silêncio nos ciprestes.

2.
cai a folha velha de fuligem.
o sorriso é um contorno da sombra

na luz de um crepúsculo.

josé félix



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segunda-feira, fevereiro 21, 2005


O meu veneno

O problema dos políticos que ascendem ao governo do poder, é que procedem do mesmo modo como se estivessem em campanha eleitoral antes da colecta dos votos.
A prática tem sido de promessas quando devem desenvolver mecanismos em todos os sectores, para que a máquina administrativa não tenha colapsos quando há actos eleitorais.
A governação tem sido a extensão da atitude partidária para com quem está no poder. E isto, assim, é muito mau.


a fala

a vertigem nas mãos
desenha a morte
sobre o corpo que se adivinha frágil
na textura da sombra.

há caminhos
feitos de luz ignóbil que incendeiam
as margens alagadas
de outra sede.

e de leve há um rosto
que sai da úmbria
na convicção do gesto que revive

restos de ausência.
a fala, no outro lado,
é um eco de um sorriso brando e leve.

josé félix, inédito in "O outro lado da fala"



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segunda-feira, fevereiro 14, 2005


O meu veneno

O cidadão e a cidadania

O cidadão é o habitante da cidade. É aquele que está no gozo dos direitos civis e políticos num estado. Note-se que é dos direitos e não obrigações. A cidadania é a qualidade de cidadão.
Quando há eleições fala-se muito em cidadania, e direitos do cidadão. Há também algumas vozes, cada vez mais, que falam em obrigações. É aqui que a porca torce o rabo. Só há direitos, não há obrigações. Seria um crime contra o indivíduo obrigá-lo ao voto quando esse mesmo indivíduo não se revê em qualquer dos programas políticos dos partidos para ser governado por esses mesmos partidos. Como não sou obrigado ao voto, nem o devo ser, é um direito fundamental que me assiste, a negação do voto.

A palavra cidadão, conforme a conhecemos hoje, e a significamos, vem do tempo de Beaumarchais que em 1774 foi processado por um conselheiro de Paris e apelou à opinião pública na sua qualidade de «cidadão».

bucólica

as cabras trazem
o cheiro de montanhas impossíveis
e como numa história infantil
a mãe sossega a água na neblina.
vêm os pássaros, o canto
gregoriano detrás da muralha
e o desejo da sede
no poço do caminho.
há dias na pergunta dos murmúrios
que ficam presos na brisa das árvores.

josé félix



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quarta-feira, fevereiro 09, 2005


O meu veneno

Supõe-se que na altura da propaganda eleitoral a criatividade dos políticos e dos homens do «marketing» político venha ao topo. Ora, não sucede isso, e a campanha eleitoral, desde o partido mais pequeno ao partido maior, revela uma grande falta de humor, de carácter, de vigor democrático e, acima de tudo, respeito pela diferença do outro.
Portugal continua, a ser o paisinho que todos pensamos que é. Os cartazes não revelam qualquer apelo. Quando é uma boa hora para mostrar aos eleitores o Programa de Partido e as propostas, através dele, para arrumar a casa e tentar, digo, tentar, resolver os problemas estruturais deste terreno, o que fazem eles? Atacam-se pessoalmente, não discutem ideias, e todos tentam passar uma maensagem pela negativa.
A riqueza deste país está, precisaente, no tamanho da tacanhez que veste os nossos políticos e dirigentes.

Este ano ainda não há novodades literárias no campo da poesia. Ainda lá estão o Manuel Gusmão com Migrações de Fogo e Invisíveis Correntes de João Miguel Fernandes Jorge. Dizem que isto é um país de poetas, eu diria que é um pais de pu(e)tas.



no monte apagado
em sol eu descaio
trazendo pecado

Luiza Proença

se é fado e se é noite
o que o rosto cobre
e se descai sobre
o teu corpo o açoite
certamente foi-te
o desejo ougado
trazendo pecado.

se é tanta a paixão
que a noite te traz
gazela capaz
tu tens o condão
da nobre missão
deste fogo amado
trazendo pecado.

José Félix


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sábado, fevereiro 05, 2005


O meu veneno

Sem comentários!

O governo da Guiné-Bissau assinou um protocolo com o governo de Cuba para o desenvolvimento de um sistema para alfabetizar o país.

hoje não me apetece falar de poesia

hoje não me apetece falar de poesia,
já dei a minha contribuição à tertúlia
poética de Cacém: o modernismo e
a arte decadente. tentei vender o meu
peixe e explicar que a arte decadente
inserida na transição do romantismo
para o medernismo é, acima de tudo, uma
atmosfera psicológica que caracteriza
o último quartel do séulo dezanove,
numa tentativa de libertar a literatura
e a arte das convenções da moral burguesa.
– e não é assim, hoje? perguntaram-me.

como me aborrece, hoje, falar de poesia.
prefiro pensar na serenidade espreguiçada
no leito, nua, beijar-lhe o sexo exposto,
sentir o desejo subir até à cegueira da unidade
pretendida, quase sempre não conseguida.
e se não for para casa? talvez vá a um bar
e, com amigos de ocasião, falar de putas,
falar de outras coisas muito banais,
falar de outras coisas muito reais, de tudo,
menos falar das virtualidades das políticas;
das políticas sociais, das políticas educativas,
da política da justiça e da justiça dela, da política
da terceira idade, da exclusão social, dos
diminuidos físicos, dos pobres, dos loucos.
falar talvez dos jardins de infância,
dos olhos esbugalhados dos miúdos
em correrias infernais pelos recreios;
existências cheias de desejos perenes
– uma criança cheia de desejos é
sempre uma criança cheia de desejos,
seja ela de broklyn, serra leoa, beirute
jerusalém, liquiçá, lisboa, são paulo.

um dia pensei alimentar-me de poesia,
mas as palavras sangram-me na garganta
mesmo que venham enfeitadas de jasmins,
rosas, violetas, gerânios, boninas do campo.
ao princípio soltam-se-me as frases, depois,
passam a ser de circunstâncias travestidas
de boas intenções, em gestos perfeitos
de uma premeditação que me envenena.

vivo numa constante bulimia poética.
ah, como me enlouquecem as palavras.
bebo-as, umas sofregamente, outras,
como quem prova um vinho antigo
de sabores diversos, como se os anos
estivessem contados no código genético
de cada letra que compõe cada palavra,
que compõe cada frase, que compõe
cada texto, que compõe cada livro,
que compõe cada biblioteca, uma rede,
uma rede inteira de bibliotecas,
as palavras que compõem um país.

que me interessam os sonetos, as quintilhas,
as métricas decassilábicas, que me interessam.
que me interessam as rimas, as acentuações,
anáforas, paroxítonas, que me interessam.

em vez de ir para um bar arranjar amigos
de ocasião, em vez de falar de coisas muito banais,
em vez de falar de coisas muito reais, das políticas
de toda a espécie, vou é ficar por aqui e sentar-me
no banco de jardim, perto de minha casa
e esvaziar-me de sentidos até que uma voz
conhecida de uma eternidade, me chame:
– josé, vem para casa, amor, já é tarde,
ainda te constipas no sereno da noite.

josé félix

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