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terça-feira, fevereiro 28, 2006

O meu veneno

Don't worry, be healthy

Há mais de 20 dias que a minha caixa de correio electrónico é inundada com uma mensagem, Your mens-health is HERE! ,(1) de uma linha curta, com sinal de ligação para uma página qualquer na Rede.
Confesso que me sinto bastante saudável e não tenho, por natureza, curiosidade suficiente para verificar todas as ligações, próprias e impróprias, que me aparecem na caixa de correio.
Fico espantado com a promiscuidade na Rede, e, apesra de ter consultado o servidor que mantém a minha linha, os técnicos não conseguem fazer parar as mais de 50 mensagens como aquela. Só bloqueando os endereços que são diferentes todos os dias, ou dando instruções ao meu software para que os leve, de imediato, para a pasta dos «apagados».

Enfim, chegam as andorinhas do Norte de África e eu vou vê-las passarinhar em ziguezagues rasantes nos prédios urbanos.
Antes o ziguezague das andorinhas que o ziguezague dos políticos que nos governam.

(1) Não clicar, pode ser contraproducente

POEMA DE CARNAVAL

amanhã tenho a tua cinza nos
dedos ainda quentes da folia.
o teu rosto sacrificar-se-á
no tempo de futuros carnavais
e das palavras que dissemos, pó
acariciado no desenho da
árvore da avenida, solitária,
ficará a lembrança da promessa
de amor eterno, na passagem frágil
do coração riscado, gotejando
a seiva no ponteiro do estilete.

josé félix

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sábado, fevereiro 25, 2006

O meu veneno

É evidente que se olharmos somente para a cara da moeda, esquecemo-nos facilmente de como é a coroa. Por isso, mesmo não gostando de 99,999% do que é dito na Assembleia da República, que é o espaço onde se deve discutir a res publica, a coisa pública, portanto, sirvo-me do canal apropriado para “estudar”, mais o comportamento humano dos senhores deputados do que a substância que lá é dita. Os textos, quando são escritos, engravidam de falácias, utilizam frases curtas e clichés para se auto convencerem e saborearem o efeito de ouvirem a própria voz, numa vaidade promíscua a recordar Narciso. Ou, então, repetem-se até chegarem ao ponto de partida.
Eu prefiro ouvir as «fugas» de Johann Sebastian Bach.


arte de navegar

a âncora é o braço que detenho,
o longe que prolonga a permanência
dos frutos e do aroma que retenho
e trago no navio dura ausência.

perfumo cada porto deste mar
com maresias de outros vendavais
refaço na lembrança a navegar
rumando noutros rumos novos cais.

entrego os meus navios à bonança
aos ventos do porvir, a muitas cartas
aguardo os traços de outra temperança

p'ra que o futuro traga novas datas;
arrais perdido neste mar de usança
na gávea não diviso terras fartas

José Félix

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quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O meu veneno

Uma dor lombar, a ciática, a gota, atira-nos, às vezes, para o pousio desejado que, se não fossem aquelas maleitas não o teríamos, e tão bem nos faz. O repouso, se bem que forçado, obriga-nos a ordenar o pensamento e discernir com mais clareza as contradições que nos são apresentadas.
Hoje o país acordou alegre: o Benfica ganhou ao Liverpool, mas o ego faz dizer que os «portugueses» ganharam aos «ingleses» como se tratasse de uma batalha com canhões, mísseis terra-ar, granadas, bombardeamento aéreo e armas químicas e bioquímicas em acção. Jorge Luís Borges já dizia que quando jogava a Argentina com a Inglaterra, eram só 11 jogadores de futebol argentinos contra 11 jogadores de futebol ingleses. Nada mais.
Apesar disso, o país, hoje, vai produzir mais 10 ou 15 por cento que o normal, o dono das fábricas e dos trabalhadores vai sorrir e os despedimentos continuam para a semana.
Por um momento esquece-se dos crimes de colarinho branco, dos autarcas indiciados como arguidos, e até, pasme-se, da redução de pena que recai sobre um autarca arguido num processo de peculato e abuso de poder. O tempo, caros leitores, vai lavando os crimes de lesa-majestade na pátria que se esquece, sempre, dos seus filhos, lembrados atordoadamente na altura da recolha dos votos. Este país que se passeia pelos salões de exposição em exposição, não sabe que a cultura não está pregada nas paredes, nos livros, nas estátuas e na arquitectura.


o tempo hábil


o tempo hábil
na comunicação dos corpos
dá-nos a facilidade do gesto

a voz surpreende um pássaro
no caminho das coisas possíveis

na rebentação do vento
o eco faz-se silêncio

só o desenho do que não é dito
permanece antes e depois dos cílios


josé félix

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quinta-feira, fevereiro 16, 2006

O meu veneno

Transcrição da Nota do Dia de Pedro Tadeu, director do jornal 24horas

"O poder político, que desde o 25 de Abril de 1974 nos governa, lutou muito para que este jornal e todos os outros fossem livres. Mas ontem o poder político foi traído pela Justiça que, complacente, o próprio poder político deixa, lenta e angustiantemente, corromper a nossa maneira de viver."


masada

em masada
entre ein-gedi e sodoma
oiço longe o shophar um canto rouco
alonga na judeia o deserto.

a guerra não é feita ao sopro do vento
e as pedras multiplicam-se por mil
nas mãos dos que ali são
há mais de três mil e quinhentos anos

herodes edomita de esaú
triador patriota
defende a palestina
às mãos de augusto
encimando o castelo
da resistência e auto flagelação.

já longe vai o tempo dos amores morenos

via-te correr pelos jardins
gazela
com um ramo de mirra entre os cachos maduros
os seios onde o mel adoçou os meus lábios

anah o pescoço esbelto
como uma torre de marfim
enfeitada
de safiras

não há campos de cedros
e o resto dos que existem
queimam
na fogueira de campos de refugiados.

o líbano o doce líbano
dos cipestres dos lírios
o forno onde se queimam ódios
filhos filhas
de uma só pátria.

em masada
molho as pedras de vários mil anos

como um gamo ferido desço
os quatrocentos metros que me separam
das emoções.

hoje não vou ao muro das lamentações.

jacob kruz

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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O meu veneno

Definitivamente, até que a palavra não sofra uma involução semântica, todos os dicionários de língua portuguesa dizem:

casal - macho e fêmea; marido e mulher.

Há, naturalmente, um problema para resolver. O que se deve chamar a dois homens que se amam e vivem juntos? O que se deve chamar a duas mulheres que se amam e vivem juntas?
Chamar casal a uns e / ou a outros é um pretenciosismo que raia a má criação linguística. Invente-se uma outra palavra. Aquela, não!

haibun

regresso a casa. o musgo das paredes ainda tem as mãos que à sombra da árvore colocaram pedra sobre pedra enquanto da ramada caíam frutos doces e enchiam a lancheira já vazia do ágape solitário do meio-dia.

sob o alpendre, o gato
enrosca-se num novelo -
espera a visita

e como tu, a memória tem desenhos de cada seixo que mudava de lugar no azul das brincadeiras e os procurávamos nos nossos rostos reflectidos no riacho e, já cansados, do trabalho doloroso, no suor da tarde, bebíamos as faces de cada um com água e pedras nas mãos.

brisa de outono -
na corrente do riacho
vão as folhas secas



envelhece a casa. rejuvenesce o sorriso e sobre as telhas verdes nasce uma figueira que se debruça sobre o varandim de tábuas carcomidas pelo tempo e pelo peso da admiração das tardes quando o sol, rebelde, acompanhava o olhar sobre a montanha iluminada.

a casa vazia -
rastejam as lagartixas
no silêncio da noite



são os meus passos. os meus passos quando dos pássaros as asas recolhiam, pousavam sobre os ombros, lúdicos, visitava a mobília em esconde- esconde, numa ligação perfeita com a família em observação.

as teias de aranha
cobrem um retrato velho -
cai água da goteira


tenho memória e nas coisas simples o gesto de cada um é sobre as pedras um sinal vivo da água do riacho que não é o mesmo, e, ainda assim, vejo o rosto cansado do meu pai a olhar o meu na água limpa e breve que corre para as plantas com a mesma sede.


josé félix

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segunda-feira, fevereiro 13, 2006

O meu veneno

A O.P.A.

O país anda obcecado pela O.P.A. do Sr. Belmiro de Azevedo. São muitos mil milhões de euros envolvidos para comprar a Portugal Telecom. Nem a inauguração do programa apresentado pela Catarina Furtado (estreia desta, disseram)"Dança Comigo" na RTP1, divulgado até à exaustão, esmaeceu a obsessão pela O.P.A. Neste sentido até os pobres cantam loas, ou não, ao Sr. Belmiro. No fim, os pobres continuarão mais pobres e os ricos ainda mais ricos. O país está numa autêntica Oferta Pública de Aquisição e os espanhóis são aqueles que mais oferecem acompanhados pelos condes João Fernandes Andeiro que proliferam por aí, nas empresas associadas, nos Bancos, etc.

procura


o que procuras
na escuridão da luz
é o reflexo

da ilusão da mentira.
a verdade anda com atropos, cloto
e láquesis, as fiandeiras moiras
que têm o sentido real das coisas.

o que procuras
é a sombra breve
da verdade mentida.

josé félix


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quinta-feira, fevereiro 09, 2006

O meu veneno

Todos sabemos que a palavra é uma unidade da linguagem falada ou escrita. Também sabemos que as palavras, quando combinadas, servem para criar frases. É um exercício de escrita. Não creio muito na célebre «inspiração» do poeta, na «voz de Deus», na inspiração das «musas». Acredito, sim, no exercício aturado da escrita. Concebo a escrita como um músculo que necessita de exercício para se manter em forma. A única maneira de manter activo o músculo da escrita é, naturalmente, escrevendo, mas, sobretudo, lendo sobre todas as actividades humanas, embrenhando-se activamente nos seus problemas, na sociedade onde vive, atendo-se, também, em problemas que afectam outras sociedades além das suas fronteiras, convivendo, como nós fazemos aqui, na Rede, de uma forma global. Este é ofício do poeta. O artifício (leia-se «arte» e «ofício») da linguagem. Portanto, trabalho, mais trabalho e mais trabalho, ainda, é que é a verdade. Todo o trabalho poético ou de ficção é uma intertextualidade, ou metatextos, cujo todo se forma de várias partes. Somos influenciados pela comunidade onde estamos inseridos, pela cultura, pelas explosões sócio-políticas e religiosas, ou sem religião, pela tradição aprendida e apreendida no contexto actual. Quanto à interpretação do poema redes ou de outro poema qualquer, digo que a própria análise literária de um texto pode tornar-se literatura. A análise, se bem que sucinta, da Maria José Limeira capta muito bem o/s sentido/s do poema, se bem que Pessoa já disse que "sentir, sinta quem lê». Este último conceito quer dizer que a própria origem social do analista, as suas concepções religiosas, a sua agregação política, até a região onde vive, podem influenciar a própria análise do texto, não sendo, evidentemente, uma condição imprescindível. Neste campo, os próprios historiadores dão o exemplo da afirmação da influência, mesmo à luz dos factos históricos.

in oficina literária(1)

do cupido

do arco do teu corpo
filoctetes dispara
a seta sobre zéfiro

e no vazio incesto
ó minha irmã, repara
é tudo um amorífero.

não sendo este meu texto
a garra a letra fera
é o meu amor sincero.

na gratidão, modesto
na minha voz austera
o sal silêncio de hera

é o desejo liberto
do corpo que exaspera
o teu no monte zero.

josé félix

(1) lista de discussão e análise literária

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domingo, fevereiro 05, 2006

O meu veneno

Um país onde os bandidos se queixam do procurador público de serem presos para averiguações, por algumas horas ou preventivamente, às mais altas instâncias do Tribunal e do Estado, e lhes dão ouvidos, está, certamente, doente.
Vai sendo normal ser bandido. Os outros, envergonhados, choram de raiva sobre os joelhos.



razão de existir ou a existência como uma falácia


se o céu é o limite
da linha imaginária da consciência
e se a palavra em riste
tem o carácter do fio e da urgência

da faca rubra, o chiste
dessedenta, cativa a vã ciência,
a boca que resiste
para se manter viva a permanência

de uma garganta forte
mesmo que seja muda e degolada
p'la força do garrote.

porque as raízes da árvore caída
têm a seiva, a sorte
de até na própria morte manter vida;

morrer vivendo, mantendo tal porte,
é renascer do pó a própria morte.

josé félix in o outro lado da fala

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sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O meu veneno

O cartoon da Dinamarca

Há uns anos o célebre cartoonista António, no semanário Expresso, publicou um cartoon do então Papa João Paulo II com um preservativo no nariz. Os católicos apostólico-romanos insurgiram-se contra a diatribe do desenhador, correu alguma tinta no bas-fond da Comunicação Social e o assunto morreu aí. Também, do António apareceu um cartoon com uma brincadeira acerca da bandeira da região Autónoma da Madeira. O mesmo sururu, e o assunto acabou por se ir desvanecendo.

Ora, isto passa-se num país que se rege por uma democracia tipo ocidental com os valores da liberdade de expressão com responsabilidade.

Nos paises árabes, como se sabe, não há liberdade de expressão, e a lei que regula a vida dos cidadãos é a sharia, ou seja, a lei islâmica, que é transportada para as comunidades da diáspora, muitas vezes, a maioria das vezes, indo contra a lei dos paises que os acolhem.

De qualquer modo a atitude do cartoonista dinamarquês, sendo responsavelmente livre, fere os seguidores de Maomé por duas razões: primeiro, Maomé não é representado segundo a Lei islâmica; segundo, o cartoonista devia saber isso mesmo, não o representando. Tê-lo feito, e com o carácter bélico, homicida, suicida, de turbante em forma de bomba, é colocar algumas doses de plástico explosivo nas comunidades islâmicas espalhadas pelo mundo. Isto, por um lado. Por outro lado, o cartoonista fez uma representação assertiva do que se passa no Médio Oriente, no Iraque, no Afeganistão, independentemente das razões cabem aos mujahedin.

Não é a razão que faz o homicídio de guerra ser justo.



o silêncio é o ventre da fala
Gonçalo B. Sousa


silêncio, líquido amniótico do grito
da ave que prenuncia o voo na falésia
do corpo em combustão. mas não são, assim, simples,
porque, interditas, as palavras que sobejam
na língua presa às conveniências bastam
para que a linha da vontade súbita-
mente se quebre, e nas margens secas
nasçam jacintos para que se dobre a fala.
é assim, como foi e será no movimento
do gesto de um vulgar beijo, interdito
pelo silêncio que é o ventre da fala.
na escrita, pura, da sinceridade
construída, caminha duende e sombra
a frase nova que dos lábios solta
a multidão cativa, com as mãos
presas à terra da primeira fome.
se um dia, sim, passares por aqui, amigo,
carrega o ventre inchado de silêncio,
e, verás, como as coisas são tão simples,
o nascimento raro de uma flor vulgar
na quietude da maior admiração.

josé félix in o outro lado da fala

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quinta-feira, fevereiro 02, 2006

O meu veneno

O rei da informática, o Sr. Bill Gates , também conhecido por alquimista moderno, uma vez que transforma os bytes e os bits em dólares, visitou Portugal. Qual monarca passeando-se pelo jardim, foi seguido, religiosamente, pelos seus vassalos e suseranos. Todos lhe prestaram menagem, e a dádiva da comenda feita pelo Presidente da República Portuguesa está, absolutamente, deslocada. Foi, tão somente, uma circunstãncia mediática.
O Sr. dá mais dinheiro aos pobres do que todos os paises da União Europeia. A partir de agora, aqueles, os pobres, têm razões para sorrir: os bytes, os bits, a RAM, o ROM vão transmutar-se em arroz, feijão, mandioca, batata doce, milho. Os corruptos vão ficar, definitivamente, dentro das linhas óticas, e não saltarão mais do ecrã para a conveniência das mãos sujas, e encherem os bolsos.
Aviso: Isto é uma história só para adultos

tudo é simples
no nascer das flores

como viver na margem de uma sede
e beber fio a fio
a água da fonte
até que os lábios sequem o desejo

morre-se, sempre, de forma perfeita

josé félix

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