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quinta-feira, junho 30, 2005

O meu veneno

Reaccionário –uma questão de semântica
Transcrevo da página Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

No que respeita a reaccionário, não me parece que seja verdade que «todos pensem que significa uma coisa, mas afinal quer dizer precisamente o contrário».
As pessoas cultas não pensam assim, porque sabem que os dicionários ensinam que o vocábulo reaccionário significa o seguinte:
a) É aquele que defende um sistema político contrário ao progresso ou à mudança social, resistindo às tendências revolucionárias.
b) É aquele que revela uma posição conservadora.
c) É o defensor de um sistema político contrário aos avanços e transformações sociais, resistindo às tendências revolucionárias.
d) É o indivíduo antiliberal.
É claro que há pessoas que pensam outra coisa acerca do que seja um reaccionário. E a que se deve isto? Deve-se à falta de cultura. É nesta falta que está a origem de se enganarem acerca do significado de reaccionário.

Reaccionário vem do francês reaccionnaire. Faltou dizer.

A palavra reaccionário foi inventada pela esquerda francesa para designar todos aqueles que resistiam às tendências revolucionárias de esquerda. Ponto final.
A explicação do Ciberdúvidas vai buscar alguns significados aos dicionários (e os dicionários são feitos por homens que não são detentores da Verdade, porque ela não existe, simplesmente) e que enferma, portanto, de uma contradição. Se ser reaccionário é ser contrário ao progresso ou à mudança social, porque será um antiliberal? Contrário aos avanços e transformações sociais? O que se terá passado na ex União Soviética e naqueles países todos de Leste com um atraso de mais de 60 anos?
E os países governados por Partidos Comunistas, com mão de ferro, que impediram o livre arbítrio, até de consciência, de muitos intelectuais mortos pelas mãos das polícias políticas, esvaziando as respectivas sociedades de intelecto capaz de originar um avanço nas mudanças sociais? Não terão sido reaccionários os intelectuais e homens que não comungavam das ideias estadistas, corporativistas das cooperativas kolkhozianas enquanto os grandes do Partido viviam em «dachas» no campo ou na praia? Isto, por um lado.

Por outro lado, na época da ditadura criminosa de Pinochet, que governou a ferro e fogo o Chile, não terão sido reaccionários os homens de esquerda que pretendiam acabar com a ditadura e se manifestavam nas ruas, como as mulheres de Maio? Não terão sido os homens e mulheres que se manifestaram na Argentina contra a ditadura do general Videla?

As ditaduras do proletariado, de Esquerda, e as ditaduras liberais, de Direita, não foram todas conservadoras?

Meus caros, reaccionário é todo aquele que reage a uma situação vigente e da qual discorda por questões ideológicas, sejam de Esquerda, sejam de Direita.


Ainda sobre a aplicação da palavra reaccionário consulte-se Blogue de Esquerda,

Pensar de forma diferente do que seja o significado actual da palavra reaccionário deve-se à falta de cultura? À falta de cultura? Ou deve-se precisamente porque a tem? Não será reaccionário aquele que quer impôr uma ideia aos outros, não deixando que aqueloutro tenha uma ideia própria?

A cultura democrática permite todas as reacções.

Prefiro Kultur: “a Kultur burguesa de Werther expressa-se na ênfase ao sentimento nas realizações artísticas, na busca da autenticidade de espírito, na valorização do mérito individual em realizações intelectuais-científicas e no advento de um senso de amabilidade pelas coisas, gestos e pessoas simples, associando-se a estas as virtudes da franqueza, autenticidade, sinceridade.” (1)


(1) No Livro de Wolfgang Goethe(1749-1832), “Os Sofrimentos do Jovem Werther”(1774)


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quarta-feira, junho 29, 2005

O meu veneno


amoras Posted by Hello

o sabor da amora

não sei de que silêncios
me falam as manhãs
descobertas na lura
de todos os exílios.

não sei quais os segredos
se escondem e cativos
nos rios, e das árvores
submersas na memória

não sei nomes nem frutos;
são as sombras e os limbos
que vão rasgando a pele
na mancha das desoras.

não sei de que torrentes
quero agarrar a água
que se planta nas margens
à beira de uma sede.

não sei de que relâmpagos
se retira a centelha
a cor, a luz, o fogo
com que se queima a dor.

não sei de tudo isto
nem de como sentir
mesmo que seja frágil,
o sabor de uma amora.

josé félix
2005.06.29

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terça-feira, junho 28, 2005

O meu veneno



Sé Velha - Silves Posted by Hello

minarete

em Silves vejo o meu amor.
as amendoeiras
vestem-se de branco-rosa
e o almuadem anuncia
com o muezin
a passagem do vento em flor.

os olhos azeitona
trazem o vinho no meu coração
e em bebedeiras de azul
vejo-te gazela
pulando entre as gavelas
a alegria do campo.

ó os deuses são tão pródigos.
o linho descobre-te
e anuncia o prato das delícias.

josé félix

in A Palavra Ardente



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domingo, junho 26, 2005

O meu veneno

travadinha (1)

as carícias das árvores no corpo
dançam mornas e dançam coladeras
na rabeca de travadinha.

há um conciliábulo de faunos
inventando desejos na harmonia
do vento, e com a água adormeço
nas casuarinas.

vejo os pássaros impossíveis
brincando no halo de sol
e a manhã presa nas ramadas
espreguiçando-se na margem do rio.

toda a música me pertence
na invenção da voz.

josé félix

(1) António Vicente Lopes, proveniente de uma família humilde, faleceu em 1987, foi um dos maiores tocadores de rabeca de Cabo Verde. Nascido de uma família de músicos ( o pai era violinista e seus sete irmãos tocavam violão) os brinquedos de Travadinha foram os instrumentos musicais que encontrava pela casa, apesar do pai o proibir, aos nove anos já animava bailes locais com a rabeca.Teve de esperar até aos 40 anos para se tornar amplamente conhecido, depois de ter dado uma série de espectaculos em Portugal...Profundamente enraizado na tradição, as suas interpretações desenvolvem-se de um modo original, reiventando sempre cada frase.mais ou menos isto escreveu João Freire, em Novembro de 1992 acerca desse grande talento ilhéu.

Informação cedida pela poetisa Maria Gomes que esteve presente na II Bienal de Poesia de Silves, em 2005


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O meu veneno

Há um ano manifestei-me aqui acerca das manifestações de homossexuais e lésbicas por esse mundo fora, e até escrevi que a comunidade "gay" de New York pretendia criar uma escola que fosse frequentada por meninos filhos ou filhos adoptados por homossexuais e lésbicas. Não escrevo, propositadamente, casais, porque não o são de facto. Se alguém tiver dúvida consulte um bom dicionário para saber o que quer dizer a palavra casal: marido e mulher, par. E não me venham com a evolução semântica. O que pretende a comunidade de homossexuais e lésbicas é uma distorção da palavra casal. Chame-se-lhe união, mas casal, não! De todo!

Ora, se a comunidade de homossexuais e lésbicas quer os mesmos direitos que os outros, os heterossexuais, só lhes restam cumprir com as leis do Estado.

E ser igual aos outros é não manifestarem-se da forma exuberante como se manifestam, sem o "folclore" mediático para alimentar a sede dos mass maedia que, por causa das audiências, ampliam a notícia como se estivéssemos a ver um ponto com uma lupa de grande resolução.

Cada um pode e tem a "orientação sexual" que quiser. Que ninguém se manifeste contra os homossexuais e as lésbicas, e que os homossexuais e as lésbicas não se manifestem contra os outros.

Conclusão: casal é um homem e uma mulher, um macaco e uma macaca, uma formiga macho e uma formiga fêmea, um pardal e uma pardoca ou pardaleja. O objectivo da nossa existência, biologicamente, é para nos reproduzirmos e termos prazer e gozo com o sexo. Há aqueles que só querem ter gozo e prazer. Respeitemo-los. Não queiram é desvirtuar o sistema e querer ter filhos com o trabalho dos outros. (Há bissexuais que me merecem o mesmo respeito, mas isso será para uma nova ocasião)

Tenho amigos que são homossexuais e amigas que são lésbicas que comungam, precisamente, daquilo que afirmo aqui.

Não venham com homofobias e ultra-conservadorismo.


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quarta-feira, junho 22, 2005

O meu veneno

É de memória que vivemos. É de memória que desejamos. É de memória que sofremos. É de memória que escrevemos.

A memória é a mais importante base de dados que nós temos, e onde vamos buscar, por associação ou não, aquilo que nos conduz para viver ou morrer.

a água matutina

nua, a minha mãe
brinca no meu cabelo
a água matutina.

um riso sobre o ombro
alegra a minha chuva
enquanto aliso o pêlo

do gato preto e branco
que mia, e lambe os pés,
as mãos pequeninas.

no telhado de zinco
o tempo vai caindo
p'ra dentro das goteiras.

josé félix
22.06.2005


obs: eugénio de andrade disse muitas vezes que a poesia é a emoção da infância. in memoriam dedico-lhe este poema, e àqueles que têm da poesia, também, o sentido lúdico, de um ofício sincero e verdadeiro.

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terça-feira, junho 21, 2005

O meu veneno

O país continua deprimido. Insatisfeito. Triste. A maioria absoluta do Partido Socialista começa a ficar menos absoluta e cada vez mais mínima.
Não chove. Há incêndios. Há explicações do ministro da Administração Interna(?); há explicações do ministro da Saúde. Há 224.000 operações em espera nos hospitais portugueses.

A União Europeia é cada vez menos uma União. Todos querem entrar para ela com a certeza de sair. Pertenceram!...

No Brasil o povo gosta cada vez menos do Lula. Os homens de confiança do Presidente demitem-se.

O petróleo ronda o preço de 60 dólares. A Harley Davidson está na Rússia.

Os ricos riem-se. Os pobres já não choram.

a liturgia dos dias

não me disseram que os arbustos falam
a linguagem dos gnomos e
que os pássaros desenham, de manhã
sons rondeando as pedras em silêncio.

tudo isso soube-lo quando a voz de meu pai
voltou a ser o sacrilégio da casa.

na viagem interrompida caminha
sobre a mobília, na leveza do pó
e nas paredes com fotografias
onde a ausência é um missório
no discurso religioso do tempo.

é nos gestos mais simples dos meus próprios
gestos, que a presença ausente
se poliniza na liturgia dos dias.

a palavra, essa, corrompendo a fé
desliza breve nos ouvidos secos
quando apetece a comunhão
no pecado lavado de confidências.

os duendes, no seu labor, cativam
relíquias suspensas da hera
que abandona as raízes como hóstias
no conforto dos crentes.

josé félix in a casa submersa


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sexta-feira, junho 17, 2005

O meu veneno

Una salus victis, nullam sperare salutem(1)

A decisão já era a esperada. Não houve surpresa nem inteligência no desfecho acerca da ratificação do Tratado ou Constituição (agora chama-se-lhe Tratado da Constituição).

Não há salvação possível para o que começou mal. Muito mal. É o que se chama colocar o «carro à frente dos bois». Os povos dos respectivos paises deviam ter sido consultados nos artigos mais controversos antes de criarem um texto para ser ratificado no todo. Ora, aí está a conclusão e o problema criado com os NÃO dos franceses e holandeses. O amálgama de tecido cultural, político, sócioeconómico que é a velha Europa não vai permitir que se avance muito mais do que já está. Pontualmente criar-se-ão alguns frutos para resolver problemas, também pontuais. Na Europa dos 25 há 6 países a dar dinheiro e os restantes a receber. Pode? Há o caso específico da Grã Bretanha; há o caso específico de Portugal; há o caso específico da Grécia. Todos os paises que compoem a União Europeia têm especificidades que não quererão ver desvirtuadas por uma lei estranha, se bem que comum a todos os paises inerentes.

Já terminou o estado-nação. O que quererão que mais termine?

(1) Alusão ao verso de Virgílio (Eneida, II, 354); última exortação de Eneias a seus companheiros de armas por ocasião da tomada de Tróia, ao procurar despertar neles a coragem do desespero: una salus victis, nullam sperare salutem: Única salvação para os vencidos: não esperar salvação alguma.

Heth

Jerusalém despida,
a prostituta que serve e suspira,

é desprezada pelos que a honraram
com as mãos lúbricas
e públicas carícias.

Abre as coxas cidade instável!
Que o aloendro arome e o mel escorra
em todos os que te tocam.

Jacob Kruz


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quarta-feira, junho 15, 2005

O meu veneno

Há dois dias deixei aqui a minha homenagem a dois poetas portugueses.

Hoje não venho prestar qualquer tipo de homenagem aos dois políticos que faleceram, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal. Porquê? Perguntareis vós. Simplesmente porque não reconheço, àqueles e a qualquer um, o direito que me assiste de não render preito aos que foram o contrário daquilo que lhes chamam depois de mortos: homens-bons. Apesar disso tenho algumas considerações a tecer acerca do velório do Sr. Álvaro Cunhal.

Lá apareceram os amigos, os inimigos, os adversários, e até aqueles que nunca lhe foram nada, para aparecerem nos ecrãs de televisão, nas rádios, nos jornais.
Antes houve discursos: o Secretário-Geral do PCP disse que o Álvaro Cunhal ficava na «memória do coração», se alguém sabe o que isso significa. O Primeiro-ministro numa entrevista de vinte segundos referiu-se a Álvaro Cunhal, por 4 ou 5 vezes, como uma «figura». Também ninguém, parece-me, terá entendido o que ele pretendeu, chamando-lhe «figura».

Resta anunciar a lucidez de Eusébio. Entrou, e saiu como entrou: em silêncio. Resta anunciar a lucidez de José Saramago ao falar de três homens que morreram no espaço de tempo de três dias.

Há tanta claridade que cega as pessoas!



A água do ribeiro
(em homenagem ao meu amigo Aníbal Beça)

Um kazen Renga tradicional

Início: 10-06-2005
Fim : 14-06-2005

Escrito por: José Félix

1.
Estalam as pinhas -
há foguetes, romaria
à entrada da aldeia.

já saltam os gafanhotos
no meio do capinzal.

2.
Um grande alvoroço
entre a folhagem dos plátanos -
o dia escurece.

os pirilampos voejam
à volta da romãzeira.

3.
Noite enluarada -
uma sombra de pardais
voa com as folhas secas.

na casca grossa da árvore
ainda resiste a cigarra.

4.
A flor amarela
é do chá de São Roberto -
o estômago flato.

sobre a mesa de pinheiro
há duas rosas vermelhas.

5.
Gota a gota cai
das mãos para as outras mãos
a água do ribeiro.


um casal de corvos de água
brinca na erva salpicada.

6.
Páginas rasgadas -
alguns encontros da vida
fogem para sempre.

vai coleccionando selos
dos mais diversos lugares.

7.
À luz do luar
brilham os pinheiros mansos
no tapete branco.

já há fiapos de neve
que escorrem pela cabeça.

8.
O velho cajado
caminhou muitos caminhos -
um pau de nogueira

a nuvem de folhas secas
assusta o cão rafeiro.

9.
Muitos girassóis
já começaram a abrir -
piam os abibes.

as andorinhas do sul
têm os primeiros ninhos.

10.
Brilham as giestas
enfeitadas com mil sóis -
fogo de artifício.

uma hera no jardim
seca por falta de água.

11.
Do buraco estreito
saem as formigas pretas -
acabou o velório.

à porta da velha igreja
o tilintar das moedas.

12.
A rã de bashô
não salta para o ribeiro
de água marulhante

na margem vários meninos
põem os pés na corrente.

13.
Um ramo de abetos -
quando a distância é longa
e vaza a planície.

as cerejas na ramada
brincam nas tuas orelhas.

14.
Com o espanador
os lábios cor-de-cereja
ficam mais carnudos.

a fotografia velha
regressa à adolescência.

15.
A lua de prata
pousa sobre as folhas secas
do cardo bravio.

meio século de vida
já são muitas estações.

16.
Searas vazias
com as alfaias agrícolas -
cheira a pão saloio.

os montes silenciosos
só albergam os pardais.

17.
Há uma desgarrada -
duas mulheres discutem
o peixe na lota.

as amendoeiras perdem
as flores de neve rosa

18.
A pirotecnia -
todas as ameixoeiras
já estão em flor.

as jovens adolescentes
descobrem os ombros alvos.


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segunda-feira, junho 13, 2005

O meu veneno

A minha homenagem a dois poetas de língua portuguesa: José António Gonçalves que faria, hoje, dia 13 de junho, 51 anos de idade e falecido no dia 29 de Março, e Eugénio de Andrade, falecido hoje aos 82 anos de idade.

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Posted by HelloJosé António Gonçalves


RENTE AOS OLHOS

rente aos olhos a lágrima a
manhã o orvalho a mão
sobre o arado e o sol nascendo
(...)
rente ao homem os dedos cansados
o sono infinito os canteiros vazios
dois palmos de novo dia e um poema
branco sem palavras

José António Gonçalves
(excerto, in "Movimento", nº.1,
Funchal, 1973)

JAG
http://members.netmadeira.com/jagoncalves





As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


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sexta-feira, junho 10, 2005

O meu veneno

Dia 10 de Junho: dia de Camões, Portugal e das Comunidades.
O Professor Hermano Saraiva diz que Portugal escolheu um dia da cultura para assinalar o Dia Nacional. Nem por isso o país é dos mais cultos da Europa dos 25.
Não é, claro, sobre isso que eu quero escrever. Quero escrever sobre o que me foi dado ver nas comemorações do dia 10 de Junho, em Guimarães.
O Sr. Benard da Costa passou 50% do tempo a falar dele e do seu último discurso como organizador das comemorações do 10 de junho.
O Presidente da República, imagine-se, pediu patriotismo aos portugueses para ultrapassar a crise. Ultrapasar a crise num país onde os trabalhadores são os que mais horas de trabalho têm e menos produzem na Europa. É aqui que os responsáveis pela governação de Portugal deviam centrar a atenção para começarem a resolver os problemas que esta província ibérica atravessa. Mas não!

Lá estavam eles todos, os do regime, a receberem as Ordens e as Comendas com as melhores vestimentas e sorrisos e gestos de subserviência. Com reformas chorudas; duplas, triplas, mais os ordenados dos actuais empregos, enquanto a classe média (eu chamo-lhe a classe mínima) rebusca nos bolsos o cotão para diminuir o défice.

vilancete


em teus olhos o meu espelho
que farei com tanto, amor,
ai, de mim, minha senhor.

minha penélope, aquieta,
é na renda do teu corpo
que com minhas mãos me perco
e no tempo da ampulheta
me tomas com todo o ardor,
ai, de mim, minha senhor.

coa doçura de nausicaa
encanta-me o teu falar
e em todo o gesto de amar
bailam as notas da música;
tão leves, suaves, melódica,
que me vou em tanto amor,
ai, de mim, minha senhor.

josé félix


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quinta-feira, junho 09, 2005

O meu veneno

A lucidez faz com que tenhamos uma relação razoável com o conceito da morte. Sabemos que é inevitável, portanto, o melhor é relacionarmo-nos com ela, como fazendo parte da nossa vida. Da nossa vida enquanto somos, e sendo enquanto vivemos e até os vermes nos transformarem em proteínas. Aqueles, os vermes, sobreviver-nos-ão até a morte os levarem também.

Daí o poema que se segue, falando da morte e da sobrevivência leve, como uma sombra plácida até que os que nos conheceram se lembrarem, também eles, tenuemente de algumas das nossas vivências.

eu não te digo nada, meu amor
só sei que somos vencidos pelas ervas
e no recôndito silêncio do silêncio
temos por companhia a terra
atravessada de raízes, ou seca
na abertura de gretas sedentas de palntas.
os sorrisos e os gestos, também, mortos,
morrem na lembrança dos que têm
vaga memória de algum pó
que os dedos deixam ao tocarem os lábios
que pronunciam alguma grandeza.
toda a beleza dos versos não é nada,
e aqueles que os lêem, se os lerem,
só perpetuam as imagens criadas
pela invenção estética da escritura
que profana o tempo e o criador
na reinterpretação da vida nova.
não há nada que morra prematuramente,
nem o amor ante mortem anunciado,
e por isso mesmo vivemos um do outro
como uma pérola dentro de uma ostra.

josé félix


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segunda-feira, junho 06, 2005


O meu veneno

Quanto custa ao poeta o seu poema fiar?
− Como estamos na Teia, eu digo que custa o tempo que uma aranha demora a tecer a sua teia: com persistência, cuidado, técnica, labor, para que o leitor mergulhe, irremediavelmente, nos fios e se deixe entretecer pela poiesis, pela palavra primordial; o ethos, o loghos, o pathos; o costume, a experiência, o conhecimento, nos seus sentidos estritos e latos.
Dependendo da sintaxe poética, do discurso próprio do poeta, e do carácter formal do poema, interno e externo, ou seja, a forma e a fôrma da colecção de palavras, frases e textos, assim se vão cruzando os fios da teia, conforme vão sendo superados os obstáculos que aparecerem na ramagem da árvore.
Quanto custa ao poeta o seu poema fiar?
Custa uma dor; do criador ou da que vem da operação da palavra escrita. Custa um acontecimento, um olhar, um choro, um sorriso, uma arma, um parto, uma criança, um velho, uma morte, uma tela, um dedo, uma mão, duas mãos, um feixe de luz, a sombra, a escuridão.
Custa a própria desgraça; a real, a surreal, a inventada. Custa a hipérbole de um grito. Uma maré. A navegação de um transatlântico, um barco de papel num charco. O pedido de uma estrela à mãe. O colo materno até que o veneno o transforme em proteínas de bactérias e vermes.
Quanto custa ao poeta o seu poema fiar?
Não custa nada! Às vezes, basta uma flor solitária no meio das ervas. Um amor escuso. Uma pergunta. Uma pergunta simples!

se visse deus

se visse deus por aí, numa ruela
qualquer, perdido em doses de heroína,
não sabia dizer-lhe uma palavra
que fosse, de conforto ou de despeito.

claro, não passaria despercebido
devido ao caso inusitado de
um deus que resolveu dar um passeio
pela cidade que é dele, e mais,

com um desprendimento filosófico
e quase misantropo de quem sabe
ter o mundo a seus pés, de barro feito.

satanás é um ser mais que perfeito;
não impõe regras, nem sequer comandos.
o livre arbítrio, sim, é que vem dele.

por isso é que não se sujeita o homem.

josé félix


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domingo, junho 05, 2005


O meu veneno

A Noruega comemora este ano cem anos de existência.
A Noruega tem um problema de (des) emprego para resolver. Não! Caros amigos, não fiquem pasmos com certezas feitas. É que o desemprego na Noruega é precisamente o contrário do que se passa nos restantes países europeus. Eu explico.

A Noruega necessita urgentemente de empregados altamente qualificados para poder continuar a desenvolver projectos em alta tecnologia. Não os tem. Como está a resolver o problema? Diminuiu o tempo de licenciatura para três anos, e os bacharelatos para dois. Isto chama-se coragem. Vai permitir no mais curto espaço de tempo possível, sem diminuir a capacidade e o nível de educação, preencher os lugares necessários para continuar a desenvolver os projectos que têm em mente.

Em Portugal, e noutros paises desta velha Europa, o que seria preciso fazer para diminuir o desemprego?Aumentar os anos de licenciatura e os anos de bacharel para os estudantes sairem mais tarde das Universidades e, assim, descomprimir as tensões sociais que o aumento do desemprego causa. São dois males: aumento de anos de estudo, que já são longos, e aumento do tempo de permanência dos jovens em casa dos pais que já pouco têm nos bolsos para dar e sobreviverem.

O que se passa na Noruega? Ninguém se lembrou, ainda, de ir lá ver como é que eles fazem? E só tem cem anos!

um fogo frio é o gume aceso
da fala que se despe de seus lábios,
é a substância, o pó que poliniza
o beijo fértil no vaso de azáleas.
a água, sede no rio da planta,
viaja murmúrios e ventos e folhas
numa tarde que o rosto encontra, enfrenta
a réstia de sol que atravessa os galhos.
catulo desejava beijos mil,
um cento só e mais mil beijos de lésbia
e se perdessem ambos no conto útil.
um olhar basta-me para que a névoa
espelhe o lume brando, um fogo lábil
preso numa palavra nua, sábia.

José Félix



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quinta-feira, junho 02, 2005


O meu veneno

tenho a escrita plantada nos espelhos
onde ávida reflecte cada gesto
cada voz percebida no outro lado
da sombra imprevisível. o eco simples
transformado na própria frase aberta
ecoa no rumor antigo o riso
envelhecido na fuligem solta
da combustão acesa. na fogueira
íntima, fértil, é um desejo da ponte
que leva os carros para a outra margem
na relatividade do pensamento
que permanece no início do fogo.

josé félix
(inédito) in fácil é o movimento das folhas



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O meu veneno

Conceitos

Desde sempre que se pretendeu uma Europa alargada, pervertendo alguns conceitos por que o Velho Continente se foi formando ao longo dos tempos. Mesmo assim, depois de muitos séculos de vida a Europa ainda não conseguiu manter uma linha firme, quer no aspecto económico, quer no aspecto político. E não vai conseguir, nunca.
As diferenças são mais que muitas; religião, desenvolvimento tecnológico, mentalidade. Os países nórdicos têm um pensamento mais ou menos comum, os países da Europa central divergem da noite para o dia, e os países do sul são tacanhos, pois ainda não conseguiram sair debaixo da bota do catolicismo apostólico romano. Os países que têm um catolicismo mais profundo são também os mais atrasados, ao contrário dos países que foram influenciados pelo protestantismo.
Ora, os dois NÃO europeus ao Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa vão, precisamente, ao encontro do que diz o resumo do mesmo tratado afirmando que "A construção europeia marcada pelos diferentes Tratados concluídos ao longo dos anos, tornou-se actualmente um conjunto pouco legível".
Mais, ainda, é que não se sabe se é uma Constituição ou se é um Tratado. Os legisladores dizem que, afinal, a Constituição é um Tratado. Bem! É uma Constituição ou é um Tratado? Como é que querem que os diferentes povos votem favoravelmente uma Constituição ou um Tratado, se até o legislador não é assertivo sobre o assunto?
A Europa é uma salgalhada de nações desnorteadas perante a afirmação dos Estados Unidos da América que, para o bem ou para o mal, sabe o que quer, e afirma-o em todas as direcções.



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