<$BlogRSDUrl$>

segunda-feira, agosto 28, 2006

O outro mito de pandora


ser pó é saber
que ao vento só se pode obedecer

Basílio Miranda


na brisa da folhagem, breve e doce
com a aproximação da morte, clara
é a notícia que sobeja na
fraqueza obediente deste vento
que acaricia a consciência livre
do corpo aberto à fantasia e vai
nos grãos de areia escrever no tempo
o esquecimento da memória vã.
serão sinais, os ossos do que fomos
morrendo a vida inteira, sem sabermos
que transportamos pó, e cuja luz
se agarra aos dedos como pus de escara.
não sei se ficarei ventral decúbito
mas isso pouco importa por agora.
que prometeu se vá de novo ao fogo
para que pandora nasça sem ofertas
e a esperança seja só a sombra.

josé félix in agora e na hora da nossa morte

|

domingo, agosto 27, 2006

O meu veneno

Poesia e Internet

É preciso distinguirmos a poesia que se faz na Internet da poesia que se divulga na Internet.
Há dias, precisamente no dia 18 deste mês, li no jornal italiano L’espresso um artigo sobre o tema o qual me merece alguns reparos. Se, por um lado, Nanni Balestrini tem razão ao afirmar que as editoras se constrangem a publicar poesia, passando-se a mesma coisa em Portugal, na Internet há um manancial de sítios onde se divulga e publica poesia em primeira-mão, de qualidade, por outro lado há muito lixo, eu diria que existe a mesma quantidade de lixo, tanto quanto existe nas livrarias e as editoras não se coíbem de o publicar pelo selo fácil do lucro e de proventos rápidos.
Não concordo, de todo, com as conclusões de poetas e críticos, (serão provavelmente os mesmos que por aqui abundam, os oficiais, os do sistema, os do regime) que dizem que na Internet há o que de pior se publica, sem qualquer tipo de orientação.
Ora, o poeta não precisa de qualquer tipo de orientação a não ser aquela que a própria vivência lhe dá. O segundo ponto dos três que alguns críticos e poetas chegaram informa que o poeta tem outros canais alternativos, que não a Internet, para se darem a conhecer, como as revistas, festivais e leituras públicas. Todos sabemos que as revistas só publicam quem querem e, normalmente, aquelas que começam por dar alguma visibilidade à poesia, deixam de o fazer sabe-se lá por que razões. Um exemplo disso é a revista 365, que já vai no nº23 e da qual sou assinante desde o primeiro número, que fez publicar vários poetas, conhecidos, menos conhecidos e desconhecidos quando os editores foram José Luís Peixoto e Fernando Alvim. A partir de determinada altura deixaram de o fazer e, mesmo, pedindo para me informarem de tal razão recebi uma resposta de silêncio.
É claro que há muito exibicionismo nos blogues. E não há exibicionismo com a publicação de livros sem sumo cujo único efeito é os autores aparecerem nos ecrãs de televisão, e, até o jornal credível como o Jornal de Letras, Artes e Ideias lhes dá cobertura?
Umberto Eco, o autor do artigo, e fazendo-se, ele também, eco da norma, do "oficial", termina assim:

“E gli altri? E gli 'scemi del villaggio', e i navigatori compulsivi che non si staccano dal computer e non sanno che esistono le riviste e i festival? A morte, come è sempre avvenuto anche prima di Internet, quando schiere di lemming poetici sono caduti nelle fauci delle 'vanity press' e dei premi fasulli pubblicizzati sui giornali, e sono andati a ingrossare le fila di quell'esercito sotterraneo di autori a proprie spese che marcia parallelo al mondo 'ufficiale' delle lettere, e da esso ignorato lo ignora. Con il vantaggio che, potendo pubblicare su Internet i loro samisdat, i cattivi poeti non andranno a ingrassare gli sciacalli della poesia. E con la possibilità, siccome la bontà dell'Altissimo è infinita, che anche in quel brago infernale possa talora sbocciare un fiore.” (O negrito é meu)

Eu concluo: -Há academias de música, conservatórios de teatro, cinema e música. Será que os milhares de alunos que ingressam nessas escolas vão ser todos actores e músicos de primeiro plano? Todos podem aprender mas só aqueles a quem for concedido o inato ofício da representação, da escrita e da música chegarão ao patamar do conhecimento que os fará sair do labirinto e os levará para voos grandiosos, até mesmo perto do sol.
Por isso termino dizendo que num jardim de dálias há sempre uma mais bonita do que outra.

|

quinta-feira, agosto 24, 2006

À morte da personagem literária Paula Paixão


a morte da personagem


não sei se viste cair do álamo
as folhas de verão quente aqui em sintra
pareceu-me que o inverno tinha chegado mais cedo
quando a brisa desfolhava os ramos
e o amontoado delas no jardim parecia flocos de neve
como nos filmes americanos.
li e amei a paula com uma paixão de criança
e lembrava-me de todas as paulas semi-louras
com uns olhos castanhos de dor e ciúme doentio
e doía-me a voz quando o vento quente
me fazia desenhar com os dedos um aperto
na garganta presa de tantas palavras arredias.
eu não sei como se mata um personagem
e a literatura mais convencional, se é que se pode
chamar a qualquer literatura de convencional
não dê explicações plausíveis de como se faz.
talvez seja mais simples arranjar-lhe um aperto mitral,
um cancro, uma diabetes ou uma doença de parkinson.
matar um personagem com o carácter construído de quem lê
é a dor construída através da escrita
é a premonição de alzheymer, das palavras corruptas
de quem desfere o último golpe do estilete de aço.
ah, como eu gosto da paula com uma paixão de gramática
que os rios do país se transformam em emblemas do ambiente.
a circunstância literária da morte pode ser doce
quando o vazio da escrita assola o pequeno pormenor
de uma vivência que corroeu o leitor.

josé félix

|

sexta-feira, agosto 18, 2006

O meu veneno

A guerra no Médio Oriente - Intervalo

O número escasso de soldados franceses para integrar a força de interposição de paz no Líbano diz bem da hipocrisia do governo francês em relação ao problema do Médio Oriente. A França discute a questão do Médio Oriente com o peso de seis milhões de muçulmanos que vivem nas cidades francesas. Daí resulta uma política de hipocrisia que só vai conter por mais algum tempo o reatar do conflito entre Israel e os extremistas fundamentalistas árabes.
A França, apesar disso, quer liderar a força da ONU. E se houver um país que queira colocar lá mais de 200 soldados? Sei que a quantidade numérica não é condição imprescindível para chefiar uma missão da ONU. Às vezes é.
A Alemanha diz que não envia soldados de combate para o Líbano, a Inglaterra diz que está atolada até ao pescoço no Afeganistão. Os Estados Unidos têm um testa-de-ferro, Israel, para resolver os problemas regionais, até ver.
A Europa continua sem rumo e a fazer uma política internacional metendo a cabeça na areia como a avestruz.
No dia 10 de Agosto as tropas israelitas que avançaram para norte, ao chegarem à cidade de Marjeyoun tiveram os soldados libaneses a recebê-los com chá. Foram recebidos pelo General Adnan Daoud. Esta cidade, cujos habitantes são, na sua maioria, cristãos quis afirmar que a guerra não era contra os libaneses, mas sim com as milícias do Hezbollah. O Hezbollah diz que foi um acto de traição.
Lembro que na 1ª Grande Guerra os soldados alemães e os soldados franceses chegaram a confraternizar no meio do tiroteio, dialogando entre as trincheiras.
Isto mostra o caldo político-religioso de um país que já foi considerado a Suíça do Médio Oriente.
Eu espero que a confraternização do chá continue.

Longe é o deserto

Longe
é o deserto, amor.

A memória atravessa o sol
e vejo-te
esplendorosa
entre os lírios.

Dás um ramo de abetos ao gamo

Ele brinca nas tuas mãos de gazela

Jacob Kruz

|

quarta-feira, agosto 16, 2006

viajo até à circunstância
ao pormenor, à distância
com a mesma força e ânsia

de querer a labareda
saber da sombra e da pedra
do andamento que envereda

a palavra, a contra-luz
o rumo que lhe conduz
o eco, o olhar que produz

no caminho da viagem
a pronúncia da imagem
que se esconde na folhagem

a luz que me pesa no ombro
se vai perdendo na sombra
como a morte, sem assombro.

josé félix in fácil é o movimento das folhas

|

segunda-feira, agosto 14, 2006

O meu veneno

O Hezbollah

1.

A Europa continua a entreter-se com as figuras de estilo, com a semântica e com a retórica política de quem não sabe qual é o caminho a seguir. Se os radicais islâmicos atacam os seus países chamam-lhes terroristas e fascistas islâmicos; se atacam o país dos outros são "combatentes, resistentes, guerrilheiros".

2.

A guerra que foi imposta ao Estado de Israel não foi ganha por qualquer das partes em contenda. Israel não ganhou porque não se ganha uma guerra contra o terroismo pela força das armas apesar de ter avançado no terreno do Líbano alguns quilómetros e ter destruído a quase totalidade das infra-estruturas económicas, comerciais e industriais. O Hezbollah não ganhou a guerra porque o terrorismo nunca ganha uma guerra. Ao terrorismo basta-lhe tossir para criar terror em qualquer zona do globo.
Só o desenvolvimento económico e a globalização podem ganhar ao terrorismo porque o desenvolvimento cria condições para que os adversários ideológicos se constranjam a tomar actos contrários aos mútuos interesses. Ninguém está a imaginar uma guerra entre a China e os Estados Unidos. Ambos têm interesses económicos mútuos a preservar e precisam um do outro para sobreviver. Há grandees investimentos dos E.U.A. na China e há grandes investimentos da China nos E.U.A.

3.

A O.N.U., Organização das Nações Unidas, é a grande derrotada desta guerra uma vez que foi incapaz de suster o rearmamento das milícias terroristas do Hezbollah desde 1978. Desde esta data que a O.N.U. está no sul do Líbano como observadora, e, até hoje, não conseguiu controlar absolutamente nada. E continuará a perder se não for capaz de exigir, face à resolução nº 1559 e à resolução nº1701, o desarmamento das milícias terroristas que são um estado dentro do Estado no Líbano.
Alguém imagina em Portugal, um pequeno partido representado na A.R. com um ou dois deputados a ter uma milícia de 2 a 3 mil homens armados até aos dentes?

rumo


disseste-me que tinhas
a fragilidade do sol.
só uma sílaba voou nos lábios
e a clareira abriu
no desenho de um pássaro
o início da viagem.

josé félix

|

sexta-feira, agosto 11, 2006

O meu veneno

Regresso

Regresso de férias após dez dias de descanso. Sem telemóveis, jornais, rádio e televisão. Nem sequer a transmissão oral de notícias. A ilha da Fuzeta, que faz parte da Reserva Natural da Ria Formosa, é um paraíso entre o oceano Atlântico e o Mediterrâneo, e, por isso mesmo, onde a beleza natural inspira e incita ao ócio.
Quando partí havia a guerra no Iraque, a guerra entre Israel e o terrorismo do Hezbollah no Médio-Oriente, ataques dos taliban no Afganistão, o início das eleições na República Democrática do Congo (Kinshassa) e outras guerras ou o princípio de muitas outras em vários pontos do globo. Quando regresso continua a guerra e a matança no Iraque entre várias facções religiosas, os sunitas e os xiitas, a guerra entre Israel e o terrorismo do Hezbollah atinge picos nunca vistos desde 1948, os taliban continuam a atacar o exército britânico no Afganistão, e, ainda, vários focos de tensão em muitos pontos do planeta. Tudo na mesma. Ou quase.
Estive em Faro, na Feira do Livro daquela cidade, onde fiz uma sessão de leitura a convite do meu amigo poeta Fernando Esteves Pinto e encontrei outros poetas, como o Pedro Afonso, João Bentes, Luís Ene.
Dos livros que vi no espaço da Sulscrito destaco um, de Luís Ene, bilingue e com o título em castelhano, "Muchas Veces Me Sucede Olvidar Quien Soy".
Luís Ene parte de um certo conceito sobre a morte para a tornar o fio condutor do livro de poemas. Parco em palavras cuja ideia transmite na epígrafe que abre a leitura, " Não uses duas palavras se uma bastar", o discurso poético vai nos entretecendo na poesia, colocando-nos defronte ao espelho mesmo que isso nos assuste[pág.12]. Vamos sempre ao fundo desde que estejamos vivos[pág.14], nos encontros e desencontros de horário certo[pág.20], na abertura ou no fecho de um livro[pág.26], quando se deixa de escrever ou se procura na literatura o que está dentro de nós[pág.28]. Tuso se pode dizer em meia dúzia de palavras[pág.34], progredindo ou recuando na procura de ser feliz e nas falas do silêncio[pág.44].
Escrever um livro, talvez não seja como o prostituto que não aceita a mesma cliente segunda vez[pág.48]. Vamos, sei lá, escrevendo o mesmo livro, pensando que é o único e diferente de todos os outros. Por isso mesmo, "Muitas vezes sucede esquecer-me quem sou".

semente

na primeira semente
vi a flor
a árvore solta
de um exílio feito
de frutos mudos.
a última promessa
desfez-se no sabor da língua frágil
no envelhecimento
da folhagem
que beija o chão vazio
de raízes
secas de sede no futuro em chama.

josé félix

|

This page is powered by Blogger. Isn't yours?

AddMe.com, Search Engine Optimization and Submission Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com






br>


referer referrer referers referrers http_referer