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sábado, setembro 10, 2005

O meu veneno

Afinal, quem é que carregou no botão para os dois edifícios implodirem em Tróia?
Este país é maravilhoso!

[disse-te tudo - ou o precipício da escrita]

à memória de meu pai


um dia dir-te-ei
coisas que só o silêncio
da morte vai falando



diz-se que há coisas que ficam, sempre, por dizer.
eu afirmo, pai, que disse tudo enquanto colheste
flores e aparaste as folhas velhas das plantas do
jardim. a minha fala ia com os cavalos de água, a
galope nos aguaceiros, e os passos, as marcas,
eram a imaginação ribeirinha da conversa enquanto
a chuva relinchava os dias de temporal.
eu com um livro entre mãos e tu cheirando uma
flor e outra flor. ouvia-te pronunciar o nome delas,
soletrando as palavras, sorvendo de cada sílaba o
carácter intrínseco. o pólen. uma rosa, um cravo,
uma dália, campainhas. tornaste-te jardineiro com
os anos, e ouvias as árvores nas diversas estações
como uma sinfonia em 4 andamentos.
lembro-me de tudo o que esqueci, e a única frase
que me remexe o cérebro como um estilete, "vai e
faz-te um homem" é a que me permanece desde
o dia em os vermes começaram a tomar conta do
teu corpo.
não é um sentimento de perda o que eu senti, ou
sinto, mas um orgulho enorme por, nesse dia, ter
vindo de um sol de bruma aquela frase de circuns-
tância. nunca, até então, aquela frase me doeu tanto,
até ao dia em que vais, eu já com mais de meio
século de vida.
ainda assim, perdoa pai, hoje não sei o que é fazer-se
um homem.
disse-te tudo.

josé félix in o outro lado da fala


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