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sexta-feira, dezembro 29, 2006

a construção do medo

a tua voz deixou de ressoar nas pedras.
penetrou no meu corpo.
o meu olhar aquilino absorveu
toda a sede dos pássaros bicando
a água dos charcos no receio da tarde.

só o eco da mutilação da voz
se retirou da sombra
na construção do medo.

josé félix in teoria do esquecimento

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terça-feira, dezembro 26, 2006

O meu veneno

O Sr. Primeiro-ministro falou à Nação uma conversa de Natal.
No país da sacanagem o Primeiro-ministro falou para um país de burros. Assim, vai bem o reino da Dinamarca.

cais

com quantas pedras se constrói um cais
para que me sossegue a alma e sinta
que chego à casa pronta para a paciência
dos dias que sobejam do futuro

com quantas pedras se constrói uma cidade
com casas dentro e gente que me fale
a língua do meu ventre mãe, e diga
que esse lugar nasceu para que eu escreva

além da geografia desenhada
nos mapas da vida vadiagem
o sangue que me ria pelo tempo.

buscasse eu a memória com a mesma
limpidez com que escrevo o silêncio dos lábios
faria da palavra um cais de remanso

ou outro romance da imaginação.

josé félix in teoria do esquecimento

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sábado, dezembro 23, 2006

"[...]na dor da escuridão bordada a chagas[...]"
alice sequeira

na luminosidade sombria do quarto
morri a infância ganha no futuro.
as paredes vazias de objectos lavrados
na escritura só têm importância
na possibilidade da reinvenção

de vozes infantis, do sol que vem
da clarabóia, do tecto de zinco,
ou da mão nua e quente de minha mãe
que me alisa pedinte o corpo puro
no banho do mês de março do sul.

como é serena, assim, a morte feita
literatura, mesmo se dói de imaginação
acompanhada de um requiem de verdi
ou de mozart, com as mãos em cruz como os cristãos,
aguardando que o tempo deixe de ser tempo

e seja só uma falácia como a luz
que entra no quarto que eu ensombro
talvez por uma questão de conveniência.
kyrieleison confutatis, confutatis.
como apetece a morte ouvindo as vozes

religiosas, longínquas, perto
do poder de decisão e fazer
nada, absolutamente, e deixar
que me morra também a fala do silêncio;
das árvores o cheiro, e dos pássaros

que pernoitam nas árvores as asas
que desenham no céu as linhas possíveis
da vida que voando vai caindo
na falésia íntima de uma oração
silenciosa sem rogo sem religião.

no quarto, a habitação do sonho lúdico
jogo perfeito de reflexos da morte.
tenho saudade da não existência
da perfeição da luz na sombra da vida
e duma paz que me sorri morrendo.

josé félix

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terça-feira, dezembro 19, 2006

O meu veneno

Festa natalina e o Hanukah

Cada vez mais, as festas religiosas judaico-cristãs no seu aspecto formal, exterior, se vão parecendo umas com as outras.
Sem querer fazer qualquer juízo sobre factos históricos, até porque seria difícil de confirmar a afirmação, eu diria que a festa natalina que actualmentese comemora, com a profusão de luzes nas cidades de muitos paises deste palneta, é uma cópia do Festival das Luzes judaico ou o Hanukah. O Hanukah comemora a vitória dos macabeus sobre as tropas sírias, em 186 a.C de modo a que os judeus pudessem exercer os seus ritos religiosos. É também chamada de Festival das Luzes. O candelabro tem oito velas e acende-se uma vela por dia porque foram 8 os dias que durou a invasão comandada pelo rei Antiochus IV. Este ano comemora-se na mesma altura da comemoração do natal cristão.
Àparte estas considerações comemorativas continua-se a consumir com exagero precisamente em relação aos presentes que damos às crianças. Dá-se em quantidade tal que as crianças perdem o interesse no brinquedo no minuto imediatamente a seguir à oferta.
Os brinquedos devem ter uma função lúdica e despertar o interesse continuado. Se não é assim não vale a pena dar o que quer que seja. Amor e carinho são as melhores ofertas neste planeta conturbado por conflitos onde elas, as crianças, são as que mais sofrem com a perda de progenitores e outros familiares colocando-os, irremediavelmente, numa situação de exclusão social.
Desejo a todos os meus leitores Boas Festas e que o futuro lhes traga mais veneno para poder denunciar o lixo que se vê transbordar dos caixotes da política nacional e internacional e defenderem-se das sangessugas de impostos, dos bajuladores, dos petulantes, das «conversas em família» dos governantes e de toda a escumalha que abunda por aí, aqui.
Sobretudo que o futuro vos muna de armas capazes de lutar contra esse outro veneno, e pior do que o da teia da aranha que é o das democracias modernas: quero, posso, mando, esmago com o poder inepto, inócuo do povo.
Termino com um poema de Afiz ibn Amahd Kuzmãn.


do alto das almádenas


a minha casa é a tua casa

a tua mulher
é convidada da minha mulher

bebemos chá de hortelã e juntos
bendizemos deus quando o muezin
nos convida à oração.

os nossos filhos brincam em conjunto
quando lemos o mesmo livro

e nada nos diz
nem a sura nem o vizinho
para que um de nós levante a espada
e fira o olho do outro.

afiz ibn amahd kuzmãn


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quarta-feira, dezembro 13, 2006

O meu veneno

Canções de bandido

O lixo de Carolina Salgado continua a vender-se e, penso, ter-se-á esgotado num esfregar de olhos. A lixeira social fica mais rica com as declarações e com a presença de tal abencerragem nas colunas sociais, na Comunicação Social, em toda a imprensa escrita, radiodifundida e televisionada. O saco de lixo fica completo com os lixófilos e adictos do que de mais torpe se faz e publica neste país.
O governo português vai criar uma empresa pública para gerir tudo sobre transportes, salários e mobilidade de funcionários. Vai começar, creio, pelo ministério das finanças, e seguir-se-ão outros ministérios e departamentos governamentais.
O Governo não sabe governar. É preciso criar uma empresa para governar aquilo que o governo do Estado deve fazer. O melhor é criar mais duas ou três empresas que levem o resto do salários daqueles que trabalham e desfaça-se o Governo.
O salário mínimo nacional em 2011 vai ser de €500,00. Vai continuar a ser o salário nacional mínimo mais mínimo da União Europeia. A propaganda só tapa os olhos daqueles que não querem ver. A propaganda não desenvolve o país, não aumenta o PIB nem a produtividade.

ao jorge arrimar
a fala do silêncio

tenho a água que resta
da sede que me coube em partilha.
cada gota na língua é um nódulo
íngua de ferida que renasce
em cada limo.
pertence-me esta sede, benévola
liturgicamente guardada no pólen
dos lábios, na fala do silêncio mais íntimo
onde a humidade afaga o húmus
o fogo da semente da primeira palavra.

josé félix



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sexta-feira, dezembro 08, 2006

"[...]como se o tempo dependesse da
condição humana
[...]"
jorge vicente


como sabes tão bem ó jorge de sena
é que é da condição humana em que
é travestido o tempo da açucena
que nasce dentro deste tempo funky

toda a miséria do homem que produz
a bestial vivência mascarada
de boas intenções e que conduz
à social besta que rasteja e enfarda

qual verme vil balofo e suplicante
o ouro que satisfaz os olhos vómitos
da boca envenenada num instante
tal qual os caminhantes parasitos.

eu não desejo nada quero nada
tempo flor corpo tudo é ossada


josé félix

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segunda-feira, dezembro 04, 2006

rivandu ria ngiji, nguzu ia jipandu 1



jiboiei meu sono
na esteira de luando.

na cacimbice da noite, kalunga
sorrateira, no xuaxo das palmeiras,
acaricia meu corpo, leito de correntezas
e sonhos que naufragam marginais.

kianda viaja-me nos capinzais:
percorro rios, acácias, quiçaça
cucos-feiticeiros. no sabor acre das gajajas
ouço a voz do leão
e no amanhecimento do sol
os pássaros voam
sobre os cabelos da chana.

do leste regresso à água.
da transparência da imagem
vêm lamentos de cazumbi
que marimbondam no peito.

da margem olho
a natação dos peixes.


josé félix in teoria do esquecimento


1 - "a rebeldia do rio é a força das margens" José Luandino Vieira, "DE RIOS VELHOS E GUERRILHEIROS, O Livro dos Rios, Editorial Caminho S.A., outras margens, Lisboa, 2006, p.p.16


Nota: a língua kimbundu, falada na província de Luanda e de Malange, terra dos Ambakas, presta-se, como todas as línguas bantos à plasticidade quando aculturada com outra língua, no caso presente com a língua portuguesa.
José Luandino Vieira, utiliza como magister essa capacidade plástica que levou o estudioso Salvato Trigo a escrever uma dissertação de doutoramento sobre a linguagem plástica de Luandino [Salvato Trigo, Luandino Vieira, o Logoteta, Brasília Editora, Porto, 1981].
É nesse sentido que utilizo essa natural plasticidade das duas línguas para a construção do poema. Essa plasticidade deve conjugar com a capacidade do autor em recolher da semântica de cada palavra (português e kimbundu) para (re)criar uma outra dando-lhe quer monossemia e/ou polissemia.

Há palavras que soam ao núcleo familiar da língua, outras são apenas parentes; ainda outras, (re)criadas com o devido respeito pelo étimo.

kalunga - deusa da morte
kianda - deusa das águas
quiçaça - mato rasteiro e fechado (esta palavra não existe em todos os dicionários da língua portuguesa; há sempre um, ao qual recorro, o chamada Dicionário de Moraes até à 9ª edição porque depois desta edição os fazedores do dito esqueceram-se de que existem muitas palavras da nossa língua
cazumbi - fantasma

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