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domingo, outubro 29, 2006

O meu veneno

Uma questão de modernidade

O pensamento dos políticos que governam este país é surpreendente. Tudo serve para catalogar o caminho para a modernidade: ora é a construção da linha TGV para Vigo, Madrid, e Lisboa - Porto, ora é a construção do aeroporto da Ota, ora é a construção de mais um troço de auto-estrada no interior, a desagregação dos hospitais que não têm doentes suficientes, parturientes em número razoável, o que só vem confirmar o comércio da saúde.
É verdade que a modernidade é normalmente entendida como uma visão do mundo que está relacionada com o projecto do mundo moderno e que nasceu da Revolução Industrial e, agora, com o desenvolvimento do Capitalismo.
Nada daquilo que tem sido feito em portugal é o caminho para a modernidade. O único caminho para a modernidade é a luta constante contra a iliteracia deste país que faz pensar que a modernidade tem a ver com as obras públicas ou privadas.
O que guia o planeta são as ideias e fazer com que haja menos iliteracia e menos iletrados, iso sim, é o caminho para a modernidade.

6.

no regresso
só a cinza me diz
do movimento dos dedos
do eco das palavras no recanto da sala
da planta que cresce descuidada
da caixa de doces no canto da mesa.

há passos para além da fala.

josé félix in teoria do esquecimento

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quarta-feira, outubro 25, 2006

2.

do que eu me lembro
é do esquecimento da casa
do ressoar dos passos que doíam
com o silêncio
quando os dias iam
na sombra da tarde.

nocturnas
as fotografias tinham
sorrisos de estranha luz.

josé félix in teoria do esquecimento

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quarta-feira, outubro 18, 2006

a puta da cova da moura

bebo o vinho no sabor da conversa
e os meus olhos seguem a puta
que desce do comboio na cova da moura
sempre à hora do desejo.
vestida de cor lilás à anos sessenta
a rua faz ziguezague nos sapatos de salto alto
salientando as nádegas como as maçãs de dali.
pode parecer um quadro surrealista mas não é.
as mamas de silicone parecendo uma artista de filmes
porno
em fim de circuito nem sequer lhe vale
como à mulher da bulgária no acidente de trânsito.
o vinho suave com sabor a novo
fixa-me a vista no centro da mulher
e perco-me na imaginação erótica dos dedos
dos lábios das coxas do cabelo, ah o cabelo
e lembro-me que li o kama sutra
quando tive vinte anos e agora
não me serve para nada por conhecer
mais posições do que aquelas que estão
no livro do conhecimento carnal.
a puta desaparece no crepúsculo do vinho
e o sarro mantém-se na boca
depois de um copo de sais que ondeia o estômago.
apetecia-me dizer que uma puta sempre
dá alegria em algumas ocasiões
mas desta vez nem a imaginação
conseguiu mantê-la por mais tempo.
são simples as palavras e nada valem
pelo menos não valem tanto como uma puta
que desce todos os dias do comboio na cova da moura.

josé félix

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domingo, outubro 15, 2006


O Canto dos Pássaros – Pablo Casals e Al-Chaer

Sento-me. Limpo o cérebro das possibilidades da inconveniência e escuto o Canto dos Pássaros de Pablo Casals. Alberto Vilela Chaer, Al Chaer, está perto. A partitura mistura-se com o som da música de Pablo e começo a percorrer os vários andamentos na pujança do erotismo, da sensualidade na traficância das palavras, mesmo quando o Poeta as reduz a meros sinais de transfiguração da realidade.
Al Chaer manuseia as palavras com carinho, roça-lhes os lábios, beija-lhes os cílios e, por vezes, em gestos contrários ao corpo titila-lhes o íntimo com a segurança de uma paixão controlada.
O ofício da escritura com o sentido lúdico, quase brincalhão, prospera em alguns poemas com uma semiose perfeita transportando o leitor atento para uma série de significados e significantes ad infinitum sem aquele cansaço que se consegue ao ler mesmo um poeta de génio. A leveza, a água a percorrer o corpo do objecto que é o livro, contorna cachoeiras, margens simples e agrestes na atenção que tem pelo que se passa no planeta, tão diversa, irónica, séria, humorada é a linguagem utilizada. O Poeta busca na ancestralidade poética árabe alguns recantos como se um vírus percorresse o discurso poético. Lúdico com as palavras, brincando-as como um jogo de lego, por vezes, o poeta constrói a “partitura” poética cuja sonoridade nos embala, nos comunica, nos domina durante e após a leitura.
O Cantos dos Pássaros foi-se e deixa um rasto de fogo nas palavras de Alberto Vilela Al-Chaer (O Poeta).

partitura

neste momento
todas as músicas
têm teu nome
teu tom
harmonia
pelo teu corpo sigo
as teclas do sonho
e depois
me arranjo

lição de peixes

nada
como um dia
após o outro.
al chaer

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sexta-feira, outubro 13, 2006

O meu veneno

A bela e o monstro

Na alínea a) do ponto nº2, Artº 64, (Saúde) da Constituição da República Portuguesa diz o seguinte: "Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;"

O que se passa é precisamente o contrário. Com falácias, metonímias, metáforas e outras figuras de estilo, este ministro da saúde, e os que o antecederam, cria taxas e mais taxas aumentando a desigualdade social. Um cidadão que aufira um vencimento de €380,00 paga o mesmo que um cidadão auferindo um vencimento de €3.000,00. Tem sido assim com todas as taxas e sobretaxas, sendo elas moderadoras ou não.

Também na alínea c) do ponto 3, Artº 64 (Saúde) da Constituição da República Portuguesa diz: "Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos"

O que se passa? A maioria da população portuguesa é ignorante, não lê, portanto desconhece os direitos fundamentais consignados na Lei da República. O que sucede? "Quero, posso e mando" do Poder colocado na cátedra pelo povo que conferiu o direito a aquele para o devorar.

7.

vou caminhando com serenidade.

eu sei que este caminho
me conduz

ao mar tranquilo.

as folhas do salgueiro caem como flocos de neve.


josé félix vagabundagem (folheando os dias)
um tributo ao poeta chinês do século VII Han-Shan



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segunda-feira, outubro 09, 2006

O meu veneno

No país do faz-de-conta, no país da maravilha, os ladrões de automóveis, os salteadores de bancos e de postos de multibanco estão nas sete quintas. Os gangues que integram assassinos de maior quilate vão à esquadra policial queixar-se de perseguições feitas por outros gangues.
As televisões deste país dão cobertura de 30 em 30 minutos a um ladrão de automóveis para se queixar da perseguição da polícia.

Neste país quem está a ser ouvido pelo Srs Juizes por ter perseguido os ladrões de automóveis possuidores de armas de guerra são os polícias e guardas da G.N.R.

É o país dos pequeninos!

dicotomia

um pássaro entre os dedos
liberta
a imaginação

voa ícaro
na queda do sonho
quando as flores morrem no jardim.

josé félix

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quinta-feira, outubro 05, 2006



Aos sessenta anos de idade e 40 de vida literária, o poeta amazonense Aníbal Beça dá aos leitores mais uma pérola literária, desta feita, "Folhas da Selva". O livro tem, ainda, outra particularidade: tem dentro dele outro livro, "Chá das Quatro" que é uma obra escrita a quatro mãos, de Aníbal Beça e José Félix.

Jorge Tuffic, poeta e membro da Academia Amazonense de Letras escreve numa das orelhas do livro que "Aníbal Beça, dedicado cultor do haicai, procura reunir precisamente, em forma de livro [agora com l maiúsculo), o que seria a visão e a concepção do poeta sobre esse tipo singular de composição ideográfica, antes de manejo coletivo, mas que sublinha a liberdade de cada um sob o paradigma de achar o melhor como um belo exercício que faz do homem uma árvore de palavras, gorjeios, teuidades, vazios, saltos repentinos, ecos e ressonâncias".

"Chá das Quatro" é um renga entre Aníbal Bça e José Félix, em homenagem ao poeta Wenceslau de Moraes, o primeiro poeta a cultivar o haicai em Portugal. Rosa Clement, poeta e haijin do Amazonas escereve:

- "Assim é a renga, uma forma de poesia japonesa praticada por seu grande mestre Bashô, e que, desde o século XVII realça a arte da transição ao encadear, respectivamente, estrofes sazonais de três e dois versos escritos por dois ou mais autores. Como as rengas eram muito longas, pois muitas continham mais de 100 estrofes, Bashô decidiu reduzir esse número para 36 apenas, em homenagem aos 36 poetas imortais japoneses da época, e passou a chamá-las de Kazen, ou seja, a poesia dos sábios." E, mais adiante, conclui que "é com este espírito de desafio do novo que os autores abrem as cortinas para essa forma de peosia salpicando um pouco do Oriente nos seus leitores lusófonos."

No cair da folha
parte a última andorinha -
o sol perde o brilho.

JF

à toa, à toa, uma lua
cresce ao fundo da campina

AB

.-.-

No parque as crianças
imaginam-se fumando -
hálito na névoa.

AB

Escondem-se as orelhas
nos colarinhos de lã.

JF

.-.-

De repente folhas
caminham em fila na trilha -
formigas tucandeiras.

Aníbal Beça


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a rosa é uma rosa é uma rosa.
por muito que nos faça questionar
no seu princípio metafísico, é

o tropo da mensagem discursiva
sejam as rosas murchas, mortas, frágeis
em cuja essência há a lembrança tida.

a rosa é o resíduo, o rasto, resto
dos passos no caminho incompleto
tronco vazio dos espinhos lúcidos
caídos no jardim depois do corte.

a rosa é sobrevida de outra rosa
inquestionável na imaginação
mesmo que ela incomode ainda formosa
a rosa é a rosa quer se queira ou não.

só basta o subterfúgio do desejo.

josé félix

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terça-feira, outubro 03, 2006

O meu veneno

O espírito da Revolução Francesa de 1789

O conflito ideológico entre o mundo muçulmano e o mundo judaico-cristão está a pôr em causa os princípios por que se rege hoje o mundo ocidental(?) A fraternidade, a igualdade e a liberdade, principalmente esta, são conceitos cada vez mais questionáveis e questionados, mesmo pelo dito mundo ocidental. Vejamos!
Em nome de não se sabe bem o quê, o governo alemão não permitiu que a ópera de Mozart Idomeneo fosse representada em Berlim porque na parte final aparecem decapitadas as cabeças de Poseidon, Buda, Cristo e Maomé. Não se representou para não ferir(?) o sentimento muçulmano.
Numa aldeia espanhola onde a tradição queima a figura de Maomé, a população resolveu não representar o acto por o considerar como indo ferir o sentido dos muçulmanos.
Regressámos à filosofia de esquerda dos anos setenta, no auge da guerra fria, quando se dizia que «mais vale ser vermelho do que estar morto». Assim se manda às favas o espírito da Revolução Francesa, o orgulho dos europeus. Daqui até andarmos todos de véu no rosto e fazer a excisão do clitóris vai um pequeno passo.
Os europeus não aprendem.

6.

caem as primeiras chuvas de outono
os pardais recolhem-se nas copas das árvores.

com o peso do pó
piso o pó do caminho.

as marcas dos passos
vão com o vento entre a folhagem.

josé félix vagabundagem (folheando os dias)
um tributo ao poeta chinês do século VII Han-Shan

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