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terça-feira, agosto 02, 2005

O meu veneno

O incidente e o acidente



O jornalista da RTP 1 pergunta aos automobilistas portugueses, emigrantes, a circular na IP5, que vêm de férias para as suas terras, em Portugal, se encontraram incidentes no trajecto. Os automobilistas responderam que encontraram alguns acidentes, uns, ou que não encontraram acidentes, outros.

Ambos, automobilistas e jornalista, quiseram dizer a mesma coisa falando uma linguagem diferente.



Incidente: do lat incidente

Adj. 2 gén.,

Que incide;

Superveniente;

s.m.,

circunstância acidental;

episódio.



Acidente: do lat. Accidente

s.m.,

acontecimento fortuito;

percalço;

desastre;

infelicidade, revés;

acesso repentino;

síncope;

desmaio;

variação de terreno;

variada distribuição de luz; (1)


Há, ainda, outros significados para acidente: trabalho, geográfico, vascular cerebral, etc.

Em minha opinião, a forma correcta é acidente e não incidente.

(1) Fonte: Priberam


uma ravina agreste nas palavras

no silêncio da água o rumor da folhagem
desenha no olhar de saber o mundo
a carícia na copa da árvore.
donde vem deus e que brisa arrefece
o sentido das coisas?

é um verso, um simples verso que me ocorre
como ao jorge, de sena, em sinais de fogo.

um menino colhia sóis e luas
na substância de deus que nele estava.
era mais que um menino viajante
era um menino deus, senhor e dono
do tempo no regresso à casa imperfeita.

o meu pai ouvia música árabe absorto
em incompreensíveis contemplações
no rádio philips e eu admirava-o por isso.
e pergunto-me sem a admissão de deus
o que o levava a ouvir música árabe
horas seguidas pela noite dentro,
olhos cerrados, dedos no sintonizador
não fosse o som da música monocórdica
quebrar o encanto como aconteceu
várias vezes seguidas de desencanto.

hoje, às vezes, perco-me em sintonias
num rádio velho de marca indecifrável
ouvindo estações árabes tentando
perceber, entender qualquer resposta
que ficou no caminho das águas
e, enfim, procure a margem acessível
na plantação do tempo.

do outro lado do mundo, há sempre outro lado
do mundo, um homem corre a estrada acesa
com a bala no peito e o futuro incumprido.
há poemas espalhados pelo chão
e palavras feridas em duas línguas.
como dantes havia, não há conciliábulos de deuses.
a brisa continua a gelar os ossos.

do rádio sai a nova cantilena.
perdeu a sintonia e por momentos
a nostalgia da memória aperta os lábios
na contenção medida dos impropérios
e na virtude dos passos presos no tempo
procuro a margem da semente, a radícula
possível que deixou a música árabe
intrometer-se nos meus dedos.

há uma ravina agreste nas palavras.


josé félix, Geografia da Árvore(a reinvenção da memória), Múchia Publicações, Colecção Poéticas de Lav(r)a, Funchal, 2003


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