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domingo, abril 09, 2006

O meu veneno


amor escuso

vem
meu amor
subamos as escadas
vamos ter sexo até ao desespero

eu sei
que
vagamente
depois do desejo vazio
numa conversa informal
no meio de ais e arrepios

falaremos de amor

de alguns conceitos adjacentes
ao acto
do sexo de circunstância
e da constância de amar

depois
passamos ao lado da vida

caminhamos para a morte

e repetimos no calendário
descargas de sémen e orgasmos

com a mistura de palavrões

pelo menos
assim consideradas.

josé félix


à margem: - Este poema, na linha do trabalho que escrevi há alguns dias em memória do poeta norte-americano Robert Creeley causou alguns comentários e análises em listas de discussão de poesia. Pela curiosidade suscitada no prório autor e nos leitores que me têm lido, coloco aqui, também, essas análises pela ordem que entraram na minha caixa de correio.

Ana Maria Costa

No poema do José Félix "Amor escuso" é o título que completa e desdobra o seu verdadeiro significado. Na primeira leitura parece-me ser um poema de amor corriqueiro/vulgar em nada o género do autor. Se não fosse o título "Amor escuso" alterar essa ideia de ordinário para extraordinário, isto é, aironia contida na palavra "escuso" acompanhada pela palavra "amor" transforma "o amor" do poema para um ritual habitual sem o encanto inicial de uma paixão acesa. Melancólico, o poeta utiliza o advérbio de tempo "depois" como gotas de lágrimas que deslizam pelo vácuo.
"depois passamos ao lado da vida / caminhamos para a morte", "depois do desejo vazio / numa conversa informal / no meio de ais e arrepios / falaremos de amor", *depois / passamos ao lado da vida / caminhamos para a morte". O Poeta Félix debate-se em esperanças que se extinguem nas palavras "morte" e "vazio". Irónico, melancólico, triste, inconformado e desesperado o Félix tenta mas sem sucesso definitivo arranjar uma solução para salvar o universo do prazer/amor intenso no uso de palavrões, "com a mistura de palavrões / pelo menosassim consideradas." "amor escuso" é um poema diferente daqueles que estou habituada a ler do José Félix mas em nada menos bonito e bom do que os outros.

Maria José Limeira

Temos nesse texto "Amor escuso" um poeta José Félix que foge ao convencional de sua própria Poesia, assomando ao "erotismo" (?) em sua forma mais bizarra (eu disse bizarra? foi no sentido de "estranha"... mas, já nem o sei...). Nesse ponto, acho que a Ana Maria teve razão, ao externar sua "indignação" (eu disse "indignação"? talvez no sentido de" cobrança", querendo que se devolva a nós o Félix que conhecemose admiramos? ... quem sabe?). O próprio autor lança-nos um desafio, respondendo às análises do seu texto: o autor é seu texto? ou o texto é o autor? Em toda sua obra que conheço e venho acompanhando desde priscas eras dos bons tempos da Lista Escritas (ah, saudades, hein Félix?) esse autor prima pela pesquisa da linguagem, pelos vôos que rasgam os céus com suas asas brilhantes, pelas metáforas mirabolantes, e por aí vai. Aqui nesse texto, há um Félix diferente, porque usa uma linguagem explícita para falar de amor e sexo, lembrando pouco o autor de antes, que acabei de descrever, em poucas linhas (permita-me aliberdade!). A partir mesmo do título, que não tem nada a ver como verbo "escusar", mas sim com ilícito do amor proibido (ou do amor pago?), o texto desemboca no ato propriamente dito, regado a "palavrões". E vocês querem algo mais explícito do que palavrão? Mas, não se pode falar que, em termos de qualidade,o poeta cai nesse texto tão inquietante quanto surpreendente. Apenas é um Félix diferente daquele que desejaríamos amar, principalmente no final do poema onde os dois últimos versos estão "sobrando" (pelo menos / assim consideradas)... Algumas coisas azucrinam, no texto, como "vamos ter sexo", ao invés de "façamos sexo", ou coisa parecida. É... Félix. Todo autor tem responsabilidades perante seus leitores!

Gonçalo B. de Sousa


Vem-me à ideia (talvez abusivamente, não sei), que muito do que fazemos deita as suas raizes no desencanto; Daí nos elevamos, dificilmente, por vezes. Zeca Afonso dizia que as pessoas não acreditam na alegria, e eu acho que a minha geração teima em não acreditar. O amor é como as outras coisas: há uma estética (se quisermos) que tem que ser exercitada. Quando dois se encontram, ainda que pela centésima vez, esse momento é irrepetível. Mas estou a divagar, a afastar-me de Félix, talvez. Este poema parece seco, mas leio nele uma profunda ternura pelo Homem, o Atlas que, diariamente, carrega o mundo nas suas costas.

A minha resposta:

maria limeira, doce jornalista de joão pessoa, o seu texto é deveras interessante. sabe, coloquei dois poemas nas listas de discussão poética, de propósito, ou seja, com o único propósito de provocar em sentido estético-literário, o cérebro daqueles que têm lido ao longo de algum tempo os meus poemas. o acto da criação poética é uma experiência constante. é necessário ter presente a consciência de que se quer, sempre, fazer algo de novo. porquê? para não sermos o nosso epígono. para não nos auto-plagiarmos. quando CRIO (note que friso bem o verbo) o poema, penso irremediavelmente que é o meu último poema; o meu último verso; a minha última estrofe. só assim eu CRIO a diferença, embora, muitas vezes uma dúzia de poemas sejam um poema só: a tal questão do tema e da temática. eu morro antes e depois de cada poema. ele tem que ser único, sincero - no campo da literatura, claro - mesmo que a experiência pessoal transporte alguns laivos para as palavras. da qualidade, maria josé, só o tempo e a leitura farão dele o que se quer que ele seja: um poema moderno que se possa ler daqui a 500 anos, se houver leitores, ou seja levado para estige e se esqueça dele como a mais reles erva daninha, embora, pessoalmente, goste destas ervas terríficas que tudo gastam, desgastam nos "espaços verdes de lazer ". gostei da sua interpretação do poema e de levar o leitor a pensar no "amor escuso". é uma interpretação literária de todo aceitável. o verbo ter é um verbo de posse. como o amor sem sexo ou o sexo sem amor (aqui é o conceito ético-moral que conta, para quem o tem) o sexo é sempre uma forma de posse e de poder (lembro Michel Foucault no livro "História da Sexualidade"). daí não utilizar o verbo fazer que, em minha opinião soaria um pouco falso por ser um verbo leve. A última parte do poema, no que diz respeito aos palavrões, sabemos muito bem que eles são parte integrante do jogo do prazer sexual. "assim consideradas" é mais uma provocação.

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