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quarta-feira, julho 27, 2005

O meu veneno

Aos leitores, que tão bem têm correspondido com as suas preciosas visitas e comentários aos meus textos e poemas, deixo este texto, proto-poema, como homenagem pela fidelidade que demonstram, neste mundo da blogosfera, onde somos hoje os novos nómadas da sociedade da informação. Já o previu Pierre Levy , o filósofo do ciberespaço, nos anos sessenta

palavras inúteis

são úteis as palavras inúteis. se não fossem úteis
as palavras inúteis, por que inventaríamos
caminhos onde os passos se repetem e se calcam
e se repetem e se calcam? as asas dos pássaros
repetem o voo. o poema repete utilmente a inu-
tilidade de um verso. é como um jogo de espelhos.
um círculo de água a desfazer-se alarga-se até à dor.
dos olhos. uma parede branca é como uma parede
preta. o que tu vês é a cegueira. na cegueira.
uma luz. e para explicar isto são necessárias as
palavras inúteis. sempre úteis

josé félix in o outro lado da fala


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terça-feira, julho 26, 2005


O meu veneno




















Portugal não tem necessidade de um Presidente da República. Precisa é de um Gestor de Lixo.

fábula


vem tirar-me a respiração
dá-me um nó na garganta
e deixa-me escutar o cisne de camille sans säens.
se isso não bastar arranca-me os olhos
e os lábios.
o meu corpo é um artifício de palavras
no voo dos corvos.
simples é a morte

josé félix in o outro lado da fala

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domingo, julho 24, 2005

O meu veneno

Neste primeiro semestre tenho lido muito lixo em poesia. Claro que não vou denunciar nomes. Os entendidos, académicos ou não, críticos de literatura e analistas de fim-de-semana, sabem do que escrevo.
E não venham com a história, já repetida no Brasil com o comerciante Paulo Coelho, que os autores como ele fazem aumentar os índices de leitura. Se o fazem, fazem-no por baixo, e isso é mau. Muito mau!

As editoras têm a maior quota parte da baixa qualidade de leitura e escrita porque publicam poesia de centro comercial, fast poetry, para ler e deitar fora.

É-me grato anunciar, portanto, um autor publicado pela edições quasi, Rui Costa, cuja capa do livro coloco aqui, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves.



11

De como às vezes a tarde se aproxima, sempre

Se não queres morrer, morre: Em cada coisa inteiro
um morango respira, o teu irmão
de sangue.

Rui Costa, A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, edições quasi, Vila Nova de Famalicão, Maio 2005


a força de um galope

há poetas que têm a flor nos dedos
lambendo o pólen na sede do jardim.
se te sentisse que o brilho dos teus olhos
passeia no meu corpo em oferta dir-te-ia amor
vem caminhar outros caminhos com aquela atenção
à margem das ervas onde a sede espera a notícia da água
.
mas não, estamos num círculo de vento
onde ouvimos o sol cantar as manhãs adversas
e o trote dos cavalos é a única simbologia do advento.
verás, eu sei, que o tempo descobre
outra forma de estar e ser
apesar de quando em vez sentirmos na face o roçar das crinas
e um relincho agudo magoar-nos o peito
na força de um galope.

josé félix in o outro lado da fala


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sexta-feira, julho 22, 2005















Adansonia digitata, L., da família das bombaceae

a semente possível

tenho a luz na algibeira
e restos de um país em construção.
na areia as estrelas morrem cegas
enquanto desenho sonhos
na infância longínqua.
há sempre uma fala de búzios
possível na linha de água
com os peixes e os segredos das escamas
em conciliábulos de sombras
onde um feixe de luz sussurra
a nítida claridade.

josé félix in o outro lado da fala




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quarta-feira, julho 20, 2005

O meu veneno

O eufemismo

Arrastão : s. m., esforço violento e impetuoso para arrastar; repelão; vara que nasce no pé da videira e se estende pelo chão; rede grande de saco que é arrastada pelo fundo do mar, a reboque dos barcos de pesca;
barco de pesca que emprega redes de arrasto.

Aquele texto consta do Dicionário de Língua Portuguesa que os leitores podem consultar «on line» na Rede.

Depois do relatório oficial acerca do «arrastão», podemos acrescentar uma entrada ou um verbete ao Dicionário, a conclusão chegada após aturadíssima investigação, e que se segue:

incivilidade generalizada provocada por diversos indivíduos de várias nacionalidades e origens.

Sem comentários!!!

Aleph

Perdi um beijo em Jenin
e em Belém um abraço.

Há medo e silêncio no caminho.

No muro, um choro.

Uma litania ecoa e prolonga
a voz do muezim.

Estão desertas as ruas de Deus.

Jacob Kruz in Breviário Lamentoso(1)

(1) O Breviário Lamentoso contém 20 poemas e devem ser lidos e apreciados no conjunto. Por favor, clique na ligação e comente-os


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segunda-feira, julho 18, 2005

O meu veneno

Politicamente incorrecto

O terrorismo é, simplesmente, terrorismo. É a causa e efeito de um acto de terror. O terrorismo não é, nem pode ser, personificado. Agora, a banalização do terrorismo cria sentimentos diversos, adversos, segundo a região e a mentalidade das populações.

Um acto de terrorismo na Europa é diferente de um acto de terrorismo praticado no Iraque. Porquê? Porque no acto de terrorismo praticado no Reino Unido no passado dia 7, com as consequencias que já conhecemos para a vivência e a convivência do povo, teve a resposta mental que teve, com manifestações solidárias de muitos pontos do globo, vigílias, missas, pedidos do Papa Bento XVI para que se rezasse pelos terroistas, conferências de líderes de partidos, governos, países.

O que se passa no Iraque? Morre diariamente cerca de uma centena de pessoas, onde os mais atingidos são civis, e não são, portanto, militares dos paises que impõem um status politicus em que o respectivo povo não foi ouvido nem achado. Ao Papa Bento XVI ainda não se ouviu o que quer que seja acerca deste problema. Não há manifestações nem minutos de silêncio pelas dezenas de mortos em Bagdade, Tirkit ou noutras cidades do norte do Iraque. E só uma certa esquerda complexada emite alguma opinião, na certeza, porém, de quererem que a chacina continue para poderem fazer a crítica politicamente correcta. A outra esquerda - veja-se a esquerda do partido do Sr. Blair, e de outros paises -, omite ou está lá com os seus soldados na mira do petróleo cujo barril aumenta diariamente de valor.

Será que em Bagdade o terrorismo é diferente do terrorismo praticado em Londres, Madrid, Nova Iorque, em Bali?

o espelho da casa


no sal da lágrima
o espelho da casa.
um sorriso terno
acaricia a mão na escrita
quando o aprendiz do caminho
encurta o crescimento da árvore em combustão.

desmoronam-se as falácias,
e a límpida manhã
traz a chuva inteira
de todas as noites,
quando as falésias crescem
e os duendes prolongam o declive,
e restam os ossos
para doer a memória.

caminho andando
no pedúnculo frágil
que dura a flor.

José Félix



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domingo, julho 17, 2005

O meu veneno

Faz o que eu digo e não olhes para o que eu faço.

O Banco de Portugal gastou milhões de euros em automóveis de topo de gama para os seus quadros superiores.

o desejo da árvore

lavo o rosto
na lâmina do tempo.
o meu olhar é a paisagem perdida
num corpo de metáforas.

o desejo da árvore sem nome
regressa de além da sombra
para a clareira
da flor aberta ao beijo.

não sei a cor da escuridão.
a luminosidade arranca a íris
e o grito esconde a possibilidade.

só há o silêncio da promessa.
os olhos permanecem
no fogo que alimenta a chama.

josé félix



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sexta-feira, julho 15, 2005

O meu veneno

A Nova Poesia ou a Poesia Nova


Por dever, e por gosto, vou lendo, quase sempre, as novidades em poesia publicadas neste país. Não há, e ainda bem, um eixo Lisboa-Porto, mas há, ainda, muita gente que crê que só em Coimbra, ou quem passa ou passou por Coimbra, se escreve, dizia, boa poesia e, por conseguinte, há bons poetas. Ora, o local de nascimento da maioria dos nossos poetas bons, muito bons e óptimos, não é a Lusa Atena mas outros locais, desde Trás-os-Montes até ao Algarve. Há bons poetas em Coimbra, como na cidade do Porto, em Lisboa, na Sertã, na Guarda, em Condeixa-a-Nova, em Faro, e por aí adiante.

Regressando ao que me traz aqui, e das leituras aturadas que tenho feito, noto que há uma certa facilidade na escrita poética, facilidade essa, na pressa de publicar, por um lado, e por outro lado, na sede do lucro, transformando a poesia num autêntico comércio.

Alguns escrevem como se transcrevessem notícias de jornal, privilegiando a notícia pura e simples, dando um aspecto formal às palavras, dividindo-as em estrofes, sem qualquer ritmo, musicalidade, uma total ausência do verso. Ora, poesia é a arte de escrever em verso, e verso é uma frase com musicalidade e ritmo, sobretudo.

O que tenho visto nos livros que tenho lido ultimamente é uma completa ausência de inspiração, sabendo-se que poesia é a inspiração do Homem despertando o sentimento do belo.
O que há é uma parafernália de conceitos e ismos introduzidos nos textos, sem qualquer apelo aos sentidos, à imaginação e às emoções dos leitores. É uma poesia de centro comercial.
Poesia é, também, conhecimento. Através dela o autor transmite a sua cultura ao leitor que, assim, ganha mais-valia, relembrando leituras e/ou levando-o a procurar conhecimentos complementares para a destrinça de um texto poético.
Vão-nos valendo alguns poetas, que apesar de enfermarem pelo efeito da imitação, vão escrevendo belos poemas estilo Jorge de Sena, Ruy Belo ou Eugénio de Andrade.

O poeta deve procurar sempre a diferença. O poeta experimenta. O poeta, na escrita, deve produzir encantamento. O poeta surpreende. O poeta é inovador.
Ser inovador não quer dizer que se esqueça da tradição e dos melhores e maiores poetas das gerações anteriores. Ser inovador é não esquecer-se de que há sonetos, quintilhas, sextilhas, heptassílabos, versos alexandrinos, Cantigas, Vilancetes, Canções, Carjas, Trovas, etc. Pode-se falar da actualidade escrevendo naqueles modelos fixos. O verso «livre», praticamente não existe. Leia-se Ruy Belo e verificar-se-á que cada verso tem a tónica na sexta sílaba, quase sempre, ou Jorge de Sena, Gastão Cruz, Franco Alexandre, Manuel Gusmão, Fernando Pinto do Amaral, etc

Temos um exemplo notável, e não estou aqui a tecer o panegírico do autor, que já tem firmada, e bem firmada, a sua capacidade, o Vasco Graça Moura, que tanto escreve em verso livre (verso livre não quer dizer que não tenha ofício, trabalho) como escreve nas formas fixas tradicionais. Leia-se o mais recente livro do poeta, Lacoonte, rimas várias, andamentos graves, Quetzal Editores, 2005, e perceber-se-á aquilo que eu estou a dizer.

Um poeta moderno sê-lo-á se ele for lido daqui a um, dois séculos, e os leitores encontrarem nos textos alguma actualidade. Um poeta moderno é sempre actual. Camões, Goethe, Schiller, Petrarca, Arquíloco, Dante, serão sempre poetas modernos porque deles, da poesia deles, podemos retirar, sempre, qualquer coisa que nos serve no tempo actual.

Bem, há também o outro lado da moeda. Nem tudo o que se tem produzido é mau ou muito mau, mesmo. Há poetas novos de qualidade. Uns, que a morte os levou cedo, como Daniel Faria, outros que vão publicando obras de muito interesse, como Franco Alexandre, Jorge Gomes Miranda, Carlos Lopes Pires, Pedro Sena-Lino, Ana Luísa Amaral, e outros que a memória presente guardou mais lá para o fundo.

Há outro lado muito importante na escrita que hoje se produz: a escrita na Rede. Há poetas muito bons a escreverem na Rede sem que tenham publicado um livro, devido à censura dos editores, que preferem publicar biografias de jovens de 20 anos, do futebol, de treinadores de futebol, de gente que «aparece» nos ecrãs de televisão, sendo esse o único meio de sobrevivência que têm. Publicam, ainda, livros sobre artes divinatórias de Maias e Cristinas que se vendem como pastilhas elásticas em tempo de aulas. Publicam-se livros sobre as equipas de futebol, o futebol, sempre, porque é esse o centro de interesse do público, ou fazem crer ser esse o interesse maior das populações.

Basta digitar, procurando em qualquer sistema de busca na Rede e aparecerão, logo, dezenas de poetas com qualidade.
Há lixo, claro que há, mas não é muito diferente do lixo que encontramos nas livrarias.

Para todos entenderem o que é a poesia, deixo-vos um poema de Carlos Drummond de Andrade:

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece num ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de cor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


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quinta-feira, julho 14, 2005

O meu veneno

amanhecer a língua

adormeço no teu mamilo,
na marinha do corpo teço
cada gesto que se adivinha
uns que ouso, outros que manifesto.

e quando nas dunas repouso
as pálpebras, eu vou cavando,
reveladas, as de mil sombras,
aquelas que me são veladas.

cortejo os teus gestos maduros,
bebo a fonte e fio o desejo
até dizer-to. que a flor cante

o pólen, enfim descoberto,
e no aroma a aloendro e de sémen
amanheço a língua, o rizoma.

josé félix



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quarta-feira, julho 13, 2005

O meu veneno

Não sou de andar a bater na mesma tecla durante muito tempo. Só que noblesse oblige.
Porquê? Porque, primeiro foi o Ministro das Finanças a enganar-se nas contas do Orçamento rectificativo. Segundo, já o Governador do banco de Portugal se havia enganado quando disse que o crescimento seria de 1,5%, este ano, e, afinal, vai ser só de 0,5%. É evidente que com gente desta a governar o território, o país não se desenvolve.
O povo desconfia, os empresários não confiam. O atraso vai continuar.
Ora foram as trapalhadas do governo de Santana Lopes, ora são as trapalhadas do governo de José Sócrates. Dos outros nem vale a pena falar. A trapalhada faz parte do seu modus vivendi

sobre os ossos de silves

sangra o meu coração
no castelo de silves.

dolorosa traição
de uma escrava infiel

arremessou a lança
que atravessou o corpo,

ferindo-o de morte,
sem que tivesse visto

o meu amor cativo
pela última vez.

repousam, ainda, os ossos
pela lança cruzados

definitivamente,
ao som das carpideiras

que há séculos velam
um coração caído.

no castelo de silves
sangra o meu coração.

Afiz ibn Amahd Kuzmãn


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terça-feira, julho 12, 2005

O meu veneno

Casida de ausência

Na fonte fria, em Silves,
lavo as mãos antes da oração.
Vou ter com a minha amada e dou-lhe novas
dos jardins belos de Córdova, onde Deus
está mais perto dos ouvidos dos crentes.
Trago-lhe pétalas de cheiro
para perfumar o colo de sol
e ganhar um sorriso
que aquecerá o meu coração.

Apressam-se os meus passos
na rua das olivieras.

Afiz ibn Amahd Kuzmãn


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domingo, julho 10, 2005

O meu veneno

Estou a encher o meu saco de veneno. Ainda estou em estado catatónico depois de ouvir e ver nas televisões, e ter lido no semanário "Expresso" que, afinal, não houve «arrastão» em Carcavelos.
Definitivamente, este é um país-maravilha. É o país do Peter Pan!


Chopin - Prelúdio op. 28 Nº24

tem doçura a doce amélia
que no nome pronuncia
o corpo de favos cheio
brotando mel e alegria

na folha da tua face
vai a minha mão menina
que de um modo tão rapace
de um animal no enlace
solta-se a voz na neblina;
os teus olhos na floreira
são dois botões de camélia
estão ali a vida inteira
como o cacho na videira
tem doçura a doce amélia

na serena idade e grave
plantas um beijo nos lábios
que nem a brisa se atreve
secar um ósculo breve
como diziam os sábios.
pois só assim eu nomeio
a fala que se anuncia
e se me perco no enleio
deixo todo o meu anseio
que no nome pronuncia

de ti bebo a fina água
fonte de todo o início
em ti aqueço a minha frágua
deixando as mágoas à míngua
encher-me de ti é vício.
saboreio-te na gula
és o meu pão, meu recheio
o cereal que tremula
de gesto em gesto se anula
o corpo de favos cheio

no jardim da primavera
és uma flor solitária
prima ballerina vera
sobrevindo da quimera
como sempre imaginária.
do pólen me alimento
e toda a flora anuncia;
és para a ferida unguento
a colmeia do acalento
brotando mel e alegria


josé félix


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sábado, julho 09, 2005

O meu veneno

Na reunião do G8 (os 8 paises mais ricos do planeta), em Gleneagle, Escócia, de entre outras conclusões e decisões, sobressai aquela em que o Grupo concede uma ajuda financeira à Autoridade Palestiniana, de 15 mil milhões de euros. Tivesse sido concedida, esta ajuda, noutras circunstâncias, e não soaria a uma certa dose de hipocrisia travestida de concessão ao terrorismo.

O dinheiro que sai dos bolsos dos contribuintes europeus para o continente africano só serve para que alguns políticos de topo desses países e alguns governantes encham os bolsos e adquiram bens que a maioria do povo não consegue ter. Compram casas, aviões, hotéis, fazendas, concubinas.

O melhor a fazer, como dizia Mao Tse Tung, é ensiná-los a pescar e não construir empresas de fachada só para sacar as matérias-primas com que alimentam as fábricas localizadas noutros continentes.

homenagem a Li Po(701 - 762) (1)

hoje um pardal pousou na minha mão.
trouxe-me o tempo da sabedoria
e vi que tudo se tornou mais fácil.

caem as folhas da ameixoeira

josé félix

(1) Poeta chinês do século VIII


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quinta-feira, julho 07, 2005

O meu veneno

O estado da Nação

1- Há mais de meio milhão (516.500) de desempregados que implica custos económicos, tendo este país perdido cerca de 10% do PIB devido ao desemprego.
2- Em mais de cem anos Portugal sofre a pior seca. Há cerca de 25.000 habitantes que sobrevivem com a água fornecida pelo Serviço dos Bombeiros.
3- As administrações dos hospitais demitem-se.
4- Há contestação nas ruas: dos professores, das polícias e dos funcionários públicos, em geral.
5- O nível académico do funcionalismo público e da administração pública é dos mais baixos.
6- Há gente a falar pior a língua portuguesa
7- Morre a Companhia de bailado da Gulbenkian.
8- Os ministros e Secretários de Estado falam português muito mal.
9- Não há programas culturais nos órgãos de comunicação, públicos e privados.
10- Não há ideias.

perpetuum

sereno e lábil o teu corpo cede
à fragilidade do sol.
os dedos tocam leve a flor da água
brincando com a sombra
no espelho do crepúsculo.
uma brisa penteia os teus cabelos
levando o cheiro solto
para a raiz das pedras.

josé félix


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quarta-feira, julho 06, 2005

O meu veneno

É preciso saber ler nas imagens, nos gestos, nas atitudes.

Houve uma razão para que o Primeiro-ministro fosse ao centro Cultural de Belém anunciar as medidas (a maior parte delas já iniciadas e outras ainda em fase de projecto). Conmo se sabe o CCB foi uma das obras de marca do cavaquismo, e tão denunciado pelo partido no Governo, então na oposição, como uma obra que não se enquadrava no visual ambiental, ao lado do Mosteiro dos Jerónimos. Isto é só um aparte venenoso. O que importa é que se anunciaram algumas medidas e, também como estava previsto, os empresários «torceram o nariz» a tais medidas.
Este país não gosta de obras. Não é através de Decretos-Lei ou de Portarias que se cria Desenvolvimento (assim mesmo, com letra maiúscula).
Primeiro é preciso modificar a mentalidade da sociedade portuguesa, e isso demora séculos se esse objectivo for uma questão prioritária. Depois, bem, depois não é necessáriorio criar leis para que o país se desenvolva. A massa cinzenta encarregar-se-á de produzir os mecanismos mais correctos para desenvolver em todas as frentes este país triste, e com depressão bipolar.


que farei quando tudo arde?(1)
de mansinho sem alarde
vou bebendo no silêncio,
religioso, o incenso

da cinza que é voluta
de delírios, que na pauta
vai transportando a música
da palavra escrita, lúdica,

aberta à fala mais íntima,
e numa frágil esgrima
perdesse toda a infância
sem recuo nem distância.

talvez numa pira ardesse
quando mais ninguém falasse
e rapace voaria
para a terra da alegria.

josé félix

(1) comentário no blogue de José Alexandre Ramos "Que farei quando tudo arde", em http://quefarei.blogspot.com/


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segunda-feira, julho 04, 2005

O meu veneno

O sintoma da doença

O noticiário das 13 horas da RTP, e dos outros canais, passou 16 minitos a falar de futebol e da contratação de novos jogadores para a equipa do Benfica. Quando o noticiário da televisão pública passa 16 (dezasseis!!!) minutos a falar de futebol como tema de abertura, é sinal de que o país está doente. Muito doente. Os fogos, a seca, e outros assuntos, passaram para o segundo plano. Este país, nas mentalidades, não mudou com a revolução dos cravos. Futebol, Fátima e Fado (está na moda, outra vez) (1) são as três premissas que regem o país.

Eu sugiro que o Presidente da República e o Primeiro-ministro sejam eleitos entre os Presidentes das SAD desportivas, o clero e, porque não, alguns secretários-de-eatado entre os fadistas. É que, assim, a «bota bate com a perdigota».

as redes, as palavras, o corpo -
essas coisas que guardam em seus furos
os segredos que nos escolhem.
Weslwy Peres in Rio Revoando (Com -Arte/ USP)

as madrugadas fogem

na rede cristalina das manhãs.

levam o som dos búzios

nos lábios dos amantes que marinham

palavras lúdicas.


festejo o dia no teu corpo de segredos.


na arte da pescaria guardo gestos

tecendo barcos, ilhas e naufrágios,

degredos, calmarias.

não escolhe o vento o eco das palavras.


josé félix

(1) Eu gosto de futebol, de fado; quanto a Fátima sou indiferente, respeitando quem é crente.


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sábado, julho 02, 2005

O meu veneno

Diferenças

Para pensar!

As exéquias no funeral de Émídio Guerreiro aos 105 anos de idade, e as exéquias no funeral de Álvaro Cunhal.

Num governo de centro direita ou de direita, uma estação de produção de energia nuclear é má. Num governo de esquerda uma estação de produção de energia nuclear é boa.

oblação

perdi a sensibilidade das plantas.
verteram-se-me os olhos
num bater de cílios.
não perguntei, nada,
e vi a claridade do sol
tocar-me os lábios
numa onda enorme lavar-me o corpo,
limpando-o de todas as sombras.

josé félix


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sexta-feira, julho 01, 2005

O meu veneno

peregrinatio

ao vasco graça moura

as mãos postas na escuridão da prece
sublinham o pedido que oferece.
doído, doido na sua voz mais pura
nem deus escuta a fala que se amura.

dizer que a oração é poder do fraco
lembremo-nos do pobre, feio glauco
que, sendo um deus, os deuses o abandonam
doendo a dor nas águas que se tornam

enfeitiçadas pela maga circe,
senhora de ea e do mais que se visse,
por onde cila com o corpo andasse,
fugindo ela do amor do deus rapace.

nem o deus feio, barbudo, se mirou
nas glaucas águas que o mesmo implorou,
lhe desse o amor traído pelo desprezo,
quando foi pela feiticeira preso

no ofício da artimanha da magia
saindo da profundidade fria.
vamos navegando os ditosos mares,
glaucos feios e tímidos, esgares

de perseguir o amor que da beleza
faz fé e ao outro ilude com torpeza;
de dor e mágoa para todo o sempre
para que o sol se esqueça do que cumpre.

josé félix

inédito 01.07.2005



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