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segunda-feira, março 26, 2007

O meu veneno

O maior português de sempre

António de Oliveira Salazar foi eleito o maior português de sempre. Governou Portugal com mão-de-ferro controlando a vida de todos os cidadãos através de uma polícia política criada para defender o regime que colocou na sombra, quer com a prisão longa de muitos intelectuais, quer com a exclusão pelo exílio.
Num país de burros e de sacanas, como o disse Jorge de Sena, não foi de admirar este resultado que todos previam e os Gato Fedorento tão bem glosaram no próprio dia da votação. Esta, de base científica duvidosa, como muitos dos estudos feitos em cima do joelho, teve os seus detractores e os seus defensores: todos intelectuais, da direita à esquerda sociopolítica.
Em minha opinião este resultado tem o valor que tem, e pronto. Uma coisa é certa. Não se pode, nem deve, destruir algo que faça parte da memória colectiva de um povo, ou uma personalidade que faça parte da história desse povo, para o bem ou para o mal. O que interessa são os factos. Os factos estudam-se, pesquisam-se nas bibliotecas, e na cedência de manuscritos pelas instituições que os têm guardados e que, até agora, não foram abertos ao estudo dos pesquisadores, não se sabe muito bem porquê, com o beneplácito até do Partido Comunista Português. Sabe-se que muitos agentes da polícia política do regime de Salazar e Caetano se distribuíram pelos diversos partidos que se constituíram após o 25 de Abril de 1974. É sempre assim; foi sempre assim; será sempre assim.
Envergonhada, a RTP nem sequer colocou o resultado em tempo real no sítio da Internet, nem está lá agora, muitas horas depois de ter terminado o veredicto.


vita brevis

caem do telhado
em desenhos de água
as palavras que
se furtam ao sol

num lamento débil
soltam do salgueiro
finas transparências
as eternidades

que se vão partindo
espelhos narcisos
numa fixação
que é tão luminosa

quanto é a brevidade.

josé félix

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quarta-feira, março 21, 2007

O meu veneno

Ditos populares, a mediocridade e a incompetência.

Há três ditos populares que caracterizam o povo português: gato escaldado da água fria tem medo, depois da casa roubada, trancas na porta e de boas intenções está o inferno cheio. Estes três ditos populares estão intimamente ligados à mediocridade e à incompetência. É vê-las, por aí, de braço dado, em tudo quanto é obra pública, na educação, na saúde, na preservação do ambiente, na manutenção da orla costeira.
Um caso paradigmático é a preservação dunar na Costa de Caparica, onde as marés vivas todos os anos têm feito estragos enormes sem que o poder instituido tenha movido uma palha para suster, ou minimizar, o avanço do mar; nem agora, que a força da água destruiu parte do pontão de areia e alagou os parques de campismo de Lisboa, Inatel e GNR, aparece alguém com competência, e competente, para mover meios de resolução do problema.
O Governo demite-se não aparecendo no local através do ministro da tutela. Não aparecendo, o problema não existe. Isto passa-se em todos os sectores da vida pública e o povo não acredita.
Por isso é que num concurso de personalidades portuguesas, feito através de televoto, de eficácia duvidosa, para saber quem é o melhor português de sempre, o Professor Doutor António de Oliveira Salazar, ditador que governou Portugal durante mais de quarenta anos, está em risco de vencer aquele concurso, à frente do fundador da Pátria e de outro, não menos ditador que o primeiro, o Sr. Álvaro Cunhal.
Aqueles ditos populares ajustam-se plenamente à mediocridade e à incompetência que assola este povo que passa a vida a brincar aos países no jardim à beira-mar plantado.
Um àparte: há cada vez mais alunos a quererem aprender a língua castelhana.


o teu oráculo


inclinas sobre as perguntas
a voracidade do tempo.
o teu olhar é o enredo de penélope
que sublinha sob as ondas
na guia do olhar garço de atena
o caminho de ulisses.

deixa falar tirésias e os deuses
e segue o teu oráculo
preso nos lábios.

josé félix

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sábado, março 17, 2007

O meu veneno

Para quem ainda tinha alguma dúvida, aí está o sector privado a acupar o espaço deixado pelo Serviço Nacional de Saúde: as urgências. Ora são grupos económicos ligados à Santa Casa da Misericórdia, ora são outros grupos privados que assim vêem mais uma fionte de lucro com a saúde dos contribuintes que já enchem os cofres do Estado com os impostos sacados à miséria salarial dos trabalhadores portugueses.

à noite as sombras
movimentam-se noutras sombras
sob a estranha luminosidade.
flashes de luz perdem-se
na fala dos inocentes.

josé félix

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quarta-feira, março 14, 2007

O meu veneno

Os erros na Comunicação Social, principalmente na televisão pública que deve informar / formar, são imperdoáveis. Dizer que o poeta António Jacinto, angolano nascido na cidade de Golungo Alto, em 1924, é são-tomense, é coisa que só passa pela cabeça de gente mal esclarecida. Não se deve trocar a nacionalidade a ninguém, principalmente a um homem de letras como António Jacinto que foi ministro da Cultura do governo angolano. O provedor do telespectador avisado pelo signatário desta prosa terá que informar a Direcção de Programas, o realizador ou a realizadora do programa "Príncipes do Nada", da nacionalidade do poeta e, assim, repor a verdade.
Há cada uma!


para além

viveu sempre como um girassol claro.
iluminava o dia como um relógio,
e nas noites estranhas à melancolia
bebia restos de sombras
fugidas à iluminação dos ponteiros.
até que um dia
o pedúnculo cedeu na engrenagem crónica,
e hoje vai cedendo feixes de luz,
quando descem as águas pronominais
no caminho tortuoso da perfeição da morte.

josé félix

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sexta-feira, março 09, 2007

O meu veneno

A economia das palavras

Os discursos institucionais de hoje ainda não perderam o carácter deferente que se utilizava no Estado Novo. Foi simplesmente ridículo o início do discurso do Presidente do Conselho da Administração da Rádio Televisão Portuguesa na comemoração dos 50 anos de existência. Foram 3 minutos e 30 segundos a anunciar as Excelências, as Eminências, os Deputados, os militares, os ministros convidados e outros que não deviam lá estar. Mais comedido foi o Presidente da República que em 15 segundos disse quem lá estava.
Ora, num país democrático onde todos são iguais perante a lei basta dizerem " Senhoras e Senhores convidados".·O programa das comemorações também foi fértil em períodos mortos acabando por criar o desinteresse em milhares de telespectadores que esperavam, creio, um programa sem a amostragem de «sempre os mesmos», mais virado para o futuro, com gente jovem a sobressair no espectáculo. Triste!






no dia das perguntas

no dia das perguntas pediram-me as mãos para saber do que falavam apesar de terem estilhaços de espelhos com pedaços de gestos franqueados pelas margens do vidro. havia tudo, até o sangue das magnólias que morreram esta manhã e não quiseram esperar o sortilégio de quem, por hábito, se move na palavra com a iluminação das flores. perde-se o ritual do olhar e da conversa diária, a rega de compromisso desfeita pela eutanásia do pólen. um vaso de substituição espera algures o crescimento das pétalas presas, como sempre, numa corola frágil num lábil pedúnculo.


no dia das perguntas só há uma resposta dita pelo sopro da ventania: a morte.

josé félix






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quarta-feira, março 07, 2007

O meu veneno

País de brandos costumes


É, sempre, por alguma razão ou por todas as razões, que se diz que Portugal é um país de brandos costumes. Senão vejamos: ─ Não se vê com bons olhos que os padres casem, mas as beatas das aldeias mais recônditas do território dizem que o padre também tem direito a ter uma mulher; o Governo português assinou e aceitou o protocolo das Nações Unidas para o fenómeno da corrupção mas esqueceu-se de entregar àquela organização o respectivo relatório; os ministros, apesar de declararem os rendimentos na altura da chamada para o serviço público saem mais ricos; os autarcas acusados de corrupção e arguidos em processos de «saco azul» e «apito dourado» são eleitos pela maioria dos cidadãos das respectivas freguesias e municípios; diz-se que se a dívida à Segurança Social dos clubes de futebol e grandes empresas fosse liquidada, o sistema de saúde pública ficava com saldo positivo e ninguém faz nada; o Gato Fedorento foi proibido pela administração da Rádio Televisão Portuguesa de criticar o Telejornal e todos se calam; se um polícia apanha um ladrão em flagrante delito que foge e apanha um tiro, o polícia vai preso e tem que responder por ter gasto uma bala com o prevaricador.
Não sei se é bom ou se é mau o Ministro da Saúde ter recuado perante as manifestações de populares contra o encerramento de várias urgências básicas nos hospitais e ter assinado protocolos com as autarquias.


a iluminação das naves

descansas a paciência
na trave do rosto. o tempo,
no templo feito silêncio
com o oráculo da boca
a denunciar tirésias,
está na sombra dos lábios
com a oração suspensa.
o olhar é a iluminação
das naves quando o sol
vai desenhando nos claustros
a súbita admiração.

josé félix


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quinta-feira, março 01, 2007

O meu veneno

O circo é o local onde os indivíduos, crianças, jovens e adultos, se sentem bem. É lá que todos rimos esquecendo-nos de algumas coisas, lembrando-nos de outras. Sucede que tem havido circo semanal na Assembleia da República e os palhaços, que devem ter um ar brincalhão com as pinturas faciais a exagerar os esgares e as vascas, têm um ar triste, muito triste que nem o citoyen (cidadão) mais predisposto para a brincadeira consegue esboçar um sorriso.
Os discursos têm uma quantidade de lugares-comuns, a oralidade dos intervenientes é fraca e o Discurso da Nação é uma blague para entreter os aprendizes de comédia aperaltados, sonolentos, enfatuados.
Afinal há "algo de podre no reino da Dinamarca" (frase de Hamlet na peça "Hamlet", de Shakespeare .








O teu corpo é a mão que se dá
e que recebe dos deuses o sopro da semente.
Com beijos mil de Lésbia na presença de Catulo
dou-te a minha fala e o meu silêncio.

É preferível a tua concha
à colheita de papoilas no Maio entre as faias
guardando a linguagem dos pássaros
no teu colo
desenhando-me com os dedos
de inocente messalina.

josé félix


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