<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, novembro 28, 2005

O meu veneno

o que é a morte

a verdade está na ponta dos dedos;
tantas quantos os raios de sol cegam
o tacto da visão mais lúcida de um ponto
divergente. é a mentira construída
na arte da escritura e da palavra,
no exílio de tanta luz presa na sombra
de uma voz escondida no crepúsculo dos lábios.
o sol, como a escada de jacob, quando
se atinge o último terço, bebe-se
da sede terrível da convergência de tudo.
o que é a morte senão a ressurreição de nada.

josé félix in o outro lado da fala

|

domingo, novembro 27, 2005

O meu veneno

Hilariante!

É hilariante o modo como a Europa está a encarar a «passagem de aviões da CIA» em seu território. Cinismo e hipocrisia quanto baste.
Fiquei a saber que a CIA tem aviões, com marca e matrícula próprias, que informam a nacionalidade dos passageiros, e dizem, para consolo dos europeus, da qualidade dos mesmos: terrosistas ou não. É a eficiência da contra-espionagem europeia.
A Europa não transporta terroristas de um lado para o outro; não há terroristas no continente europeu, e as explosões de Madrid e Londres foram fabricadas em hollywood. Perdão, isso seria uma ingerência nos assuntos cinematográficos norte-americanos. Foram, sim, produzidas nos estúdios da Cinecitá, em Roma, ou na Índia para ficar mais barato.
É evidente, caros leitores, que a CIA, agência global de informação e uma central de inteligência, combate tudo aquilo que vai contra o sistema norte-americano e os seus interesses políticos e económicos espalhados pelo planeta. E daí? A Europa não tem memória? Esquece-se da sua própria história?
A Europa tem sido incapaz de resolver os conflitos dentro das suas fronteiras, apelando ajuda aos norte-americanos sempre que lutam entre si.
Se os aviões passam por Lisboa, Madrid, Paris ou Londres, qual é o problema? Será devido à passagem desses aviões que a Al Qaeda ataca comboios e autocarros na Europa? Ou será devido à hipocrisia e ao cinismo dos dirigentes europeus que jogam sempre com um pau-de-dois-bicos, quando se trata do relacionamento com o Médio-Oriente e com os países árabes?
Por um lado querem aqueles países, de um momento para o outro, abraçados à democracia judaico-cristã quando vivem há milhares de anos subjugados à Sharia ; por outro lado querem o petróleo e combustíveis naturais que esses países têm no subsolo e nos seus mares, cedendo cumulativamente aos interesses menos próprios dos dirigentes religiosos islâmicos.
Tanto faz que os aviões norte-americanos, que dizem ser da CIA, passem pela cidade do Porto, pelas Canárias ou por Madrid. Não é essa a questão de fundo. E bater nessa tecla só revela falta de bom senso quanto à questão do terrosrismo global que assola tanto a América como a Europa, velha e descredibilizada, cínica e hipócrita, que mais não faz que apanhar sobre a cabeça as gotas de saliva que deita para o ar.
A política norte-americana é boa? A política norte-americana é má?
Uma coisa é certa. Para o bem e para o mal sabe-se o que pensa os EUA. Na Europa ninguém sabe o que se pensa. Não há direcção nem rumo quanto às questões mais prementes, principalmente sobre o terrosismo
É hilariante. Portugal diz que se diz que o país tal disse que outro país, que outro país, que outro país, que outro país, etc.
É tudo eventual, e os norte-americanos surdos e mudos qual caravana, vão passando...

paronímia

penduro-me nos ossos.
carregam a paronímia
da carne envelhecida na margem dos rios —
passagem a vau das quatro estações.

procuro a outra margem longe
na água coada pelas areias
onde o eco é permanente.

josé félix

|

terça-feira, novembro 22, 2005

O meu veneno

"[...]O amor não é um sentimento primata dos chimpanzés"
Deja Filho

Há Lambe-botas do capitalismo, do socialismo, do comunismo, do materialismo dialéctico, do neoliberalismo e de todos os ismos possíveis e imaginários.
O Lambe-botas é uma espécie rastejante que muda de pele como as ditas, e às vezes nem sequer se sabe se rastejam quando estão de pé, ou se estão de pé quando rastejam.
A língua, esse órgão extensível e retráctil que utilizam, infecta os mais nobres, até aqueles que, por uma razão ou outra da sua existência, fizeram e/ou / ainda fazem parte do imaginário revolucionário dos anos sessenta. Veja-se Daniel Cohn Bendit, um burguês bem instalado na Câmara de Hamburgo, depois de liderar o Maio de 68. Lambe-botas, e não é do Capitalismo, é dos Verdes.
O mundo é do Lambe-botas. O paísinho Portugal é o Lambe-botas da Europa. Os partidos são Lambe-botas do Estado. Os eleitores são Lambe-botas. Os políticos são Lambe-botas. Os candidatos à Presidência da República, de Louçã a Cavaco são-Lambe botas. Quem vota é Lambe-botas. Quem quer o voto é Lambe-botas. A Esquerda, a Direita, o Centro fazem parte da estrutura organizada dos Lambe-botas.

Viva a reacção,(1) venha ela de donde vier; da Esquerda, da Direita, do Centro, da Esquina, de Cima, de Baixo, de qualquer lado ou de lado nenhum.

Reagir é que é preciso. O verbo ainda não sofreu a involução semântica do substantivo.

1 - Reacção: acto ou efeito de reagir: Acção oposta a outra.
Fig. Resistência activa a qualquer coacção


percebo-te, libélula,
em equilíbrio sobre a água.

a eternidade
suspensa no reflexo das asas

uma frágil sombra.

josé félix in fácil é movimento das folhas


|

segunda-feira, novembro 21, 2005

O meu veneno

Espanto!!!

Ao ver o Telejornal de ontem na RTP1 nas notícias acerca dos candidatos ao lugar de Presidente da República, o apresentador José Rodrigues dos Santos disse que o candidato Aníbal Cavaco Silva tratou os outros de «fulanos»: - Cavaco chamou os outros candidatos de fulanos.
Bom, segundo o Dicionário Etimológico de língua Portuguesa do falecido José Pedro Machado, fulano é uma palavra de origem árabe e quer dizer alguém, um certo, determinada pessoa. Fulano não é nenhuma adjectivação nem ninguém se sentiu, até hoje, mal por alguém ( aqui está uma forma de dizer a mesma coisa que fulano) o determinar indiferenciadamente.
A forma como a notícia foi anunciada é uma contradição, se é que se pode chamar assim, com o contexto no qual foi dita aquela palavra: fulano A, fulano B, fulano C.
Os deslizes da imprensa, segundo José Paulo Cunha da TV Câmara, do Brasil, são a pressa e a desatenção. Eu penso acrescentar mais uma: burrice.

peregrinatio II

há um sol peregrino
entre a folhagem

vão no vento as asas da árvore
em prenúncios de sul

josé félix in fácil é o movimento das folhas

|

quinta-feira, novembro 17, 2005

O meu veneno

Confesso que a paciência tem limites.

A maioria dos profissionais da política tem uma realidade distorcida da sociedade portuguesa; os políticos profissionais estão mais preocupados com a carreira que a política lhes pode dar, e alheiam-se, completamente, das necessidades básicas da população, e da urgência de mudanças estruturais em vários sectores como, por exemplo, no da Educação.
Quando a Sra. Ministra compara o Sistema Educativo a uma grande empresa multinacional com várias agências espalhadas pelo país, é muito mau. Comparar os professores que dedicam a maior parte do tempo à formação de cidadãos a simples funcionários de uma empresa é, no mínimo, ridículo.
Só na Terra do Nunca, no país do Peter Pan, se podem conceber atitudes como as que refiro.
Enfim, vivemos num país de brincadeira.


peregrinatio


chovem os pássaros
na copa das árvores
e voos de silêncio
pousam nos lábios da manhã.


na crença dos passos
a iluminação das folhas
reflecte-se na claridade da água.

josé félix in fácil é o movimento das folhas

|

sexta-feira, novembro 11, 2005

O meu veneno

Relances

Língua portuguesa

Continuamos a ver, ouvir e a ler o emprego do verbo implementar. Ora, este verbo não existe. É um anglicismo que vem do verbo inglês to implement. O verbo correcto para ser utilizado para aquilo que se pretende dizer, em português, é desenvolver.
Definitivamente, quando se apregoa a necessidade da aprendizagem da lingua inglesa a partir do Ensino Básico, é caricato verificar que os condutores das mensagens transmitidas pelas estações de rádio, televisão, e pela imprensa escrita, continuam a utilizar a língua portuguesa de forma incorrecta.

Pré-campanha

A campanha para a eleição presidencial, segundo a lei, começa no dia 9 de Janeiro de 2006 e termina no dia 20 do mesmo mês, ou seja, tem a duração de 13 dias.
Não há razão nenhuma para que haja pré-campanha eleitoral, principalmente no país com grandes dificuldades económicas e excesso de verbalismo político, onde toda a gente sabe o que todos os candidatos pretendem.
Os manifestos dos candidatos estão publicados para quem quiser ter uma noção alargada das intenções dos próprios, e não é necessário haver pré-campanhas que só confundem, ainda mais, os eleitores e acirram a falta de paciência de quem quase paga para trabalhar. 13 dias bastam para os candidatos trocarem ideias e fazerem valer as respectivas propostas.

A esfinge

O Dr. Mário Soares, que conhece a História Universal, deve saber que a Esfinge, a guardiã das Pirâmides de Gizé, ainda está lá, no deserto, perto da cidade do Cairo, há mais de 6.000 anos. Mesmo depois de Napoleão a ter ferido com balas de canhão. Impávida e serena!


11 de Novembro

Hoje comemora-se a independência da República de Angola.

luandina

o travo do café, amargo,
na sementeira da terra vermelha,
acende uma baía de fogo
em noites luandinas,
grávidas de cacimbo no mês de junho.

há um café da noite, em boa companhia,
quizombas, madrugadas de mulatas
no cê da lua.

a fala marginal na voz do povo,
o bater de tan tans
no desejo de buganvílias vermelhas,
sopro de vento na fortaleza de são miguel
onde vão os navios, lá, no porto,
de pescarias e de namorados.

a voz, uma ilha de promessa
na água revolta, aroma a café negro
da noite prolongada na amizade,
a conversa enraizada nos lábios
de permanência de embondeiro

boa noite, bom café, café de angola, (1)
em luanda de pombeiros e escravos
de dona catarina
para os engenhos de são tomé, brasil,
a sodomia dos capitães do mato.
gritos de monangambas dos contratos.

é café. café da noite na sílaba dos ondas.

josé félix
(1) Frase dita todas as noites no programa Café da Noite, nos anos 70, por Sebastião Coelho, já falecido, na Rádio Eclésia, em Luanda

|

quinta-feira, novembro 10, 2005


Eduardo Bettencourt Pinto, poeta, autor e editor da revista Seixo Review, acaba de publicar o nº7 da revista em formato PDF. O autor do livro Casa das Rugas optou por aquele formato, de alta qualidade e profissionalismo, por ser mais fácil a distribuição, que pode ser feita através de disquete, CD-Rom ou correio electrónico, atringindo, assim, o maior número possível de leitores. O ficheiro pode ser puxado no endereço da Seixo Review
A revista excede todas as expectativas, quer pela qualidade gráfica quer pela qualidade dos textos, onde autores de língua portuguesa, conhecidos e outros dados a conhecer, publicam ensaios, recensões críticas, crónicas, poesia, ficção. As artes plásticas têm um carinho especial com o artista angolano Neves e Sousa, bem como a fotografia de Joel Pacheco.
O ficheiro pode ser imprimido em papel para facilitar a leitura com prioridade de assuntos a serem lidos.





o eco das coisas imutáveis

há uma voz que vem do telhado.
brinca na flor dos dedos
límpida como a chuva da manhã.

o eco das coisas imutáveis é
um relógio preciso
na pele envelhecida.

mesmo que a cal dos ossos
reclame a terra de uma casa fria
não há nunca o último minuto

a reclamar a prece dita
na parede do templo de uma casa
construída prestes da partida.

velhas madeiras são o altar do sacrifício
na invenção do animal degolado
como se desse por cumprida

a morte resgatada dos corpos
daqueles em que a única invenção
foi viver com as sombras

dos que lhe deram os sinais do rosto
e a semelhança da voz
que a idade enriquece no caminho.

uma casa, a substância das janelas
presa no parapeito da distância
o olhar peninsular como se fosse

uma vingança feita na ressurreição
dos rostos da família desistida.
a casa, o templo vivo mesmo morto.

josé félix “a casa submersa” in Seixo Review nº7


|

domingo, novembro 06, 2005

O meu veneno


Um país de brincadeira

Perfilam-se nas linhas de partida os pinóquios deste país de brincadeira.
Não se sabe até quanto irão crescer os respectivos narizes, cujas inverdades, algumas mentiras começam a substituir a falta de ideias. Não há sentido lúdico que valha para entreter aqueles que assistem ao espectáculo e, ainda por cima, que pagam com o voto inócuo as cenas tristes dos respectivos actores: os pinóquios.
Um, bonacheirão e senil, segue irremediavelmente para a porta do esquecimento. Outro vai-se profissionalizando como pode e quer, atraindo os incautos para a sombra dos sonhos. Outro, ainda, falsamente resistente, depois de ter semeado palavras ao vento que passa, esquece-se de um verso na algibeira. Há outro, pinóquio ,modelado na argila das ditaduras que não sabe o que quer nem ninguém conhece o que pretende. Por último, um pinóquio que vai acabar por ir para a clínica com uma forte dor de rins.
E todos aplaudem.

Basta un poco di giorno negli ochi chiari
Depois, Pesaggio VII, Cesare Pavese

ela desce a avenida com a pressa
da água que beija as margens de outra sede
iluminando o dia na passagem
da tarde aflita. a puta mais famosa
brinca no olhar dos sátiros o corpo
aberto à fantasia tão lasciva
daqueles que desejam possuir
da alma, a fragilidade proibida.
a claridade feita no caminho,
com o incêndio, olhos de sabina,
alegra o dia com as sombras, fugas
desta iluminação presenteada
aos olhos cegos de um esboço simples.
por aqui passa, intermitente, a luz.

josé félix
(inédito 2005.11.06)

|

quinta-feira, novembro 03, 2005

O meu veneno


da poesia - manifesto

neste país de tantas convicções
delineadas com a verborreia,
e de quase mil desgraçados anos,
se criaram e continua a criar-se
bestas para o espectáculo circense,
contaminando o pão daqueles que
mantêm o calor do lar, o fogo
abrasador da escrita sem a pústula
do saber falso. alardeando o pó
dos monumentos, imitam o camaleão
na tentativa de passarem nus,
de falsa voz dos deuses gregos, e mortais
de cujo tempo o tempo os transformou
como os iguais que foram para o olimpo
beber ambrósia e deliciar-se nas
coxas das deusas mais atrevidas.

moderno, o poeta disse para não
se falar de acontecimentos, sim,
e criar através da novidade
as concepções estéticas que permitem
o entendimento do que é mais simples
sem que eco seja o áugure, prenúncio
da mediocridade através do plágio
e da colagem meretriz de autores
que bem souberam criar poesia.
há o sentido da mensagem; pura,
sem regateio ou falsas intenções,
e mesmo que da flor se escreva sangue
no corpo dos amantes apaixonados,
é sempre uma parábola à procura
da água primordial, de todos os inícios.
é estar dentro e estar fora ao mesmo tempo
permanecendo ileso às dicotomias,
contradições, espelhos da torpeza
e outras facilidades construídas.

jorge de sena!, ah!, quantos imitadores
te inventam sem a lucidez da claridade!
pensam que só falar de deuses gregos,
latinos, persas, mongóis ou bantos,
e tecendo versos aos quadros e pinturas
dos artistas de muita fama, quase
lhes manchando a cor própria do que é verdadeiro,
retribui o desejo da facilidade
com que dos génios, arbitrariamente,
saem aforismos sem contestação.
um alimento precioso, a poesia
é a invenção da escrita, é a urgência
do texto que, montado no cavalo,
abraça o vento sobre a copa das árvores.
é a formiga, outra e mais outra
que forma um carreiro de poemas,
e mais pesada e leve no sentido
que a vida dá à permanência nobre
da imagem pura do sopro da frase.

não venham com poemas de jornal,
com a blasfémia da casualidade;
fazer um verso é clarear a água
e não é submissão da ditadura
dos acontecimentos projectados
pela vileza em pouca transparência.
versos, o pão da simpatia humana;
poesia, o motor da humanidade
na transfiguração de todo o sonho.
por que mistificar a voz da tragédia
interrompendo a imaginação
que se dirige para o sol no corpo de ícaro
sem o canto alegórico da queda?

é o artifício da linguagem clara,
e mesmo que a metáfora produza
a sombra de uma nuvem de neruda
a poesia é a substância alimentar,
fábula capital da existência.
não me falem de amor, falem de amar;
os gestos, os sinais, o pólen leve
da mão escrita sobre o corpo lábil
que vai escrever a transparência nua
na paciência do sol, são puas de fogo
que penetram na genitália do tempo
sempre modernos na recriação da frase.

a noite limpa a luz ardida em febre
sem deuses nado-mortos nem tirésias.
um verso tem a força de um trovão
na inundação dos campos ou na semente
engravidada pelas circunstancias.
um verso, um simples verso pode ser
o grito na rebentação das ondas
ou o silêncio pendurado na espingarda
que fura o peito, a voz, a língua rasa
com que se pronuncia o canto novo.

josé félix

|

terça-feira, novembro 01, 2005

O meu veneno



Festum omnium sanctorum

O Primeiro-Ministro, Engº José Sócrates, na campanha eleitoral para as legislativas, prometeu cento e cinquenta mil novos empregos. Até aqui, tudo bem. Tudo muito bem.
Em vez de mostrar os novos empregados a entrar para os respectivos empregos que o Sr. José Sócrates disse que arranjava, a televisão filma e entrevista alguns dos 250 novos desempregados de uma empresa a inscreverem-se no Instituto de Emprego e Formação Profissional. Tem sido sempre assim: hoje 250, ontem 75, amanhã 300. Porque não obrigam a televisão nacional a filmar os novos empregados, dos tais cento e cinquenta mil prometidos, a entrarem sorridentes, alegres e de braço dado no portão da sua nova empresa? Devia-se aplicar uma coima à Comunicação Social por não estar a cumprir a sua função.

cartas íntimas

já não se escrevem cartas íntimas como antes
daquelas que começam por meu caro amigo
senhor fulano caro senhor com o nome
a data e o local de onde era remetida.

cartas que falam da intimidade mais íntima
como a agonia de cortar uma flor cerce
para dizer de um beijo perdido na boca
presa à fala de uma palavra interdita.

nem só de tempo se construíam as frases
porque o desenho da semântica vivida
tornava mais próximo o outro na leitura fácil
lúdica quase da interpretação das plantas.

pois era assim que toda a gente começava
por decifrar a cor das pétalas colhidas
a cada dia ou numa frase do papel
página que aconchega as emoções tardias.

na confissão aberta da palma da mão .
como ficava mais perto aquele endereço
no movimento simples dos dedos, da escrita,
numa carícia breve à sombra da memória,

beijando as margens de uma carta provisória
conforme as linhas, rios cheios de palavras,
intenções de alma, o fogo ardido até que acabe
a lenha e cure o lenho de um olhar ferido.

talvez escreva a carta como antigamente
na folha de uma planta verde. na nervura
desenho um sol antigo e no limbo o azedume
é no crisol do tempo. permanecerá

até que o vento limpe as folhas de fuligem.
meu caro amigo, o tempo tem vestígios lúcidos
convenientes à contemplação do fruto
grado, maduro, à espera de soltar sementes

em terra fértil onde vão todas as águas
e depois brotam das arestas da memória
as sombras de uma árvore reconstruída
uma bebida de palavras pronunciadas

no olhar penumbra, a escrita umbrátil que se prende
ao fio dos lábios que só pedem a presença
do espelho das palavras fixas na outra margem.
a carta, assim escrita, feita de silêncio

de imagens lidas na travessa doutro tempo
acariciada pelos dedos, permanência
de afectos e emoções navegadas nas rotas.
há sempre tempo para a carta de intenções.

josé félix

|

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

AddMe.com, Search Engine Optimization and Submission Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com






br>


referer referrer referers referrers http_referer