<$BlogRSDUrl$>

sexta-feira, julho 15, 2005

O meu veneno

A Nova Poesia ou a Poesia Nova


Por dever, e por gosto, vou lendo, quase sempre, as novidades em poesia publicadas neste país. Não há, e ainda bem, um eixo Lisboa-Porto, mas há, ainda, muita gente que crê que só em Coimbra, ou quem passa ou passou por Coimbra, se escreve, dizia, boa poesia e, por conseguinte, há bons poetas. Ora, o local de nascimento da maioria dos nossos poetas bons, muito bons e óptimos, não é a Lusa Atena mas outros locais, desde Trás-os-Montes até ao Algarve. Há bons poetas em Coimbra, como na cidade do Porto, em Lisboa, na Sertã, na Guarda, em Condeixa-a-Nova, em Faro, e por aí adiante.

Regressando ao que me traz aqui, e das leituras aturadas que tenho feito, noto que há uma certa facilidade na escrita poética, facilidade essa, na pressa de publicar, por um lado, e por outro lado, na sede do lucro, transformando a poesia num autêntico comércio.

Alguns escrevem como se transcrevessem notícias de jornal, privilegiando a notícia pura e simples, dando um aspecto formal às palavras, dividindo-as em estrofes, sem qualquer ritmo, musicalidade, uma total ausência do verso. Ora, poesia é a arte de escrever em verso, e verso é uma frase com musicalidade e ritmo, sobretudo.

O que tenho visto nos livros que tenho lido ultimamente é uma completa ausência de inspiração, sabendo-se que poesia é a inspiração do Homem despertando o sentimento do belo.
O que há é uma parafernália de conceitos e ismos introduzidos nos textos, sem qualquer apelo aos sentidos, à imaginação e às emoções dos leitores. É uma poesia de centro comercial.
Poesia é, também, conhecimento. Através dela o autor transmite a sua cultura ao leitor que, assim, ganha mais-valia, relembrando leituras e/ou levando-o a procurar conhecimentos complementares para a destrinça de um texto poético.
Vão-nos valendo alguns poetas, que apesar de enfermarem pelo efeito da imitação, vão escrevendo belos poemas estilo Jorge de Sena, Ruy Belo ou Eugénio de Andrade.

O poeta deve procurar sempre a diferença. O poeta experimenta. O poeta, na escrita, deve produzir encantamento. O poeta surpreende. O poeta é inovador.
Ser inovador não quer dizer que se esqueça da tradição e dos melhores e maiores poetas das gerações anteriores. Ser inovador é não esquecer-se de que há sonetos, quintilhas, sextilhas, heptassílabos, versos alexandrinos, Cantigas, Vilancetes, Canções, Carjas, Trovas, etc. Pode-se falar da actualidade escrevendo naqueles modelos fixos. O verso «livre», praticamente não existe. Leia-se Ruy Belo e verificar-se-á que cada verso tem a tónica na sexta sílaba, quase sempre, ou Jorge de Sena, Gastão Cruz, Franco Alexandre, Manuel Gusmão, Fernando Pinto do Amaral, etc

Temos um exemplo notável, e não estou aqui a tecer o panegírico do autor, que já tem firmada, e bem firmada, a sua capacidade, o Vasco Graça Moura, que tanto escreve em verso livre (verso livre não quer dizer que não tenha ofício, trabalho) como escreve nas formas fixas tradicionais. Leia-se o mais recente livro do poeta, Lacoonte, rimas várias, andamentos graves, Quetzal Editores, 2005, e perceber-se-á aquilo que eu estou a dizer.

Um poeta moderno sê-lo-á se ele for lido daqui a um, dois séculos, e os leitores encontrarem nos textos alguma actualidade. Um poeta moderno é sempre actual. Camões, Goethe, Schiller, Petrarca, Arquíloco, Dante, serão sempre poetas modernos porque deles, da poesia deles, podemos retirar, sempre, qualquer coisa que nos serve no tempo actual.

Bem, há também o outro lado da moeda. Nem tudo o que se tem produzido é mau ou muito mau, mesmo. Há poetas novos de qualidade. Uns, que a morte os levou cedo, como Daniel Faria, outros que vão publicando obras de muito interesse, como Franco Alexandre, Jorge Gomes Miranda, Carlos Lopes Pires, Pedro Sena-Lino, Ana Luísa Amaral, e outros que a memória presente guardou mais lá para o fundo.

Há outro lado muito importante na escrita que hoje se produz: a escrita na Rede. Há poetas muito bons a escreverem na Rede sem que tenham publicado um livro, devido à censura dos editores, que preferem publicar biografias de jovens de 20 anos, do futebol, de treinadores de futebol, de gente que «aparece» nos ecrãs de televisão, sendo esse o único meio de sobrevivência que têm. Publicam, ainda, livros sobre artes divinatórias de Maias e Cristinas que se vendem como pastilhas elásticas em tempo de aulas. Publicam-se livros sobre as equipas de futebol, o futebol, sempre, porque é esse o centro de interesse do público, ou fazem crer ser esse o interesse maior das populações.

Basta digitar, procurando em qualquer sistema de busca na Rede e aparecerão, logo, dezenas de poetas com qualidade.
Há lixo, claro que há, mas não é muito diferente do lixo que encontramos nas livrarias.

Para todos entenderem o que é a poesia, deixo-vos um poema de Carlos Drummond de Andrade:

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece num ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de cor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem: rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito,
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


| |

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

AddMe.com, Search Engine Optimization and Submission Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com






br>


referer referrer referers referrers http_referer