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quinta-feira, novembro 03, 2005

O meu veneno


da poesia - manifesto

neste país de tantas convicções
delineadas com a verborreia,
e de quase mil desgraçados anos,
se criaram e continua a criar-se
bestas para o espectáculo circense,
contaminando o pão daqueles que
mantêm o calor do lar, o fogo
abrasador da escrita sem a pústula
do saber falso. alardeando o pó
dos monumentos, imitam o camaleão
na tentativa de passarem nus,
de falsa voz dos deuses gregos, e mortais
de cujo tempo o tempo os transformou
como os iguais que foram para o olimpo
beber ambrósia e deliciar-se nas
coxas das deusas mais atrevidas.

moderno, o poeta disse para não
se falar de acontecimentos, sim,
e criar através da novidade
as concepções estéticas que permitem
o entendimento do que é mais simples
sem que eco seja o áugure, prenúncio
da mediocridade através do plágio
e da colagem meretriz de autores
que bem souberam criar poesia.
há o sentido da mensagem; pura,
sem regateio ou falsas intenções,
e mesmo que da flor se escreva sangue
no corpo dos amantes apaixonados,
é sempre uma parábola à procura
da água primordial, de todos os inícios.
é estar dentro e estar fora ao mesmo tempo
permanecendo ileso às dicotomias,
contradições, espelhos da torpeza
e outras facilidades construídas.

jorge de sena!, ah!, quantos imitadores
te inventam sem a lucidez da claridade!
pensam que só falar de deuses gregos,
latinos, persas, mongóis ou bantos,
e tecendo versos aos quadros e pinturas
dos artistas de muita fama, quase
lhes manchando a cor própria do que é verdadeiro,
retribui o desejo da facilidade
com que dos génios, arbitrariamente,
saem aforismos sem contestação.
um alimento precioso, a poesia
é a invenção da escrita, é a urgência
do texto que, montado no cavalo,
abraça o vento sobre a copa das árvores.
é a formiga, outra e mais outra
que forma um carreiro de poemas,
e mais pesada e leve no sentido
que a vida dá à permanência nobre
da imagem pura do sopro da frase.

não venham com poemas de jornal,
com a blasfémia da casualidade;
fazer um verso é clarear a água
e não é submissão da ditadura
dos acontecimentos projectados
pela vileza em pouca transparência.
versos, o pão da simpatia humana;
poesia, o motor da humanidade
na transfiguração de todo o sonho.
por que mistificar a voz da tragédia
interrompendo a imaginação
que se dirige para o sol no corpo de ícaro
sem o canto alegórico da queda?

é o artifício da linguagem clara,
e mesmo que a metáfora produza
a sombra de uma nuvem de neruda
a poesia é a substância alimentar,
fábula capital da existência.
não me falem de amor, falem de amar;
os gestos, os sinais, o pólen leve
da mão escrita sobre o corpo lábil
que vai escrever a transparência nua
na paciência do sol, são puas de fogo
que penetram na genitália do tempo
sempre modernos na recriação da frase.

a noite limpa a luz ardida em febre
sem deuses nado-mortos nem tirésias.
um verso tem a força de um trovão
na inundação dos campos ou na semente
engravidada pelas circunstancias.
um verso, um simples verso pode ser
o grito na rebentação das ondas
ou o silêncio pendurado na espingarda
que fura o peito, a voz, a língua rasa
com que se pronuncia o canto novo.

josé félix

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