<$BlogRSDUrl$>

quarta-feira, dezembro 28, 2005


Kasen de Verão
Autores: Aníbal Beça e José Félix
Início: 26-11-2005
Fim: 24-12-2005


1.
trilam as cigarras -
as formigas levam pão
no carreiro estreito

2.
saltitam os gafanhotos
sob as asas dos pardais.

josé félix

3.
o pé na parede
embala a rede da sesta -
vento de mormaço

4.
o neto lambuza-se
com mangas maduras

anibal beça


5.
pára o comboio -
o revisor perde-se
na multidão

josé félix

6.
as camisas empapadas
grudam no suor da gente

anibal beça


7.
os banhistas fogem
na praia de carcavelos -
há um arrastão

josé félix

8.
os peixes mortos na seca
anunciam cheia escassa

anibal beça

9.
a lua amarela
por bem pouco não foi vista -
fogo na floresta

anibal beça

10.
as folhas cor de fuligem
reflectem a luz da lua

11.
nos dias solares
ouve-se o trilo dos grilos
sob as folhas secas

josé félix

12.
caminhando na campina
os pés quebram o silêncio

anibal beça

13.
os fios de gelo
formam arco-íris nas ramadas -
noite de lua-cheia

josé félix

14.
A panqueca desprezada
entre as migalhas de pão

anibal beça

15.
Saindo do bosque
a vista fragmenta-se na luz –
um caleidoscópio

anibal beça

16.
na planície deserta
vão as sombras das nuvens

josé félix

17.
dois cachos lilases
esperados há dois anos -
orquídeas floridas

Anibal Beça

18.
o beiral do prédio antigo
enche-se de andorinhas.

19.
na seara dourada
uma explosão de mil luzes -
papoilas vermelhas

josé félix

20.
O canto do bem-te-vi
prolonga-se pela tarde

anibal beça

21.
latidos de cães -
a camioneta da câmara
recolhe a lixeira

josé félix

22.
a sineta do colégio
toca o término das aulas

anibal beça

23.
O relógio marca
vinte e uma horas em ponto -
Inda vê-se o sol

24.
pela calçada da praia
revoada de mariposas

anibal beça

25.
as noivas reúnem
no terreiro da igreja -
dia de S. António

josé félix

26.
lua de foice mourisca
tâmaras, e dois amantes

anibal beça

27.
na areia da praia
os corações desenhados
vão com a maré

josé félix

28.
o caracol se recolhe
para os olhos da saudade

29.
Na primeira lua
a seresta no quintal -
céu limpo sem nuvens

anibal beça

30.
as primeiras folhas secas
fazem manto no jardim

31.
no chão o desenho
de caminhos transparentes -
chegaram as lesmas

josé félix

32.
passeiam sem muita pressa
as mocinhas em seu footing

anibal beça

33.
na manhã de sol
um arco-íris entre as árvores -
chuva molha-tolos

34.
hoje, as primeiras efémeras
vieram pela manhã

josé félix

35.
Buganvílias brancas
caem sobre o corpo na grama -
céu de nuvens ralas

36.
O namorado carrega
a primavera em buquê
anibal beça

|

sábado, dezembro 24, 2005

O meu veneno

Natal quer dizer nascimento. Tem origem no reino corrupto da Babilónia para celebrar o nascimento de Tamuz, filho de Nimrod e de sua esposa, Semiramis, que também era a sua própria mãe. Celebrava-se a reencarnação de Nimrod em seu filho. Nimrod era neto de Cam, filho de Noé.

na moldura da água
o teu rosto clausura
a expressão mais simples.

nem sequer uma sílaba
movimenta nos lábios
notável precipício.

no reflexo do tempo
morre a fotografia
no nitrato de prata
que se perde na luz.

quanta vida se faz
entre o olhar e a imagem
do começo da água
ao princípio da sede.

josé félix in o outro lado da fala

|

quinta-feira, dezembro 22, 2005

O meu veneno

Dar e receber

A relação entre dar e receber não deve ser vista como uma questão de percentagem, uma relação bipartida: dou para receber. Não é dar vinte por cento para receber oitenta por cento; não é dar oitenta por cento para receber vinte por cento. Só o comércio de produtos, de peças, é feito numa relação constante com a percentagem de dar e com a percentagem de receber. Eu pago por um produto ou peça determinado valor, e, consoante esse valor, tenho uma porção correspondente.
Ora, aqui, não se trata da materialidade das coisas e, sim, de uma relação metafísica com o dar e com o receber. É o princípio básico de ser solidário com os outros.
O que verificamos é que nesta época do ano se amplifica a sede de consumismo (aqui consumismo é tido como uma doença depressiva), que leva o pobre a imitar o rico na oferenda de coisas inúteis. O rico deprime-se com o preço dos produtos; quanto mais caros forem mais se denuncia (uma questão falsa) o poder de compra e o estrato social do rico. O pobre suicida-se, ou fica deprimido, ainda mais, por não poder atingir o número de zeros que determinado produto tem no seu preço.
Evidentemente, o ser humano tem direito à actividade lúdica. Esta está nas mãos dos ricos, e o pobre, se quer distrair-se, alegrar-se, tem que pedir permissão ao rico.
Eu concordo que é preciso haver homens a produzirem riqueza (outro conceito que está desvirtuado), e sublinho o meu acordo que há pessoas, umas mais capacitadas que outras, para a produzirem
O problema é, depois, o acesso a essa riqueza produzida. Ela traduz-se na constituição de infra-estruturas que possam servir todos, sem discriminação; na educação, na saúde, no trabalho, na actividade lúdica.
A minha relação entre dar e receber é esta: dou para dar.

o calendário é uma metáfora do tempo
fernando esteves pinto
todas. as fotografias repousam
sem a luiz da primeira claridade.
na casa, vazia, com a mudança
cuircunstancial da mobília,
o pó a expressão do calendário,
é a literatura a corromper
a visão estreita do presente.

as fotografias resplandecem
a juventude que a prata fixou
e o olhar de hoje envelhece
na comodidade dos dias.

o tempo é um sepulcro
onde, até, a morte rejuvenesce
o princípio do dia

josé félix in o outro lado da fala

|

sábado, dezembro 17, 2005

carta ao pai natal

senhor pai natal eu sei
que és um anjo de deus nosso senhor
e como mensageiro do céu como diz
o meu amigo que mora na torre em frente
à minha barraca da favela onde vivo
quero pedir-te que transmitas lá no céu
como vou passar o natal com a minha mãe.

tenho dez anos e nunca tive um brinquedo
a não ser de aqueles que nós fazemos com
arame carros com rodas e tudo e volante.
desde que cheguei de cabo verde que moro aqui
nesta casa de madeira sem luz sem água
e só a lua acende as ruas estreitas tão estreitas
que chego a bater nas casas com os cotovelos.

nunca fui à escola e não sei ler nem escrever
por isso pedi ao meu amigo menino para fazer
uma carta. é tão estranho a caneta dele desliza
sinais no papel das coisas que eu digo que é
difícil acreditar que as minhas palavras ali estão.

às vezes espreito pela grade da escola que fica
ali perto e vou ver os meninos no recreio a brincar
quando a minha mãe diz para ir comprar pão
no senhor inácio porque o dinheiro eu conheço
dez vinte cinquenta as moedas e as notas.

senhor pai natal eu só queria olha já disse
que não quero brinquedos não me importo
mas diz a deus para dar um homem à minha mãe
ela queixa-se muito passa a vida a dizer que
a casa precisa é de um homem principalmente
quando o meu irmão de dezoito se pica nos braços
e fica para ali parece um morto mas quando acorda
começa a partir as coisas que restam por isso
é que nós não temos prateleiras para pôr as panelas
fica tudo no chão a monte. há dias deitou abaixo
a porta da casa e dormimos toda a noite com os cães
da rua a entrar e a sair. eu quase não dormi porque tive
de enxotar os cães que iam lamber as pernas
ao meu irmão e à minha mãe. foi engraçado.

ah sabes neste bairro que não é bairro
não vem a camioneta buscar o lixo
o carro que vem é a carroça dos cães para os levar
não fazem mal a ninguém mas eles dizem que são vadios
os cães têm dono mas eles não querem saber
e dizem que são nossos amigos os cães.

vem também um senhor padre dizer
para irmos à missa rezar e obedecer a deus
mas a minha mãe e eu não temos tempo é preciso
ir buscar água a uma torneira que uma senhora pôs
no quintal para a gente . é quando
vou à água que eu vou brincar para a lixeira
e às vezes trago uma lanterna velha um secador
que trabalha mas a minha mãe não precisa dele
porque tem o cabelo curto e é carapinha.

ainda há outra coisa que eu queria pedir-te
diz a ele ao deus e se ele se lembrar por causa
dos polícias que aparecem aqui todas as noites
é só para eles não aparecerem no dia de natal
e porque a minha mãe quando os vê fica doente
porque eles mataram o meu pai que fugiu com medo
e eles deram-lhe um tiro nas costas.

já não sei o que tenho mais para dizer
era tanta coisa mas o meu amigo que mora na torre
diz-me para não escrever muito porque assim
o senhor pai natal não tem tempo para ler todas as cartas
que os meninos os que podem enviam.

vou dizer ao meu amigo para ler em voz alta
para saber se ele não se esqueceu de alguma coisa
até porque a minha mãe está a chamar-me para
pôr uma bacia a apanhar a água que está a cair
em cima da cama. está a chover muito e é sempre
assim é quando a mãe canta «sodade di nha crecheu»

agora lembrei-me tu que és o pai natal
o mensageiro de deus e portanto sabes onde
está tudo porque vais dar as prendas a toda a gente
quando passares por cima da minha casa com o teu
carro de madeira puxado por aqueles animais que têm cornos
e parecem árvores no dia de natal faz-me só um sinal
um sinal só para mim só para mim.
e não te esqueças lembra-te da minha mãe.


José Félix

|

terça-feira, dezembro 13, 2005

O meu veneno

O deserto

Os candidatos à Presidência da República estão a entrar na fase do delírio.
O candidato Francisco Louçã, cujo partido Bloco de Esquerda defende os pobres, fracos, oprimidos, excluídos e mais alguns eteceteras, mas que tem nas suas fileiras uma grande parte de meninos ricos que dizem que os pais têm a obrigação de pagar viagens aos filhos para o estrangeiro para enriquecerem o conhecimento (?), só vê um alvo a abater: Aníbal Cavaco Silva. Este, esfíngico, olha para o deserto.
O candidato Jerónimo de Sousa esqueceu-se, por alguns momentos, da célebre cassete, e invectiva correligionários, os outros candidatos a apontar setas a Aníbal cavaco Silva. Este, esfíngico, olha para o deserto.
O candidato Manuel Alegre até parece que não pertence ao Partido Socialista. Esuqece-se de ir votar no Parlamento, estrategicamente, claro, e, sem fazer muitas ondas, dá uma no cravo, outra na ferradura, para conseguir os almejados votos, ora rasteirando ora aspergindo Aníbal Cavaco Silva. Este, esfíngico, olha para o deserto.
O candidato Mário Soares, do alto do seu pedestal de barro, vai-se enganando, trocando as palavras, não dizendo coisa com coisa, não se sabendo muito bem, ou bem, o que quer. Ainda não havia acordo acerca dos debates na televisão, e já ele atirava dardos a Aníbal Cavaco Silva por não querer aparecer nos debates. Aníbal, o Cavaco, o Silva, esfíngico, olha para o deserto.
Não é o fim da história. Esta só se saberá no dia 22 de Janeiro de 2006, quando toda a gente se tiver esquecido de toda a gente, e toda a gente não se importar com quem quer que esteja na cadeira em Belém.

epitáfio

talvez seja melhor
desenhar uma árvore
na aridez do caminho


do que tecer nos lábios
umas palavras breves
sobre a fragilidade

da inocência da morte.
os caminhos são curtos
quando se alonga a vida.

josé félix in o outro lado da fala

|

quarta-feira, dezembro 07, 2005

O meu veneno

A deputada Ana Drago, do Bloco de Esquerda, diz que a fé é do foro íntimo de cada um.
O foro íntimo de cada um não é uma coisa escondida. Principalmente quando se aplica a todas as religiões do planeta. Vejamos.
Por que razão os católicos apostólico-romanos se juntam, anualmente, aos milhares, em Lourdes, Fátima ou no Vaticano? Por que razão as outras faixas de cristãos fazem assembleias com milhares de crentes em todo o mundo? Por que razão os hindús se reunem todos os anos, aos milhões, para se banharem e purificarem nas águas fétidas do rio Ganges? Por que razão os muçulmanos se reunem, aos milhões, em Meca, para gritarem junto da Caaba o seu destino?
Cara deputada Ana Drago, pode comparar a cruz a um chouriço com qualidade certificada, ou sem ela; pode invectivar tudo e todos, e querer que a Lei da Liberdade religiosa seja cumprida, pois está no seu lídimo direito.
Mas não diga, nunca, que a fé é do foro íntimo de cada um. A fé, em matéria de religião é a coisa mais pública do planeta, desde o princípio do princípio.
Religião, de religione, e do verbo religare, quer dizer, em princípio, unir, tendo tido,depois, uma evolução semântica.

da construção do poema

a sombra presa às pernas é o único

amigo que o acompanha na cativa

penumbra da cidade adormecida

e só a palavra acesa se acomete


ao fogo reacendido no caminho.

não vale a pena ter um roble rubro

de cuja duração a chama é

a principal obreira feita cinza


no tempo fulvo da fuligem vinda

nas estações medidas pelas árvores.

por isso é que das folhas se constrói


o tronco do poema aceso em cada

semente de uma flor aberta ao pólen

e da palavra viva que lhe dá


o fruto vivo no sabor da língua.

josé félix



|

sábado, dezembro 03, 2005


Óleo sobre tela, propriedade de uma entidade bancária
na cidade de Benguela, (autor?),fotografia de mariagomes



maternal ternura

a noite do teu corpo
tem a máscara
da transparência iluminada e cega
de maternal ternura

feita gesta.
a força grave de tragédia útil
como utilizas
o pequeno mundo

é a conspiração
da natureza
que nasce da raiz do tronco mágico.

nos seios duros
fome e sede colhem
o movimento fácil. coisas simples.

josé félix

|

quinta-feira, dezembro 01, 2005

O meu veneno

1 de Dezembro de 1640

Os portugueses estão cada vez menos portugueses, e são cada vez mais cidadãos de nada.
Continuam a proliferar, hoje, os Miguel de Vasconcelos, os Conde de Olivares. Em Évora, os Manuelinho afogados em impostos, IRS, IRC, IVA e salários baixos, não têm tempo para pensar na Restauração. Pensam em comer, que é o que a palavra, semanticamente evoluida, quer significar.

prelúdio no crepúsculo de um fauno


move lânguido, enrosca o tronco, suave,
lascivo o corpo, vítreos olhos, procura
ávido a flora fértil nos caminhos e ramagens.
fugidia, flora encanta, descobre-se,
tetas cónicas, lácteas, nua de pétalas
e de aromas. estende os ramos, encolhe o caule.
fauno deseja mais que o desejo;
baba no pólen das abelhas que zunem mélicas.
fauno, fálico, frémito físico, oscula único o ar
debatendo-se horizontal, estendido, pedindo,
fingindo o corpo da árvore que adolesce
na estação. flora, tímida, túmida,
perde-se e quer a entrega nos braços de fauno fecundo.
liberta aromas das flores primeiras,
acaricia o tronco no fauno; faceira,
as pétalas hibiscos erógenos abre
na florescência libertadora
e bebe o sol na sede das folhas.
fauno adormece sobre o ombro, sereno,
enquanto flora vai nas asas do crepúsculo.

josé félix

|

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

AddMe.com, Search Engine Optimization and Submission Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com






br>


referer referrer referers referrers http_referer