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quarta-feira, junho 15, 2005

O meu veneno

Há dois dias deixei aqui a minha homenagem a dois poetas portugueses.

Hoje não venho prestar qualquer tipo de homenagem aos dois políticos que faleceram, Vasco Gonçalves e Álvaro Cunhal. Porquê? Perguntareis vós. Simplesmente porque não reconheço, àqueles e a qualquer um, o direito que me assiste de não render preito aos que foram o contrário daquilo que lhes chamam depois de mortos: homens-bons. Apesar disso tenho algumas considerações a tecer acerca do velório do Sr. Álvaro Cunhal.

Lá apareceram os amigos, os inimigos, os adversários, e até aqueles que nunca lhe foram nada, para aparecerem nos ecrãs de televisão, nas rádios, nos jornais.
Antes houve discursos: o Secretário-Geral do PCP disse que o Álvaro Cunhal ficava na «memória do coração», se alguém sabe o que isso significa. O Primeiro-ministro numa entrevista de vinte segundos referiu-se a Álvaro Cunhal, por 4 ou 5 vezes, como uma «figura». Também ninguém, parece-me, terá entendido o que ele pretendeu, chamando-lhe «figura».

Resta anunciar a lucidez de Eusébio. Entrou, e saiu como entrou: em silêncio. Resta anunciar a lucidez de José Saramago ao falar de três homens que morreram no espaço de tempo de três dias.

Há tanta claridade que cega as pessoas!



A água do ribeiro
(em homenagem ao meu amigo Aníbal Beça)

Um kazen Renga tradicional

Início: 10-06-2005
Fim : 14-06-2005

Escrito por: José Félix

1.
Estalam as pinhas -
há foguetes, romaria
à entrada da aldeia.

já saltam os gafanhotos
no meio do capinzal.

2.
Um grande alvoroço
entre a folhagem dos plátanos -
o dia escurece.

os pirilampos voejam
à volta da romãzeira.

3.
Noite enluarada -
uma sombra de pardais
voa com as folhas secas.

na casca grossa da árvore
ainda resiste a cigarra.

4.
A flor amarela
é do chá de São Roberto -
o estômago flato.

sobre a mesa de pinheiro
há duas rosas vermelhas.

5.
Gota a gota cai
das mãos para as outras mãos
a água do ribeiro.


um casal de corvos de água
brinca na erva salpicada.

6.
Páginas rasgadas -
alguns encontros da vida
fogem para sempre.

vai coleccionando selos
dos mais diversos lugares.

7.
À luz do luar
brilham os pinheiros mansos
no tapete branco.

já há fiapos de neve
que escorrem pela cabeça.

8.
O velho cajado
caminhou muitos caminhos -
um pau de nogueira

a nuvem de folhas secas
assusta o cão rafeiro.

9.
Muitos girassóis
já começaram a abrir -
piam os abibes.

as andorinhas do sul
têm os primeiros ninhos.

10.
Brilham as giestas
enfeitadas com mil sóis -
fogo de artifício.

uma hera no jardim
seca por falta de água.

11.
Do buraco estreito
saem as formigas pretas -
acabou o velório.

à porta da velha igreja
o tilintar das moedas.

12.
A rã de bashô
não salta para o ribeiro
de água marulhante

na margem vários meninos
põem os pés na corrente.

13.
Um ramo de abetos -
quando a distância é longa
e vaza a planície.

as cerejas na ramada
brincam nas tuas orelhas.

14.
Com o espanador
os lábios cor-de-cereja
ficam mais carnudos.

a fotografia velha
regressa à adolescência.

15.
A lua de prata
pousa sobre as folhas secas
do cardo bravio.

meio século de vida
já são muitas estações.

16.
Searas vazias
com as alfaias agrícolas -
cheira a pão saloio.

os montes silenciosos
só albergam os pardais.

17.
Há uma desgarrada -
duas mulheres discutem
o peixe na lota.

as amendoeiras perdem
as flores de neve rosa

18.
A pirotecnia -
todas as ameixoeiras
já estão em flor.

as jovens adolescentes
descobrem os ombros alvos.


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