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segunda-feira, abril 18, 2005


O meu veneno

Listas de discussão

As listas de discussão (do lat. discussiõne-, abalo, agitação; emoção; exame atento) [1], sejam elas de filisofia, psicologia, religião ou de literatura, poesia e outros textos, servem precisamente para que os membros dessas listas possam observar de vários ângulos o pensamento diverso dos autores.
Não concebo uma lista onde estão integradas várias pessoas com o comportamento literário diferente, que não seja para levar o leitor, e o leitor autor a perceberem a diversidade estilística e de sintaxe dos outros membros associados.

Se um texto é considerado literário, portanto, se tem uma dimensão estética, polissémica e que possibilite a criação de novas relações de sentido (a linguagem poética), por que não haver alguém que faça a respectiva análise crítica, segundo a conotação do leitor crítico?

Sucede que os autores, na maioria das vezes tecem um elogio à espera de outro elogio: asinus asinum fricat (o burro coça o burro). Esta atitude não produz qualquer efeito, a não ser uma cócega no próprio umbigo.

É urgente que os autores compreendam que uma análise feita aos seus textos não é, nem pode ser, considerada uma crítica negativa.

Muitos não têm o conhecimento e o saber necessários para entenderem qual é, o objecto da crítica: o texto ou o autor.
Entendamo-nos de uma vez por todas. O autor é sempre o pai do texto, mas este navega no pensamento do leitor que lhe confere um significado conotativo diferente, consoante a sua cultura, classe social e épocas diferentes.

o outro lado da fala
na miragem do silêncio o olhar
acaricia o limbo de uma folha
em perspectiva. um bailado cósmico
eleva-se nas asas de um cavalo;
palavras em retiro que procuram
a natureza de uma aragem lúcida,
a outra simplicidade que é a morte
sem eufemismo ou praxis dialéctica.
é no recurso escrito da matéria
e na memória lida entre os mil gestos
que a fala vive para além da boca.
prendem-se as vozes numa descendência
onde as raízes gémeas brotam troncos
de uma linguagem lúdica, liberta,
de forma permanente, da semente
deixada livre no húmus canónico.
do outro lado eco se consome em pedra
trazendo o início para a flor dos dedos.
josé félix, "O outro lado da fala"

[1] Machado, José Pedro Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Editorial Confluência, Lisboa1962



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terça-feira, abril 12, 2005


O meu veneno

Por dever profissional tenho folheado alguns jornais. É triste saber que se escreve pior em comparação com o que se escrevia há vinte anos ou mais. É certo que havia muito menos gente a saber ler e escrever. É certo que o ensino da língua portuguesa nunca esteve em tão péssimas mãos.

Com isto não estou a qualificar os professores da língua portuguesa. Eles são o que são e ensinam o que lhes foi incutido. Os alunos não sabem a gramática e, já ouvi e li discussões nesse sentido, até já se discute qual é a importância de saber a Gramática no ensino da língua portuguesa.

A Gramática é a lei fundamental de qualquer língua. Não a sabendo não se fala correctamente uma língua, seja ela qual for.

Os jornais mostram, cada vez mais, imprecisões de linguagem; a não aplicação correcta de palavras fundamentais para a compreensão de um texto de comunicação, informação e formação.



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domingo, abril 10, 2005


O meu veneno

para além das notas do piano
sílvia chueire

tem a morte nas mãos
como sendo uma brincadeira de água
a deslizar-lhe pelos dedos.

o olhar antigo
sorri longínquo, sem sol, sem a sombra
da árvore corroída

na pele envelhecida, na travessa
de passos, de caminhos acendidos
com tanta luz que cega o sonho, a aurora;
primeira sílaba,

primeira música.
já traz a morte, o espelho adolescente
que ele transporta a vida inteira;
as notas do piano dissonantes

josé félix


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terça-feira, abril 05, 2005


O meu veneno

Há homens importantes que nos merecem o maior respeito. Há homens cuja importância advém de cometerem atitudes que vão contra a natureza humana, subvertendo-a a tal ponto que conseguem a reverência e o tributo da canalha.

A morte é a coisa mais natural do percurso da vida. Dê-se-lhe a importância devida seja em que circunstãncia for.É durante a vida que devemos preparar-nos para a morte, ou seja, estarmos sempre preparados para a ela. Além disso, devemos respeitar a cultura dos povos que se manifestam de modo diferente perante a morte.

George Duby, em "Guilherme o Conquistador" explica-nos de forma sublime a atitude perante a morte, de um senhor feudal, Guilherme, no século XII. Se não há uma inevitabilidade acidental devemos preparar-nos para que o grito final não seja tão doloroso para o próprio nem para os que o rodeiam.

Isto vem a propósito da morte do Papa João Paulo II que, certamente, não quereria que se cometessem excessos de exéquias. Os mass maedia, em minha opinião, terão extravasado alguns limites da decência noticiosa. É claro que o Papa quis tornar o processo da morte, a degenerescência da sua vida, o mais humanamente possível. Também quis dizer ao mundo que ele era um ser humano igual aos outros e com direito ao sofrimento como toda a gente. Fazer como Guilherme, O Conquistador, no século XI, com a festa da morte antes do processo final seria o mais correcto. Prolongar por cerca de sete dias as exéquias fúnebres só traz consequências, manifestamente, negativas para os não crentes, e preincipalmente para os crentes. Deixa de ser uma atitude natural e passa a ser uma atitude mórbida.
Disse.

nomeiam-se os objectos da jornada (1)
e no caminho do primeiro sol
lúdica, ténue, lábil no crisol
o corpo ajoelha a água na alquimia

da madrugada tida à fantasia.
solene e doce nomeia o murmúrio
de um passo grave tido por augúrio
adivinhando a morte anunciada

de grácil juventude que deténs,
fazendo o pensamento de reféns
desejos, castos nas primeiras dores.

é fácil ter-te assim na plenitude,
se reparares que a nobre atitude
te vai acompanhar quando fores.

tenho-te sempre seiva até morreres.

josé félix
04.04.2005


(1) Xavier Zarco


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