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domingo, maio 29, 2005


O meu veneno

Vou viajando pela blogosfera e entretenho-me com a leitura de alguma prosa, muita poesia, acompanhada de imagens ou não, e textos mais ou menos confessionais, utilizando uns a técnica de mensagens SMS, outros escrevinhando pedaços amorfos de texto sobre tudo e nada, limitando-se a debitar palavras sem sentido, vómitos a prenunciar doença bipolar, cujos autores necessitam da urgência de tratamento clínico.

É claro que não sou contra. Como obedeço ao direito de falar sobre aquilo que os outros escrevem, também não me oponho à crítica saudável dos meus textos.

No princípio os blogues são os diários digitais de adolescências adormecidas acobertadas pelos «nicks», pseudónimos, e outras máscaras dissuasoras daquilo que é a marca de identidade, civil, de um ser humano: o nome.

Ora, após dois anos de intensa actividade dos blogues, e idos que são os primeiros caminhos na Rede, confesso que nada mudou, por um lado, no objecto virtual, que denominamos blogue, acrescentando, por outro lado, mais máscaras à actividade da blogosfera.
Não só continua a haver autores de blogues que não «dão a cara», como os utilizadores/ navegadores/leitores, na sua grande maioria, utilizam a máscara dos «nicks», dos pseudónimos e abreviaturas para se escusarem a ter um comportamento mais correcto perante o outro.

É verdade, também, que a maior parte dos blogues de qualidade estão devidamente identificados. O que se espera, o que eu espero dos meus leitores, é que cada um se identifique, devidamente, para não criar qualquer tipo de contradição e o blogue não se torne res nullius(1), porque, assim, com tantas máscaras, não pertencerá a ninguém.

curva a tarde

curva a tarde
no colo libertino.
o corpo dos afectos eterniza
a luminosidade de um olhar
que se esconde na sombra das palavras,
em descanso, nos lábios de silêncio.

na ruga de um sorriso
comparece
um gesto feminino à procura
das mãos de uma criança descoberta.

há no desprendimento concebido
um sol de lírios no jardim de oferta.

José Félix
(1) coisa nenhuma


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quinta-feira, maio 26, 2005


O meu veneno

Leituras

Foi dito que em 2005 se lê mais do que em 2004. Foi constatado pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, A.P.E.L., e até a ministra da Cultura tem uma visão optimista sobre os hábitos de leitura dos portugueses. Um estudo concluiu que as mulheres lêem mais do que os homens.
Até aqui, tudo bem. O que o estudo não revela é a qualidade da leitura dos inquiridos. E, por aquilo que me é dado perceber, e concluir, é que a leitura dos portugueses, em geral, é muito má.
Desde os primeiros dias de escola até à universidade, os alunos lêem, principalmente, e mal, os livros escolares e técnicos, poucos indo para além dos livros estabelecidos para estudo. O nível com que os futuros educadores acabam a faculdade e as pós-graduações em Educação, reflecte-se, também, na fraca qualidade do ensino. Há, evidentemente, outros factores que fazem com que a educação académica tenha um nível baixo, a denunciar a alta taxa de abandono escolar, sendo das mais latas da União Europeia.

Não é, seguramente, cortando autores como Gil Vicente, Luís de Camões que se altera o estado de coisas. Em França, estuda-se Victor Hugo no 7º ano de escolaridade. E em Portugal?

a erva daninha

a erva daninha. danosa e perfeita na ocupação do espaço.
solitária e precisa na avidez das flores.
o vento embala toda a palavra acrescentada, as plantas
grávidas, toda a erva, toda a substância permitida.
a erva que bebe da sua própria flor no suicídio das estações.
sozinha, a erva daninha de si, sem espelhos multiplicadores,
contempla a obra e torna visível uma papoila rubra
na angústia do crepúsculo.

Félix, José Quatro Poetas da Net, Edições Sete Sílabas, Lisboa, 2002



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terça-feira, maio 24, 2005


O meu veneno

De repente, caros leitores, descobriu-se, perdão, redescobriu-se o remédio para atacar o défice; ir, ou continuar a ir, aos bolsos vazios da classe média entorpecida e envenenada pelos votos dados nas últimas eleições para o parlamento. Eu, que não voto, proudhomiano convicto, também sinto que mexem no cotão das algibeiras porque, além daquele lixo inevitável ganho pelo tempo, não há mais nada.
É preciso atacar o défice? Vai-se aos bolsos dos pobres. É preciso resolver o problema da desorçamentação do Estado? Vai-se aos bolsos dos pobres, retirando verbas à Saúde, à Educação, à Segurança Social, e aumentando os anos de contribuição ao Estado e a idade para a reforma.

Não se faz a colecta dos impostos atrasados dos clubes de futebol. Não se faz a colecta da taxa para a Segurança Social às empresas devedoras. Não se ataca a fraude fiscal. Não se ataca a economia paralela.

Fácil é ir ao bolso de quem não foge aos impostos.

E continua tudo na mesma, porque este país é um país de burros e de sacanas.


não herdei da pedra
a prontidão do silêncio(1)
apesar da fala ecoar
nas veredas e na ramagem das árvores.

tenho um silêncio de fogo
a centelha nos lábios
os olhos perdoados
em gestos da infância.

da pedra silenciada
crepita a cripta
com que guio a voz
do sonho possível.

também os morcegos
cegos na gruta da noite
voam sombras que se
agarram na parede.

josé félix

(1) mario cezar



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quarta-feira, maio 18, 2005


O meu veneno

Traumas

Ontem foi publicada a lista dos professores que concorreram a um lugar para o próximo ano lectivo. Ficaram de fora cerca de 20.000 professores cujo preenchimento do formulário electrónico chegou à base de dados com erros, quer cometidos pelos professores, quer devido a erros de interpretação, análise e falta de atenção dos funcionários na verificação do questionário.

Uma professora ao ser entrevistada pela repórter da RTP disse que o ano passado tinha sido de um traumatismo de tal ordem...

Bem, eu espero que a senhora professora que utilizou a palavra traumatismo não tenha, de facto, partido alguma perna, um braço devido à escrita ou a cabeça, de tanto pensar. Espero, também, do mal o menos, que a senhora professora não ensine a língua portuguesa.

É preciso ter cuidado com a utilização da língua que falamos. E fica mal, mesmo mal, que um professor utilize tal termo quando, seguramente, queria dizer outra coisa.

de passagem

nota bem o sabor da tarde urdida
a leveza da pena nesta página
solta na marinhagem dos sentidos
o caminho das pétalas colhidas

o balanço das árvores ardidas
o incêndio fogueado da memória
as palavras nos lábios sem medida
tolhidas comprimidas sem história

uma abelha suga o sexo das flores
doce serenidade tão completa
que uma simples palavra na pronúncia
do vento escapa lúcida pacífica.

josé félix



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terça-feira, maio 17, 2005


O meu veneno

O défice

O Primeiro-ministro disse, após a visita do Governador do Banco de Portugal ao Presidente da República, que, afinal, o problema do défice era mais grave do que pensava. É ridículo! Então o Primeiro-ministro, que antes foi candidato, e como candidato e representante máximo de um partido político deve estar bem informado acerca dos assuntos graves que afectam o país, não sabia que o défice e a questão orçamental eram graves? Só resta uma solução: sair do Governo, ir estudar os assuntos prementes que afectam os portugueses e regressar com a matéria estudada.
Noto que esta última «leva» de políticos, que tem governado esta casa, estudou pelos mesmos livros; demissão das responsabilidades – a culpa é sempre do outro -, e no fim da legislatura os problemas estruturais ficam sempre por resolver. Foi assim com Durão, será assim com Sócrates.

Parece aquele anúncio que está ao pé de minha casa, num posto de sacos para cães: "Vamos cortar o mal pela raiz. Utilize o saco para colocar os dejectos do seu cão". Só que no posto de sacos para cães não há um único saco. É assim que funciona este páis.

íngua de exílio

a língua prende-se à ancora
ao leme da superstição perdida
a língua prende-se à enxárcia ao cordame
às velas ao porão do sal da aventura

a língua rompe a água
a saliva na maré viva ancorada
fértil revolta no sexo das pedras
náufragas rútilas.

não se corrompe a língua no liame
da gávea na viagem
nem na navegação profunda.

há língua e corpo na míngua da ilha
a força da laje
o cruzamento dos ramos.

a língua íngua de exílio.

josé félix



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domingo, maio 15, 2005


O meu veneno

Hospitais

Na noite passada tive um «problema do coração». Não! Não foi um desgosto de amor. Foi mesmo um problema de descontrolo cardíaco: ora taquicárdico ora baquicárdico. Chamei o INEM a casa e devo dizer com toda a propriedade que a assistência não podia ter sido melhor. A médica e os paramédicos foram todos muito simpáticos. Fizeram o trabalho técnico que é feito em circunstâncias semelhantes. Depois levaram-me numa auto-maca para o Hospital Amadaora-Sintra.
Também aí fui atendido com a presteza que a situação exigia, desde a triagem até ao S.O., Serviço de Observação, onde me ministraram a droga necessária para regular o batimento caríaco e baixar a pressão arterial.

O que não se compreende é que o acompanhante do doente tenha que transportar a marquesa de um lado para o outro, desde a sala onde fazem os electro-cardiogramas, à sala de espera, à sala de consultas, passando pelo meio de outros doentes, batendo nas macas de uns e de outros, porque não estão habituados a tal serviço e, ainda por cima, receber desaforo, de médicos, enfermeiros e auxiliares, por não terem tirado uma carta de condução hospitalar.

Ironia à parte, se for assim em todos os hospitais, sejam E.P. ou S.A. é uma forma ridícula de poupar dinheiro, pois só um doente «profissional» e que se faça acompanhar pela mesma pessoa estará habilitada a proceder com as normas vigentes nas unidades de saúde.

uma possibilidade

há uma possibilidade
de reter o equilíbrio
no limbo de uma folha seca
peneirando o tempo na lucidez
da queda

não há destino
e as moiras só obedecem
ao sopro que vai com as harpias;
fêmeas dóceis ou abutres
que contaminam o pão.

José Félix fácil é o movimento das folhas



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sábado, maio 14, 2005


O meu veneno

Há dias, sobre uma notícia da Portucale, o tal problema do abate de sobreiros, apareceu uma notícia nas televisões em que foi utilizado um verbo desconhecido: homolgar.
Reincidiu-se na notícia e no erro, e ninguém respondeu a uma mensagem enviada à RTP a denunciar o facto. Ou seja, é melhor escapar devagarinho para não se notarem as falhas.

Também o facto de não se falar sobre o déficit não quer dizer que não exista o problema. Ele é bem real e continua aí a galopar para cima com toda a força.
É o método do entorpecente já utilizado pelo governo Guterres: não se fala no problema, logo ele não existe.

É a vida à portuguesa: fugir, fugir, fugir sempre dos problemas. Quando não se pode fugir deles, ignoram-se, pura e simplesmente.

a palavra transumante

conciliei-me com deus.
o movimento fácil dos lábios
procurou-me um verso
na palavra transumante.
passeei-me na fragilidade da flor
e deixei-me ir transeunte
no eco da coisa possível

félix, josé fácil é o movimento das folhas



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quarta-feira, maio 04, 2005


O meu veneno

O José Alexandre Ramos autor do blogue Que Farei quando tudo arde? foi contaminado pela doença diarística e mantém um espaço de qualidade como já o vinha fazendo em Alternância, onde muitos dos poetas bons e que escrevem na Rede mantinham um diálogo constante com aquele espaço Publicou muitos dos trabalhos como, por exemplo, do falecido no dia 29 de Março deste ano, José António Gonçalves, que foi Presidente da Associação Madeirense de Escritores e membro da Direcção da Associação Portuguesa de Escritores, e muitos outros cujos nomes já começam, também, a despontar em papel.

O José Ramos enviou-me 5 (cinco) questões para responder e fazê-las circular por mais três amisgos. Aí vão as respostas.

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Não podendo sair do Farenheit 451, que livro quererias ser?

Pelo realismo, humor, e pelo jogo de espelhos que induz com o leitor, Memória das minhas putas tristes de Gabriel Garcia Marquez, que nos ensina que se pode morrer de amor e não de velhice. Uma lição

.

Já alguma vez ficaste apanhadinho por uma personagem de ficção?

Já fiquei, e de que maneira! Aliás, é comum ficar apanhadinho pelas personagens que crio nos poemas. Quando escrevo estou dentro e fora da escrita, ao mesmo tempo; talvez seja isso a dor da escrita que explica, e muito bem, a Autopsicografia de Fernando Pessoa. Como leio com paixão, a última personagem que me apanhou, talvez porque já passei há alguns anos o meio século de vida, foi a personagem do livro de Gabriel Garcia Marquez, Memória das minhas putas tristes, por ser um verdadeira reflexão sobre a velhice e a alegria da paixão.



Qual foi o último livro que compraste?

Dois livros e não um: Oracle Night de Paul Auster, em inglês – gosto de ler no original, sempre que me é possível e ser menos dispendioso -, e a Estrada Branca de José Tolentino Mendonça.



Que livros estás a ler?

Estrda Branca de José Tolentino de Mendonça. É um poeta que me surpreende, sempre, a cada livro, coisa rara em poesia, nos dias de hoje. Uma linguagem depurada, uma boa utilização das metáforas e revelador de um grande conhecimento.



Que livros(5) levarias para uma ilha deserta?

Levaria, seguramente, muitos e não 5 somente. Diário de um Louco, de Nicolau Gogol,

A Filha do Capitão de Aleksandr Puchkine, que é uma justificação da luta armada, Os Lusíadas de Luís de Camões, Poesia I, II e III de Jorge de Sena. Há um livro que, confesso, sem relutância, não levaria: o Kamassutra.



A quem vais passar este testemunho (3 pessoas) e porquê?

Sei que é por uma boa causa, apesar destas questões estarem a ser veiculadas à velocidade dos blogues, esta recém mania da escrita diarística onde é permitido quase tudo, até dizermos os maiores disparates. Sendo assim, vou enviar para o Jorge Vicente, autor do blogue amoralva, e poeta de qualidade, à Maria Gomes outra recém chegada à Teia através de A Romã de Vidro e poeta de rara sensibilidade. Não me esqueço, claro, do Constantino Alves e do seu blogue Diário Poético.





fácil é o movimento das folhas.
o olhar prolonga a imagem
na subversão dos sentidos.
é possível ver deus no desenho do vento?

Félix, José fácil é o movimento das folhas
inédito


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segunda-feira, maio 02, 2005


O meu veneno

Os desejos são sombras ou relâmpagos que aparecem na folhagem. Hoje, um dia triste como são tristes os dias na clausura de um país de sacanas, e de burros, não me apetece dizer mais nada que não seja um poema. E assim, vou construindo uma espécie de diarística bloguista - passe o neologismo - neste inferno ou paraíso que é a Rede.

a invenção de um desejo


vivo à sombra da sombra desta casa
no oposto da soleira no crepúsculo
dos dias inclinados nas colinas.

tenho uma vista para o mar imenso
acordo cada dia prolongando
o olhar na folha de água soltas vagas

a embalar os navios carregados
de tormenta cristã resignação
a inventar um cais cartas desenhadas

movimentos nas sombras descobertas
no amor apetecido às vezes simples
gestos a sussurrar as confidências

nos olhares cruzados de sorrisos.
cego ao sol na laranja do horizonte
um quadro surrealista se desfaz

na noite comprimida de silêncios
confidentes no sabor das palavras
acres a substanciar os frutos frios.

poisa a brisa nos lábios humidados
e à esquina da casa aquecida
cheiro a madeira acesa que fumega

com sentido a marcar o tempo feito
de promessas rompidas a desoras.
cicios são os sonhos acendidos

nos dedos sobre a terra a aquilatar
a textura geométrica dos grãos
na composição do poema cativo

a dez sílabas métricas medidas
não cativas da vã filosofia
porque a casa que cai no precipício

das águas é a pátria construída
de memórias difusas e na sombra
do incêndio de um sorriso de distância

o sinal de um relâmpago de fogo
traz o som sincopado da savana
enluarada de matizes raros.

desenlaça a palavra. corta a lâmina
sopros de vento antigo no suicídio
de espelhos murmurantes os segredos

acoitados no sexo dos rochedos
a engravidar as pedras no desejo
de uma outra pátria nova reinventada.

Félix, José Fácil é o Movimento das Folhas



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