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sábado, março 11, 2006

a gravata azul(dedicatória póstuma a Robert Creeley 1)


se um dia apareceres por aqui
e trouxeres aquela gravata azul
lembras-te?

-- quando aparecias como convidado imprevisto
nas festas dos amigos
ou daqueles que considerávamos amigos
só pela presença
entre nós dois --

garanto-te
meu caro
que nos vamos perder de tédio
e de gin tónico
até tecermos impropérios
à puta de vida

às tertúlias enfadonhas
onde ouvimos meninos de coro
dizerem poemas
ou aquilo que eles pensam que são poemas.

vamos deixar escrito
num borrão de guardanapo
algumas palavras dispersas
como sempre

o empregado do bar as guardará
até ao dia seguinte
quando
depois do vómito
e algum sono regressarmos
para mais um copo.

na lucidez turva da manhã
as palavras escritas misturadas
com o cheiro próprio de um bar
parecer-nos-ão
por momentos
da autoria de um génio maldito
que quis brincar com a dor construída de propósito.

é isso amigo
por vezes queremos fazer de conta
e sai-nos o tiro pela culatra.

sem a gravata azul
regressas a casa
com o cheiro podre do mundo
e uma mulher à espera de ter sexo
que não podes dar.

telefonas-me
e eu mando-te para outro mundo
e dizes-me que é impossível
viver assim.

eu sei que é absurdo
por isso deixo-me ficar
no meu canto
em silêncio
enquanto todos os outros compram acções na bolsa

e alguns se suicidam
não por perderem as acções
mas porque têm medo de viver.

josé félix

1 Robert Creeley (1926 - 30 de Março de 2005) um dos fundadores da teoria do verso projectivo e conhecido como um dos poetas da «Black Mountain»

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