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sábado, fevereiro 05, 2005


O meu veneno

Sem comentários!

O governo da Guiné-Bissau assinou um protocolo com o governo de Cuba para o desenvolvimento de um sistema para alfabetizar o país.

hoje não me apetece falar de poesia

hoje não me apetece falar de poesia,
já dei a minha contribuição à tertúlia
poética de Cacém: o modernismo e
a arte decadente. tentei vender o meu
peixe e explicar que a arte decadente
inserida na transição do romantismo
para o medernismo é, acima de tudo, uma
atmosfera psicológica que caracteriza
o último quartel do séulo dezanove,
numa tentativa de libertar a literatura
e a arte das convenções da moral burguesa.
– e não é assim, hoje? perguntaram-me.

como me aborrece, hoje, falar de poesia.
prefiro pensar na serenidade espreguiçada
no leito, nua, beijar-lhe o sexo exposto,
sentir o desejo subir até à cegueira da unidade
pretendida, quase sempre não conseguida.
e se não for para casa? talvez vá a um bar
e, com amigos de ocasião, falar de putas,
falar de outras coisas muito banais,
falar de outras coisas muito reais, de tudo,
menos falar das virtualidades das políticas;
das políticas sociais, das políticas educativas,
da política da justiça e da justiça dela, da política
da terceira idade, da exclusão social, dos
diminuidos físicos, dos pobres, dos loucos.
falar talvez dos jardins de infância,
dos olhos esbugalhados dos miúdos
em correrias infernais pelos recreios;
existências cheias de desejos perenes
– uma criança cheia de desejos é
sempre uma criança cheia de desejos,
seja ela de broklyn, serra leoa, beirute
jerusalém, liquiçá, lisboa, são paulo.

um dia pensei alimentar-me de poesia,
mas as palavras sangram-me na garganta
mesmo que venham enfeitadas de jasmins,
rosas, violetas, gerânios, boninas do campo.
ao princípio soltam-se-me as frases, depois,
passam a ser de circunstâncias travestidas
de boas intenções, em gestos perfeitos
de uma premeditação que me envenena.

vivo numa constante bulimia poética.
ah, como me enlouquecem as palavras.
bebo-as, umas sofregamente, outras,
como quem prova um vinho antigo
de sabores diversos, como se os anos
estivessem contados no código genético
de cada letra que compõe cada palavra,
que compõe cada frase, que compõe
cada texto, que compõe cada livro,
que compõe cada biblioteca, uma rede,
uma rede inteira de bibliotecas,
as palavras que compõem um país.

que me interessam os sonetos, as quintilhas,
as métricas decassilábicas, que me interessam.
que me interessam as rimas, as acentuações,
anáforas, paroxítonas, que me interessam.

em vez de ir para um bar arranjar amigos
de ocasião, em vez de falar de coisas muito banais,
em vez de falar de coisas muito reais, das políticas
de toda a espécie, vou é ficar por aqui e sentar-me
no banco de jardim, perto de minha casa
e esvaziar-me de sentidos até que uma voz
conhecida de uma eternidade, me chame:
– josé, vem para casa, amor, já é tarde,
ainda te constipas no sereno da noite.

josé félix

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