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sexta-feira, março 31, 2006

O meu veneno

O marketing

Já há algum tempo que o João Pedro George esplanou neste blogue, tintim por tintim, denunciando a tese dos clusters na escrita de MRP(assim mesmo, pelas iniciais) e a cópia que ela faz dos seus próprios livros, levando a afirmar que ela, além de se ter tornado no próprio epígono, se autoplagia descaradamente, copiando, integralmente, páginas inteiras de livros anteriores para incluir no processo de escrita de um novo livro. O leitor atento do blogue esplanar concluiu pela afirmativa que a MRP, além de ser péssima escritora, levando António Lobo Antunes em entrevista recente a dizer que tinha vergonha de ler alguma coisa de escritores daquele jaez, escreve sempre o mesmo livro, com os mesmos estereótipos sociais, com uma linguagem conhecida e utilizada pelo chamado jet set, vazia de sentido e de ideias.
MRP queixou-se e conseguiu uma providência cautelar para impedir de sair o livro de JPG , desta feita o Couves & Alforrecas - Os Segredos da Escrita de Margarida Rebelo Pinto, cujas críticas e análises do autor, em edições electrónicas, fizeram decrescer as vendas dos livros da autora. Diz ela. É o comércio a falar.
É evidente que as vendas não vão baixar. Vão subir. Pela negativa, claro. Todos vão querer saber onde estão os copianços da MRP e as vendas vão subir e muito.
O crítico JPG vai, certamente, ver o seu livro nas bancas das livrarias e vai esgotar com a brevidade de um bater de asas. Da mesma forma ganham a MRP e o JPG, pelos mesmos motivos: comércio.


líquida, amarga
esta manhã pressinto-a vestida
de dor, daquela dor passageira que retém
a circunstância da mais pequena viagem.

o sol magoa de tanta claridade
porque me escondo na transparência da voz
de corpo submetido aos pequenos passos
aos degraus ínfimos do caminho.

com o fel nos dedos cumpro
a promessa possível do encanto
no beijo que morre no fim da canção.


josé félix in suicidário

Nota: Para mais informação consultem o Diário Digital

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terça-feira, março 28, 2006

O meu veneno

A pequenez e a pouca importância que o país tem no continente europeu e no mundo também é uma consequência ou inconsequência da actuação política dos governantes. A fraca qualidade intelectual aliada ao laxismo e à sede de ganho de dinheiro fácil através do exercício da política faz deles representantes menores do povo. Faltam às reuniões do Parlamento Europeu, e, quando vão lá, só trazem más notícias parecendo Tirésias quando se preparam para ir a Bruxelas.
Um retrato da importância de Portugal na Europa e no mundo está prateado no trato que o governo do Canadá tem para com os portugueses ilegais e no modo como os trabalhadores portugueses são vistos na Holanda.
Um país pedinte está sempre constrangido à ideia que os outros fazem dele.

a outra janela

não sei porque pertenço a esta janela
talvez seja a distância da qual me acoberto
que faz olhar de soslaio
o movimento lá fora. se lá fora é estar para lá da janela
ou se é estar para cá dos cotovelos que descansam
na pose entretida e sobranceira
a ver o mundo, pequeno ou grande, sei lá
e a minha sombra a brincar com o cão
do outro lado do sol.

tenho a erva fresca na boca e um sentido canino apurado
que deseja a carícia no pêlo, ladrar, fornicar
e sem a pose de cão tecer impropérios
cavar com as mãos, com os pés, com as patas, com os dentes
com o focinho. lamber, lamber-me até que a pureza
fique nos píncaros.

eu sei que esta janela tem todo o sentido.
faz-me olhar mais para o outro, vendo-me.
não é um jogo de cabra-cega onde tocamos uns nos outros
sem sabermos quem somos.
é o espelho que me entra pela casa com o meu reflexo.
com os meus reflexos complexos
com a dislexia dos sacanas visíveis e invisíveis.

a janela. é dela que eu sou não sendo. é o meu palco
de marionetas que movimento no estrondo da gargalhada
é a minha ópera bufa. os bobos. ah os bobos.
são todos bobos desta corte de reizinhos, cortesãos e cortesãs
onde a intriga se move debaixo dos saiotes
no olhar lúbrico, lascivo dos decotes.

tenho a minha janela. só para mim. é daí que movimento
os lábios dos biltres, dos que querem subir na vida
dos ladrões, dos que se deixam roubar e dos que não deixam.
é dali que eu aplauso, apupo, assobio, escancaro a boca
ao tédio até à próxima representação.

a janela. a minha janela sem violetas
ri-se da esquerda e dos seus complexos, ri-se
da direita e das falsas virtudes
ri-se da política melodramática, ri-se
dos cidadãos inconformados
ri-se dos senhores deputados, ri-se
dos ministros e secretários de conveniência
ri-se dos mendigos, donos de empresas, ri-se
dos desempregados, dos operários, dos fumadores de crack
ri-se das putas de covil e de bacharel, ri-se
do sistema e do anti-sistema.

a minha janela é a fotografia na imaginação da pose
na indignação da posse, na violência
da verdade mentida até à exaustão.
a minha janela é a minha janela.
é a minha particular conveniência
sem truques, sem retoques de pintura
é a visão límpida das coisas.
a minha janela é a minha janela.

josé félix

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quinta-feira, março 23, 2006

koan (1)

a árvore tem
muitos caminhos para o céu
e prende na terra as raízes.

parte-se o ramo
encontra
um caminho novo.

a flor aroma a vida e o fruto.
a flor não aroma
a morte?

josé félix

(1) o koan é um poema com paradoxos e, muitas vezes, sem sentido. É uma técnica que os budistas zen utilizam para desenvolver a intuição dos estudantes.

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segunda-feira, março 20, 2006

O meu veneno

Num país normal, onde tudo se passa com normalidade, é comum o comum dos cidadãos colocar questões acerca da sociedade onde se insere.
É estranho que num país globalizado onde a notícia chega à velocidade da acção, e onde são cada vez mais notícia, as notícias sobre a guerra, a fome, o desemprego, a delinquência juvenil, a violência urbana, a violência doméstica, a pedofilia, o tráfico de mulheres e crianças, o cidadão não se questione sobre estes e outros problemas que afectam a sociedade de famílias desintegradas sem qualquer núcleo.
O desenvolvimento chega sempre com 50 anos de atraso. Este problema, estrutural, que é dos mais importantes, tem que ver com a educação e com a cultura.
Só que este país não é normal. É um país amorfo, adormecido, à espera, eternamente, que o sonho se realize: sem mexer uma palha.

casa à deriva

a casa à derviva mora no meu corpo
e, no silêncio, no eco das raízes,
a sombra das paredes guarda os pássaros
na emigração da voz. o exílio
é a passagem estreita da navegação
do caminho peninsular
onde passeia a vida
com o lhar fixo na neblina.

josé félix

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sábado, março 18, 2006


Mais uma antologia de qualidade.
O editor espanhol independente Uberto Stabile meteu mãos à obra e com a tradução da poetisa Eva Lacasta Alegre, dá à estampa uma antologia bilingue de poesia portuguesa actual.
A Antologia é uma edição da revista de poesia Aullido - Punta Umbria.
Ana de Sousa, Fernando Cabrita, Fernando Dinis, Fernando Esteves Pinto, Francisco José Viegas, Henrique Manuel Bento Fialho, João Bentes, José Agostinho Baptista, José Carlos Barros, José Félix, José Mário Silva, Luís Ene, Pedro Afonso, Rui Costa, Sandra Costa, Sara Monteiro, Teresa Rita Lopes são os poetas que fazem parte deste trabalho.
A obra vai ser apresentada em Vila Real de Santo António, no dia 21 de Abril, com uma feira do livro na cidade e uma exposição de fotografia da autora da capa da antologia, Margarida Delgado.
Haverá leitura de poemas inéditos e da antologia. Debates com a participação do editor independente Uberto Stabile ( editor da antologia), e recital poético com a participação de alguns autores da mesma. Participação de um poeta espanhol. A abertura do encontro começa na tarde de 6ª feira dia 21 de Abril.

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quinta-feira, março 16, 2006

percorre o pássaro o meu corpo de vento.
entre a falésia e o precipício um requiem
e uma canção de ninar mantêm o equilíbrio
do voo seduzido pela hipnose.

josé félix in suicidário

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segunda-feira, março 13, 2006

O meu veneno

A Temática em poesia

Fala-se cada vez mais na temática da poesia e cada vez menos nos temas da poesia. Fala-se e diz-se muito mal numa época de poesia enlatada onde todos parecem escrever sobre o mesmo, do mesmo, o mesmo.
A temática nada mais é que o conjunto dos temas de uma obra literária, musical, etc. Um livro de poemas pode ter uma temática, portanto versar sobre vários temas. Daí ao falar-se da unidade do livro, ou seja da unidade temática, vai uma distância muito grande.
Poesia temática existe onde houver ligações entre os temas, mesmo que essas ligações sejam longínquas. Lembremo-nos dos livros de António Ramos Rosa onde a água, o cavalo, a nuvem, a palavra são temas que entram na mesma obra, cuja temática se interliga e origina a unidade desejada pelo autor.
Eugénio de Andrade vai mais longe nos livros de poesia, fazendo-os com menos poemas do que é habitual, com a matéria temática mais densa, mas, mesmo assim, sendo objecto de vários temas.
Como propósito do texto coloco aqui, e nos dias seguintes, alguns poemas inseridos no projecto "Suicidário".

restos de uma chama

as agulhas espetam-se na pele
chegam ao coração da escrita viva
e sinto o sangue aos borbotões passando
no ventrículo esquerdo como o vómito
na esquina da cidade após a noite de ausência.
a sombra do caminho envolve a luz
do rosto que se apaga a cada passo.
pássaros mortos saboreiam-me a língua
na itinerância do lugar à espreita
que levem o meu corpo para o meio
da cinza fácil restos de uma chama
que iluminou a vida sem querer.

josé félix in Suicidário

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sábado, março 11, 2006

a gravata azul(dedicatória póstuma a Robert Creeley 1)


se um dia apareceres por aqui
e trouxeres aquela gravata azul
lembras-te?

-- quando aparecias como convidado imprevisto
nas festas dos amigos
ou daqueles que considerávamos amigos
só pela presença
entre nós dois --

garanto-te
meu caro
que nos vamos perder de tédio
e de gin tónico
até tecermos impropérios
à puta de vida

às tertúlias enfadonhas
onde ouvimos meninos de coro
dizerem poemas
ou aquilo que eles pensam que são poemas.

vamos deixar escrito
num borrão de guardanapo
algumas palavras dispersas
como sempre

o empregado do bar as guardará
até ao dia seguinte
quando
depois do vómito
e algum sono regressarmos
para mais um copo.

na lucidez turva da manhã
as palavras escritas misturadas
com o cheiro próprio de um bar
parecer-nos-ão
por momentos
da autoria de um génio maldito
que quis brincar com a dor construída de propósito.

é isso amigo
por vezes queremos fazer de conta
e sai-nos o tiro pela culatra.

sem a gravata azul
regressas a casa
com o cheiro podre do mundo
e uma mulher à espera de ter sexo
que não podes dar.

telefonas-me
e eu mando-te para outro mundo
e dizes-me que é impossível
viver assim.

eu sei que é absurdo
por isso deixo-me ficar
no meu canto
em silêncio
enquanto todos os outros compram acções na bolsa

e alguns se suicidam
não por perderem as acções
mas porque têm medo de viver.

josé félix

1 Robert Creeley (1926 - 30 de Março de 2005) um dos fundadores da teoria do verso projectivo e conhecido como um dos poetas da «Black Mountain»

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sexta-feira, março 10, 2006

O meu veneno


Ainda a cultura

Ontem, dia 9 de Março, foi a tomada de posse do novo Presidente de República. O Professor Cavaco Silva convidou muitas individualidades para estarem presentes naquela cerimónia. Claro que os convidados são o que são e ninguém deve contestar o desejo daquele que convida. Além disso, só vai quem quer. Há, evidentemente, outras personalidades que estão presentes, quer por inerência do cargo que ocupam quer por terem sido adversários políticos numa eleição.
O Dr. Mário Soares além de ter sido Presidente da República, Primeiro-ministro, e agora conselheiro de estado, e também porque foi adversário político nas eleições para o cargo de Presidente da República esteve presente na cerimónia. O mínimo que se lhe exige é que seja cortês, embora não seja educado. É uma questão cultural.
O Dr. Mário Soares não cumprimentou o agora Presidente da República, Professor Cavaco Silva, quando deveria tê-lo feito.
O Dr. Mário Soares, até aqui, era considerado o Pai da Pátria, um dos fundadores da democracia portuguesa, e, como democrata que se pensa que é, o cumprimento a um adversário político não lhe ficaria mal. Sucede que não o fez. Assim, do topo do conceito de bom que o povo tinha dele, desceu para o ínfimo do conceito de mau que o povo tem dele agora. Em linguagem popular só demonstrou que teve «mau perder» e ficou com «dor de cotovelo».
Os adversários cumprimentam-se sempre. Por vezes, até os inimigos o fazem para conseguir a paz ou depois dela conseguida.
O Dr. Mário Soares só demonstrou que não é um adversário, nem é um inimigo. É um biltre relegado para a franja dos sacanas.
É por isso que eu não voto. É por isso, e, se calhar para isso, que muitos votam. É uma pena!

quase corpo


para que servem os ossos de meu pai
se não os distingo dos outros no caminho
perdido nos caminhos da imigração das árvores?
a cinza é igual à cinza.
no pó do fogo que alimenta a escrita
só o eco das palavras desenhadas na sombra
traz a expressão do rosto, sempre a mesma,
numa explosão corpórea que invade a dor.

josé félix



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quinta-feira, março 09, 2006


fonte da sede


bebo da tua sede
nas courelas do tronco.
no gesto entregue á fantasia
acaricio as folhas e os ramos
acendidos com a mais pequena brisa
dos lábios de eros.
quando se vai a chama
e a cinza cobre os dedos em combustão
permanece ainda a luminosidade
do fogo que ateia a sombra
até ao próximo incêndio.
a boca não me seque nem me traia a língua
enquanto a água proceder da fonte
grávida do fruto.


josé félix

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terça-feira, março 07, 2006

O meu veneno

A obsessão


O Sr. primeiro-ministro, Engº José Sócrates, foi visitar a Finlândia. Quis verificar in loco e tirar as ilações necessárias para que se proceda de igual modo em Portugal relativamente à inovação e à aplicação das novas tenologias de informação na sociedade portuguesa. Ora, as condições da Finlândia à epoca em que iniciou a «viragem» são completamente diferentes daquelas que Portugal tem hoje. Além disso, Portugal está integrado na União Europeia onde tem que cumprir com determinadas prerrogativas por, por isso mesmo, pertencer ao clube.
É, acima de tudo, uma questão de cultura. E isso é o que Portugal não tem. Ou seja, falta organização da vida quotidiana em termos de complexos de estética, dos sentimentos e dos costumes , graças aos quais deve reagir sobre a vida determinada pela economia.
Neste país não há a criação de características, nem se preservam nem se apromoram porque não extiste comunicação nem cooperação entre os indivíduos. Um povo cheio de amorfismo e completamente dominado pelo espírito terceiro-mundista.
Cultura é, por exemplo, a aldeia de S. Lourenço de Mamporcão, a 6 Km de Estremoz, na estrada para a cidade de Portalegre: não há um papel no chão em toda a aldeia, nem uma ponta de cigarro. As casas estão todas caiadas e o povo é de uma simpatia extrema. É uma característica.
O Sr. Engº José Sócrates disse que a Finlândia era um exemplo para Portugal porque conseguiu inovar sem retirar à parte social. Em menos de 24 horas o Ministério da Saúde anunciou o aumento das Taxas Moderadoras nos Hospitais com um aumento de 23% para as urgências. Isto é falta de cultura!

a morte da fala


apareces reduzida na mais ínfima admiração.
até as palavras apetrechadas de asas
− já não têm a beleza da água −
estão despidas do barroco que tanto
aplauso esconderam na mediana da noite.
é para veres, porque já o sabes,
nem sempre a cinza é o parto da chama,
e o pó da fala arrefece, sem remédio ou cura,
no desprezo mais profundo da escrita em repouso.
não há luz que centelhe na escuridão
quando uma palavra, em silêncio, morre
com a visão dos tristes a prestar-lhe tributo.

josé félix


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sexta-feira, março 03, 2006



Publica-se pelo terceiro ano consecutivo a Antologia de Escritas Nº3. Esta antologia tem particularidades que a diferencia de outros trabalhos que incluem autores que escrevem, essencialmente, na Rede.
Todos os autores antologiados são membros da lista de discussão poética, a Escritas , que compreende cerca de 200 autores leitores. Ali há trabalho de oficina de escrita, intertextualidade entre criações de autores jovens e autores menos jovens.
Devido à grande adesão manifestada pelos autores, a antologia que abriga, normalmente, 20 autores, tem este ano, excepcionalmente, 23 poetas publicados por ordem alfabética.
O discurso poético é variado, como é diferente a ideia que tem cada um acerca do ofício da poesia.
Esta antologia é dedicada ao poeta José António Gonçalves, conhecido na Rede por JAG, pertenceu aos órgãos directivos da Associação Portuguesa de Escritores até à data do falecimento, no dia 29 de Março de 2005, e foi co- fundador da Associação Madeirense de Escritores em 1989.
O JAG divulgou na lista Escritas, e noutras listas da Rede, muitos poetas portugueses e estrangeiros através dos Calendários, publicados diariamente, e da Arte de Delfos.

A antologia será apresentada no dia 25 de Março por José Félix, que organiza a obra, com sessão multimédia e recital de poesia, na Biblioteca Municipal Afonso Lopes Vieira, em Leiria.

auschwitzgulag

("arbeit macht frei")





A palidez do momento ditava as regras
do desejo reduzido à manutenção das coisas
tal como as coisas preferiam ser.

E há momentos assim que se imaginam eternos
quando o passado é uma névoa de cinzas
quando nunca houve o que não fosse hoje.

E há a melancolia irremediável das coisas
em puro mecanismo - os atos sem autoria
o assassino sem desespero e já sem ódio.

E do morto sem face sempre restará algo
irrevogavelmente anônimo - como os cabelos
gélidos amontoados em uma única pilha
em estado de matéria-prima.

Basílio Miranda


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