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domingo, junho 17, 2007

O ácido e o fruto - entrevista sobre pedras e sobre o pó que elas dão.

"pego na pedra. as minhas mãos meninas tocam-lhe as arestas; eróticas, aliso-lhe as protuberâncias na imaginação láctea, e, num sussurro, o sexo abre-se à fantasia do gesto. uma pedra não é uma árvore. a árvore é o elemento perfeito da obra: cria, recria, renasce de pau tosco a flor mais bela, o fruto; rejuvenesce a folhagem na ruga do tronco. a pedra é a substância imaginária da construção poética, da imitação da existência. a pedra é o pó que se diverte entre os dedos quando na força da penetração possidente se desfaz naquilo que sempre foi: matéria viva no cérebro em construção. a pedra até pode ser uma árvore; basta que a queiramos. uma árvore nunca será uma pedra"

? - a pedra. leio este texto e pergunto: ─ para que serve a poesia?

jf - é uma pergunta à qual eu me questiono sempre. a poesia é a pedra que se transforma no imaginário do construtor de conflitos. eu conflito, todos conflituamos. a poesia é a desconstrução da realidade. é a imaginação de outra realidade, de muitas realidades, das realidades que se confrontam. um poema é uma pedra, granulosa, porosa, compacta, conforme, disforme. um poema é uma construção caótica, pretensamente ordenada em versos, com sonoridades rimáticas ou não, com rima ou sem rima. um poema pode ser uma bomba de neutrões ou uma bomba de hidrogénio.

? - é recorrente nos seus poemas a fala da morte através da utilização de alguns signos como a árvore, a flor, o pólen, o pó.

jf - há duas coisas na vida de que vale a pena escrever: amar e a morte. o acto de amar é uma acção antemortem: depois dos gestos, que permanecerão na memória durante algum tempo e que originam discursos poéticos, amar é o caminho da vida para a morte. a vida não tem qualquer interesse se não for acompanhada, mentalmente, da morte. a morte é a deusa invisível, omnisciente, omnipresente. a morte está presente em tudo: em rasgar uma simples folha de papel, na poda das árvores, nas queimadas, no incêndio, na voz que sai da garganta e atravessa a boca e no som que desaparece, mesmo que haja um milhão de interlocutores e ouvintes. as palavras vão morrendo no tempo. a biblioteca é um depósito de coisas mortas que regressam, algumas, à vida, temporariamente, através do interesse de algum estudioso.

? - pode dizer-se que a poesia é um grito da humanidade?

jf - a poesia, quando muito, será um grito surdo. a poesia não tem público, tem leitores. o interesse da poesia advém, precisamente, por não ter interesse nenhum: não dá de comer, não alimenta os milhões de esfomeados que há no planeta. a poesia só é importante na medida em que ela não serve para nada. da poesia servem-se os milhares de críticos literários, os tratadistas da linguagem, os intérpretes oficiais, do regime literário que, em prosa, vertem a verborreia construída na leitura e no estudo de alguns livros, criando conceitos disparatados acerca da construção poética.


? - há poesia em tudo?

jf - não. não há poesia em tudo, ou seja, não há poesia. a poesia é uma construção de linguagem feita e utilizada por um pai: o autor. a poesia é a invenção da escrita, da escrita total. aquilo que mais se assemelha à poesia é uma árvore que nasce da semente, que dá caule, folhas, flores e frutos; que morre e renasce da mesma maneira. a mulher é uma imitação grave da poesia mas é o que mais se aproxima de uma árvore.

? - então qual é a razão por que se continua a escrever poesia?

pela necessidade que o homem tem de subverter o sistema. a poesia é a diferença. a prosa fala de acontecimentos. a poesia cria acontecimentos. a prosa sugestiona, a poesia é.

? - tem havido algumas críticas acerca da forma como os autores mais recentes escrevem um poema. não utilizam as formas clássicas como o soneto, a ode, a écloga, a canção.

jf - eu não acho que um poeta tenha que escrever somente nas formas clássicas. a poesia começou por ser oral e só depois é que veio o ritmo e a rima cantando os versos ao som de instrumentos musicias. eu não tenho qualquer problema contra nem a favor. escrevo sonetos e vilancetes; utilizo a redondilha, menor e maior, versos heptassílabos, hexâmetros. quanto a mim todo o verso é livre. só não prescindo do ritmo. um verso é uma frase com ritmo.

Vilancete

ao cuidar teus olhos
o tempo permite
reter o que parte.

é dos tempos idos
que fiam furtivas
as águas cativas.
olhos consentidos
reflectem contidos
a vida com arte;
reter o que parte.

Diálogos com T. S. Eliot no Sul dos Sol

1. uma gaivota

uma gaivota roçou-me no cílio
como se fora a ponta de um pavio
e quando o sol crescia todo o exílio
iluminava a quilha de um navio.


2. nas asas do sol


ícaro voa nas asas do sol
e o sul espalha na água o reflexo
do barco marisqueiro em rodopio
no banco de areia em baixa maré.

os cirro-estratos de um céu impossível
de tanto azul escondem o velame
da marinhagem feita em labirintos
para um fio de ariadne caprichoso

que se enovela como teia firme
no perspicaz enredo que dos deuses
só saem os nós cegos escondidos

na minha cnossos. minotauro fujo
invento voos, dédalo entoante
sempre enredado em viagens de novelo.


3.um amor escuso


na açoteia há um amor escuso.
espreito pela janela do lado de lá
onde a costureira ensaia um corpo jovem
num vestido cor púrpura.
os cabelos caem-lhe nos seios
como dedos a desenhar dunas
nos frutos oferecidos com um sorriso.
no sul de agosto até os deuses
condescendem na visão da carne
um corpo nu gratifica a beleza
e faz efémero o tempo do desejo.




4.bebedeiras de sol


quando puseram a fotografia
na lápide
não sabiam do teu sorriso irónico do sul
o sol nos olhos e aquela frase, se bem me lembro
«josé, põe a cortina com os desenhos para fora
é para deleite de quem passa e olha, a construção
do gesto basta-nos»
demoravas horas a percorrer
a rua curta da sociedade até à praia
e a tua figura, grande, era uma estátua
a quem todos se inclinavam
para um bom dia ou boa tarde.

a fotografia não diz nada
é descolorida como a ausência
e a conveniência das flores
é a assinatura de um quadro falso
sob o queixo quadrado, preciso.

um dia, amigo, coloco por cima uma
daquelas fotografias de um resto de álbum
e quando vier ver-te no chão da memória
sorrirei sempre contigo por rerum omnia.
até lá me baste o vinho
e a lembrança de noites que julgámos perdidas
no cheiro da hortelã e do borrego
em bebedeiras de sol
e um sorriso aberto do tamanho das águas.


5.búzio de conversa

I

tens a pesca nos olhos e a certeza
de um mar vazio
as promessas do sul cavam nos braços
a linguagem da rede, o peixe
o alimento da freguesia
enquanto as andorinhas passareiam
voos crepusculares nos beirais
arabescos das ruas moçárabes, estreitas.

é sempre a mesma viagem
para são lourenço, marrocos, mauritânia
ou nas idas e voltas para bordéus.
ah a viagem para o norte
«quando ia para bordéus ia pondo mais roupa de cada vez
quando vinha de bordéus ia tirando cada vez mais roupa».
a surpresa da temperatura
no caminho do norte, no caminho do sul.

II

na praça da fuseta, manuelzinho
não precisa de explicar nada.
os olhos navegam cada pedra e cada pássaro
que se acoita na palmeira envelhecida.
um músico ambulante da roménia toa marchas
pasodobles na corneta envelhecida
ao ritmo do piano electrónico
e os turistas de ocasião, com copos de cerveja
gritam olés como se estivessem em terras de espanha.
o al-gharb o outro lado do andaluz
sem o cante hondo mas onde sobressai
a amendoeira e a alfarrobeira e a laranjeira
e a tez morena do sul e aquele olhar de longe
à procura de um peixe ou de um navio ou de uma mulher.

III

as ruas em búzios de conversa
só dizem de pescarias e de navegações
de lemes e de redes, de alcatruzes e de polvo
até que a âncora encalhe e prenda
e solte e agarre às rochas
e um adeus curto adie a fala
até à próxima maré.


6.no fio da noite


no fio da noite o sul é mais longe
do que abarcas para além do olhar
e quando principia a madrugada
porque às vezes os deuses são benévolos
cantar um poema com as mãos roçando
na copa do alecrim com a displicência
própria de quem vê o peixe no mergulho
breve do canal pleno de navios
quando o sol se planta à tua frente
e vem de ti a sede das laranjas
um bocejo é a sombra nas colunas
do cais com cheiro a morte e a maresia.
passam crianças, gestos cristalinos
enquanto a mulher se oferece rindo.


7.a bebida das palavras

dez horas da manhã e uma criança
oferece-se à lâmina do cais
e na voz arrastada pede o que lhe dão
aos gajés turistas que ficam mais pobres depois de agosto.

emília tinha uma casa e um carro.
uma segunda casa, uma tenda de campismo
e dois filhos azuis com caracóis camomila

foram dias de sol e sul
de frutos frescos, de peixe na brasa e amasias.

o verão foi mais curto do que antes.
regressou ao porto com os filhos em desmazelo
sem tenda de campismo, sem o sol nos cabelos
e com o cheiro de outra mulher na última noite de sexo
nas costas do bar
e uma laje de memórias em construção.

caduca, a vida é como este poema que te lembra
enquanto for bebida as palavras que cobrem a vida.


8.o sol do sul

o sol do sul na janela
traz um sorriso de mulher-
vem como um relâmpago
em noite de tempestade sulina.

lembro-me de te ter beijado o sexo
e com um raio de luz intenso
gravou para sempre o primeiro sabor.

quando a sede reclama e o sol
e o sul se interpretam
regresso sempre à árvore para colher o fruto
e tu mastigas pétalas de flores violetas.


9.no sul de tanto olhar

não há nada mais sublime do que pôr
o olhar na verticalidade do infinito
que pode ser a curvatura interior
de uma abóbada
ou a esquina dos olhos
na parede branca.
ambas te dão a sensação de deus
embora pareça interiorizar-te
uma sobre valoração do cosmos.


olha para ti e o que vês
igualmente deus e o pó
no sul de tanto olhar o sol cegamos.


10.apesar de tudo

sinto o pó nos dedos
sempre que o sul me dá a raiz da árvore
e mesmo que a luz do rosto se apague
apesar de tudo.


"Geografia da Árvore(a reinvenção da memória) Múchia Pulicações Lda. Col. Poéticas de Lav(r)a, Funchal, 2003

deus perdeu-se na esquina da cidade.
foi encontrado a mastigar chicklet
detrás do muro de uma propriedade
com jornais velhos em tinta de offset

a cobrir-lhe nas pernas a ferida
seringada de heroína martelada.
as muitas chagas têm a medida
de vida feita, vária, coroada

de flor e aroma na lente reflexa
da dor omnisciente, tão complexa
que vai doendo o mundo à gargalhada.

enquanto deus diverte com sabida
vaidade um charro feito na parida
noite, um homem morre na alvorada.

deus vai calando a noite em dias mortos.

(inédito)



? - o que pensa da utilização das metáforas?

jf - a discussão acerca da utilização da metáfora é tão velha quanto o nascimento da escrita. a metáfora implica uma comparação. para não se fazer de uma forma directa utiliza-se utilizando a parábola, a alegoria, a similaridade. eu utilizo signos, algumas metáforas e sou tanto acusado de ter uma escrita por vezes cerrada, outras vezes barroca, mas também tenho muitos leitores, e são a maioria, que entendem a escrita como uma forma de conhecimento e, através dela, o adquirem consultando a literatura adequada. por isso eu digo que a poesia é. o leitor se não entende tem que procurar fontes para descodificar a linguagem do autor.
a preguiça intelectual é que pretende subverter este estado de coisas que está sempre em movimento. o facilitismo ganhou, nestes últimos anos, um pedestal do qual é preciso ser apeado para não ganhar foros de regime. a maioria dos poetas, que são pu(e)tas não sabe escrever um soneto. não sabe o que é um vilancete ou uma écloga; não tem a noção de ritmo. alguns pensam que escrevem um poema e nada mais é do que uma notícia que pode sair em qualquer jornal diário. há uma grande falta de criatividade. é a poesia «fast-food».

? - então é adepto da utilização de todas as formas para se escrever um poema

jf - não sou adepto nem contra. qualquer forma é uma forma de escrever um poema. um soneto, uma ode, uma quintilha, uma sextilha ou sem ser em nenhuma destas. o que é preciso é que se escreva bem, muito bem.


? - isso tem que ver, de alguma maneira com a modernidade?

jf - é evidente que tem. ser moderno é ser lido daqui a cinquenta, cem anos e o leitor da altura ter a noção de que o poema que lê podia muito bem ser escrito na época em que vive. camões é um autor moderno. alguns autores anónimos da poesia do antigo egipto, de há 4.500 anos, são autores modernos. os poetas árabes do al-andaluz, como al mutamid ou ibn amar são poetas modernos. dante é um poeta moderno. há poetas chineses como han-shan ou li po que são modernos e viveram nos séc. VII e VIII.



vive o resto dos dias com o aroma da flor
consome cada pétala como sendo a primeira

aurora de entre muitas. verás que a vida tem
o pólen necessário para manter acesa

a seiva interrompida. a folha renovada

epígrafe de "Geografia d Árvore) a reinvenção da memória

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