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quinta-feira, outubro 18, 2007



O meu novo livro "intima loucura", edição de autor saiu em Setembro. Sem pompa nem circunstância, como sempre, tem sido divulgado nos meios de comunicação possíveis, nas tertúlias de estudantes, nas bilbiotecas universitárias e municipais, em algumas escolas. Está à venda na cidade de Horta, na Ilha do Faial, Açores.

A maioria dos leitores de poesia são os poetas. Também os maiores divulgadores de livros de poemas são os poetas. Por isso é que a poesia não tem público. A poesia tem leitores. É um número reduzido de leitores que se dedica à leitura de poemas. Quanto maior for a iliteracia de um país, menor é o número de leitores, por conseguinte, menor ainda o núumero de leitores de livros de poemas.

Apesar de tudo, na dimensão geográfica e literária onde me encontro, não me queixo da falta de leitores nem de ter conseguido uma certa conceituação nos meios onde a divulgação é mais directa: a Rede.

Sobre o livro, e porque o leitor é quem (re)tira das palavras do autor as sensações, ou cria-as através da leitura, deixo uma análise do Francisco Coimbra, de Ponta Delgada:

Dia 1 OBJECTO VIVOA consciência da minha inconsciência, é a minha consciência. Sem dialéctica não há ética poética, a única que existe. Porque a Moral, outra palavra para a Ética, é apenas uma grande palavra se não for vivida intimamente. A nossa intimidade é um magma, um cadinho onde caldeamos todos os sentidos e o seu significado, numa operação programada por uma estética da realidade, um gosto: gosto da autoridade - tenho tendência a ser reaccionário, ir contra a mudança, ser sectário, ter horizontes limitados, não gostar de pôr em causa a ordem estabelecida a menos que nela se veja uma desordem implantada; não gosto da autoridade - respeito a democracia, aprecio novas ideias, dou atenção aos diferentes pontos de vista, vejo a inteligência como um permanente e profícuo desafio, reconheço a instabilidade como fazendo parte do equilíbrio natural das forças da natureza aos humores humanos, esse magma pessoal e social. Dizer que se gosta da autoridade e se respeita a democracia, é apenas uma daquelas afirmações suspeitas onde se ignora a “má consciência” dando voz a uma “boa consciência” que talvez se admire mas como alheia, recolhendo-se como sendo uma boa ideia. Ou seja, dirá o que pensa mas não consegue verdadeiramente sentir e, como tal, talvez diga o que pensa e pense sentir o que diz, não convence. Isto é problemático para a democracia, a maioria das pessoas gosta da autoridade de... Deus, Pátria, Família do… Pai e da puta-que-os-pariu!... A democracia um exercício chato, uma responsabilidade aborrecida, uma obrigação que talvez valha a pena... para ter - Liberdade sem verdadeiramente a desejar - ser, sentir, viver.Ocorre-me dizer isto como forma de abordar a poesia necessária para se compreender a Poesia, uma outra consideração prévia prende-se ainda com o porquê de estar com estes dislates onde me dilato. Sem asneirar, acertar é o quê? Em poesia, o certo é o errado! O errar, o evoluir, o transitar, o traduzir e saber que a tradução é a única realidade duma língua ideal para o real da Língua, duma Língua ideal para a realidade da fala dessa língua: na leitura e no ler, no interiorizar e no exteriorizar!Não tenho paciência para os críticos, são uns cretinos. Como estou em vias e na via de cretinar, é bom que diga da importância da actividade crítica. Ao dizê-lo direi quem são os críticos que respeito, admiro e gostaria de cultivar, mesmo sendo a sua raridade rara, inusual e invulgar. Procuro sair deste pântano de adjectivos, vou colocar a minha certeza onde ela é engolida pelos adjectivos já mencionados e outros. O verdadeiro crítico começa por criticar a crítica para a poder situar com verdade onde ela se dá para se anular, opinião duma opinião: a verdade duma inverdade, a defesa dum condenado condenado…, a filosofia dum sofista: defendo o que me dá prazer e riqueza de argumentos para advogar isto ou o contrário. Seja o que disser, poderia dizer uma coisa diferente, para dizer a mesma coisa. A coisa que vou dizer é que gosto, dizendo o que gosto, não dizendo o que não gosto? Não, se houver algo que não gosto, direi, para aumentar a credibilidade do que gosto. Se gostar de tudo por igual, lá se foi o sentido crítico para o galheiro...Nesta altura o autor deve estar a desesperar de esperar ler alguma coisa sobre o seu livro, o leitor deve estar a pensar o mesmo. Eu também já me começo a cansar, o que quer dizer que... Ainda não é desta, falta-me abordar uma ideia inicial: quem lê livros de Poesia? Isto é dedicado ao autor, a mim e aos leitores de livros de Poesia: nós e os outros, num venha a nós de todos: os leitores de livros de Poesia.Vamos admitir que haja um filósofo, algum leitor atraído para esta prosa, curioso por saber o que se diz dum livro de Poesia. Acham que tal filósofo existe? Talvez, porque não? Mas é o porque sim que questiono, porque faria isso? Haverá alguém que leia um livro de Poesia para passar o tempo, para se distrair como quem lê uma ficção: romance, conto, anedotas, notícias? Se houver, não está a ler poesia, estará a ler Poesia porque qualquer leitor distingue os versos. Estará a ler frases onde há versos, estará a procurar os temas e ideias onde houve poesia: Sim, Não? Não, estará a fazer o quê!?... Posso questionar se houve ou há poesia num livro de Poesia, como saber não sendo poeta?Os livros de poesia só são lidos pelos poetas, aprendizes de poetas ou amantes de Poesia. Se os poetas e os aprendizes se confundem através da identidade comum de fazerem versos, os amantes de Poesia ou já foram aprendizes ou são melómanos que não sabem tocar um instrumento mas descobriram dentro de si um maestro paralítico. Quero eu dizer que não são uns fãs semelhantes aos milhares de miúdos ou graúdos amantes da música, amantes de museus e exposições, amantes da arte em geral. São escritores em potência da própria Poesia, o que transforma a Poesia numa arte particular que diria perfeitamente fora do comum, autónoma (isto dá pano para mangas, pernas, costas e peito, sobrando para uma vela de veleiro)! A Poesia exige do leitor um intérprete e não, como todas as outras artes permitem, um leitor, um ouvinte, um observador curioso. O amante de Poesia, se não sabe nem quer tocar um instrumento, é um maestro. Agora não arrisco a imagem do paralítico, pois é um maestro movendo-se na plenitude do seu ser: alguém para quem a Poesia é poesia!Leiam-me mas não me oiçam, a partir do momento em que comece a falar do livro que vão ler ou já leram. O que é que isto quer dizer? Quer dizer que não tenho qualquer pressa em começar a escrever do livro, quando escrever sobre o livro, a propósito do livro, é este sem-fim sem fim: esta espiral em movimento.O problema da crítica é que ela sempre toma o livro como um objecto morto que se começa a dissecar, ou então não é crítica e toma o livro como um objecto vivo a partir do qual se começa a improvisar. Dito isto, é o que tentarei fazer. Dia 8Leio “íntima loucura” numa espiral onde se replica até ao infinito este nome preso numa grelha, como se grade fosse e prisão pudesse prender palavras e ideias. Como sabemos pode, já que é uma mordaça capaz de impor o silêncio. O que não acontece num livro quando, abrindo-o - lendo se divisa - logo na primeira página “Poesia portuguesa”.Está bem... irei até à terceira página, na segunda ficamos a saber haver 100 cópias do original que temos entre mãos. Espero que o leitor sofra tanto como eu, de expectativa, prazer, desejo. Sim, desejo! É o desejo que nos move...Amanhã continuo, por isso..., quem me ler, esperando em esperanto ou português corrente, amanhã continuarei. Até lá, a noite, em braille, seja lisa como uma folha vazia onde a escrita amanhã possa crescer e ser... o que se verá: na página onde vou sou informado e informo «Deste livro fez-se uma tiragem única de cem exemplares assinados e numerados de 1 a 100»Mistério, segredo, leitura: não anuncio; menos denuncio o nº (interessante potência…; do livro que leio :), sagrado seja e fique! «Exemplar Nº...», a sorte é feita de pequenos nadas. Este é um livro recebido com a amizade do José Félix.Na terceira página “íntima loucura” é, decidi_da_mente, o interior da espiral.Como a minha loucura raramente me tira o sono, vou dormir com ela; amanhã continuarei a ler. Agonia por “agoniza”, o que é que isto quererá dizer?Tomemestepelo...primeiro comentário à “intima loucura”.Sim,não encontramnem um número, nemum título.«esta manhã perdi/ um gesto» éa primeira estância das duasdo segundo poema.«conheço-me/ nesta íntima loucura»são os doisprimeiro versosdo terceiro poemadum poema que, creio,será todo o livro! Caro Félix,Como esperava, a tua poesia chegou e não se perdeu pelo caminho, antes se reforçou demorando, desta vez, felizmente muito pouco tempo! Agora é que faço uma pequena pausa na leitura, para deixar a noite ser uma boa companheira que me levará ao dia de amanhã para, então..., continuar a leitura. Concluir, ideia que não tem cabimento, nem agora nem em qualquer momento quando, da poesia de Poesia lemos e temos a pretensão de falar, digo, escrever. Dia 909-10-2007 17:33:01 A Liberdade pode-se pedir, mas para a merecer, tem sempre de ser uma conquista. Pedir, só aos deuses, ou, a quem se ponha na sua condição. 4Tomo a liberdade de te perguntar se pensaste numa pausa depois de «peregrinos»? Em «rubai a Omar Kayan», imaginando a pergunta, concretizando-a no poema, que leitura lhe darias? Ocorreu-me como forma de dar maior força, desta_que... para o último verso, duma perfeição a toda a prova: «o crente vale tanto como o incrédulo.»5Passo ao poema seguinte, acompanho a leitura desta escrita... ouve, houve ovo onde a palavraprocura o caminho (como as aves,desde os ovos) 6Aproveito para escrever a observação da ausência de títulos com destaque gráfico, “bucólica” é um poema bucólico que bole, agarra e, se deixarmos... marra como um bode! Liberta a energia da poesia, da Poesia. 7Chegados à página 13, passarei para o número das páginas: do 7 para o 14.Aproveito e leio «o que da semente em fim se move» em “Sul_scrito”, para confrontar com o final «na intermitência da palavra/ semente». 14A tua palavra é frágil, forte, cheia de roturas como sóis ou luas. Directa ou indirecta, a luz da palavra chega e s_obra.«vertigem, morte, sombra, caminhos, margens, sede, «gesto que revive», ausência, lado, «eco de um sorriso»»As palavras são belas, com elas, o poeta procura, deve sempre procurar... Amor e Morte, Vida e Redenção: é o que as palavras são. 15«o sentido oculto/ das flores únicas» 16 INTER-TEXTO I Se alguém quiser saber quantos poemas tem o teu livro, terá do ler. Depois, mago ou bruxa, terá por si e para si, a magia para poder decidir. búzio hoje não encontreiuma palavratua recolhi-mecomo um búzio neste poema cheioAssim 16«caminhos acendidos/ com tanta luz que cega o sonho»Gostei da primeira sílaba: “aurora”, Parabéns!Gostei da primeira música: «as notas do piano dissonantes» 17«as mãos impossíveis», bela maneira de “vencer distâncias”, a poesia. Ou... fazer perguntas... «perguntas claras» 18«há um milhão de rotas na teia da aranha/ mas só uma conduz à morte;»Descobri-la, «descobri-la»... «até à síncope do coração» 19Ligeiro erro gráfico, no espaçamento dos versos? Mais próximos os dois últimos, sem que perceba (o) motivo.«que amadurece no entretanto dotempo» 20Aqui o título recebe destaque«visão perpétua», por causa da dedicatória? «a António Ramos Rosa» (Atingimos o meio do livro) INTER-TEXTO II atenção quis-te presentearcom uma rosa,por causa da tua atençãopara comigo, para com a roupaAssim (Mim recolheu a roupa à noite) 21(A outra metade do meio)Um poema equilibrado, rápido. Lido com as pausas, estrofado..., lido nas suas estâncias, lido com versos, lido com palavras, lido com leitura, enriquecido com a riqueza que lhe foi dada, podemos e devemos conhecer a sua alma. Não está aqui por acaso, «o eco com a maior/ indiferença.»Acontece que descanso e entro em descaso, ainda o releio mas leio tudo com evidência e perde-se ciência. Dizer o evidente não é arte, não dá o vidente. Talvez o poema o seja mas, sendo-o eu, sinto-me sem cinto nem onde o prendesse. Leio como queixa do poeta, este final: «o eco com a maior/ indiferença.» 22O livro agora é outro..., há títulos a negrito, agora é (a vez de): «o outro lado da fala».Um poema sobre o silêncio, «na miragem do silêncio o olhar», sobre o olhar? Sobre o ver e o dizer, digo eu e só lendo... «um bailado cósmico», «a outra simplicidade» «no recurso escrito da matéria» «entre os mil gestos» «para além da boca», «uma linguagem lúdica» (e fim) «trazendo o início para a flor dos dedos». 23Leio aqui uma continuação do anterior, mesmo se outro:«a sílaba desliza» 24Leio aqui uma continuação do anterior, mesmo se o mesmo e penso seja. 25Idem. 26O mesmo..., com a certeza da pausa.«às vezes»/... 27Ainda...«percebo que lês»/... 28Idem...«há um vulto»/... 29«por exemplo»/... 30Um novo poema, a negrito: «íngua de exílio», (é) uma transição. 31Apenas um título, perto do rodapé da página: «A morte é o repouso» 32(em branco) 33«Estudo nº1» 34«Estudo nº2» 35«Estudo nº3» 36(sem título)«conciliei-me com os deuses.» 37(sem título; engano ou talvez não, a negrito todo)«tenho a escrita plantada nos espelhos» 38(sem título)«na capela das ondas sétimas» 39(não numerada)Elementos técnicos do livro: autor, direcção, edição, montagem e impressão, tiragem e depósito legal 262257/07. Desde quando terá sido contado este número 262.257? 40Pim! O que se pode dizer dum livro de Poesia é o que ele nos diz, devia ser poesia. Acontece que todos somos poetas da poesia que sentimos, mas da Poesia, mesmo se a fazemos, temos/ficamos com as palavras que lemos. Como falar de palavras que estão lá, existem, são para ser lidas e podem, devem, têm de falar melhor delas que qualquer outras palavras (caso contrário valerá a pena...?)!?No que me toca, gosto de me confrontar com elas, limpá-las, chegar ao seu índice; imaginar a obra como se ela fosse tão simples e portátil como, por exemplo, uma pedra que pudesse apanhar, observar, atirar ao ar... Mesmo brincando, nunca a deixar cair na cabeça em sentido literal. Mesmo se um pequeno volume A6 de quarenta páginas, é lê-lo com os olhos, senti-lo com o coração pulsando ao compasso da leitura: uma, vária vezes. Procurar várias leituras, nenhum livro tem só uma leitura, quando lhe damos apenas uma leitura: fraca coisa (somos).Esta “íntima loucura”, Íntima Loucura de José Félix, é um “livro de poemas”. Como todo o “livro de poemas”, é um livro de Poesia. A partir do óbvio, caracterizá-lo é valorizar algo que não tem preço. Obriga a ter conhecimentos, não há outra hipótese. Não é pelo que sinto ou deixo de sentir que vou lá, é pelo que sei e quero querer.Uma boa e fundamental questão é saber o que se sabe de Poesia, muito pouco. Assim mesmo: muito e pouco, tudo junto. Se consultar uma História da Literatura da Poesia Portuguesa e aí tentar elementos para caracterizar um autor, estou a ir no bom caminho. José Félix é um autor português, escreve em português, deixa uma dedicatória central... a um autor português na obra que acabei de ler.Depois de ler, o que acho que deveria ser capaz de dizer, é reconhecer as “linhas de força” do livro: os seus temas, ideias e sentimentos principais. Isso é o que um leitor deve exigir de si, saber dar ao livro o que o livro lhe dá. Isto é uma figura de estilo... Caro José Félix,Li com muito agrado o teu livro e espero relê-lo, pois é merecedor de toda a atenção: dá-a! Vou tentar dizer o que me foi chamando.A simplicidade e o depuramento, as palavras postas a nu e a nudez do desvelar e revelar dum trabalho poético que mergulha na palavra até ser o “sema”, a sua semente a crescer na semântica onde te dás aos versos.Há sempre um fundo naturalista, a natureza, a simplicidade, a observação do natural. Este aspecto liga-se a uma presença Zen, filosofia e visão orientada para o essencial aí procurando expressão.«as cinzas colhem/ a facilidade/ do fogo» é uma imagem essencial dada por um poema central do livro, colocado como terceiro, permitindo ao leitor encontrar o título «íntima loucura» no seu segundo verso. As cinzas são as palavras, carvão, pau.!., raiz, fome e loucura da poesia que o poeta ateia, ateu ou crente. [(crente de tudo; um ateu descrente é uma aberração: como descrer do que não se crê?) ou crente (carente de crenças)]Saber se o Prometeu que roubou o fogo dos deuses para vir habitar as tu_as palavras é crente ou ateu, interessa a quem interesse. Interessa que leia o quarto poema, talvez chegue a alguma conclusão mesmo se «deus/ abandona os seus santos peregrinos». “Vertigem”, “flores únicas”, “caminhos acendidos”, uma chama onde «tenho a língua de sol na boca» com naturalidade nos conduz à justa homenagem a Ramos Rosa. O que isto queira dizer obriga a conhecer esse autor prolixo onde não há nada para o lixo, um trabalhador da palavra poética onde é obrigatório destacar o ensaísta/analista “construtor do real”.A atenção à Língua e a atenção à Morte, vectores essenciais que não aceitam qualquer aproximação redutora, por exemplo: a arte e a sua finalidade. Dando exemplo do que não se deve fazer, dou exemplo de tudo que penso que a tua poesia é capaz. Só posso e quero transmitir a minha admiração e carinho pela poesia que, fazendo, tens e dás: Parabéns, muita poesia e Paz!Com admiração e amizade,Francisco Coimbra [Farás o favor de cortar se quiseres divulgar, sobrecarrega e desvia da abordagem ao livro. Mas, aqui, ainda aqui estando, querendo dar a intimidade a tudo que escrevi enquanto escrevi, deixo ficar como mais um ENTRE-TEXTO III. Depois de anunciada a intenção, até é indiferente que fique ou não... se achares que está preservado “o essencial”: «íntima loucura».]Gostei da tua prosa poética, muito. Assim como... gostei de “SULSCRITO”. Dia 10Estamos no dia de hoje, começou já há bocado no que toca à escrita: BREVE ERUPÇÃOTenho no meu corpo a memória esquecida do que já deu fruto. Olho a frase e já não sei o que significa, fica. Acontece este alheamento do momento, havendo este surto de palavras: breve erupção. Da tua prosa poética não deixo mais que o aplauso, soltei agora “breve erupção” e entro pelo vulcão :) Ontem não consegui agradecer, faço-o hoje desta forma dilatada, onde espero perdoes dislates, mas não os deixes passar em claro! Claro, serei grato de obter a tua leitura desta leitura. Escrevi imaginando a escrita como um palco donde podemos falar do que lemos, esta peça é só escrita, a menos que aches estar em condições de soltar a fala, saltando da escrita para a leitura de terceiros. Não é o caso, já que vais ser segundo; por mim, nem à Mim confesso… :)

Meu caro Francisco Coimbra

A «breve erupção» é uma condição genial. Só os efebos da poesia é que não têm erupções, sejam elas breves ou longas. Quanto aos dislates são sempre bem-vindos, corrosivos, pedantes, irónicos, sarcásticos. Aceitam-se pelo respeito que o «outro» merece. Mesmo assim transcrevo um pequeno texto de Nietzsche tirado do ensaio Acerca da vantagem e da desvantagem da história para a vida:
Podem-se criar as obras mais assombrosas; o enxame de eunucos históricos lá estará sempre no seu lugar, pronto a considerar o autor através dos seus compridos telescópios. Ouve-se logo o eco, mas sempre sob a forma de «crítica», apesar de o crítico não sonhar com a possibilidade da obra um momento antes. Nunca chega a ter influência, mas só uma crítica; e a própria crítica não tem influência, mas gera apenas outras críticas. E acabamos pois por considerar que a existência de muitas críticas é um sinal de fracasso. No fundo, tudo fica como dantes, mesmo quando tal «influência» se manifesta: os homens falam um pouco de uma nova coisa, e depois de uma coisa nova e entretanto continuam a fazer o que sempre fizeram. O treino histórico dos nossos críticos impede que tenham qualquer influência no verdadeiro sentido do termo – uma influência sobre a vida e sobre a acção.
É aqui, depois de percorrido o século XX e começos do século XXI, que as coisas continuam na mesma. Não se fazem análises ao texto, mesmo sendo subjectivas e a actividade crítica dos jornais Diário de Notícias e Expresso cabem inteiramente neste texto demolidor de Nietzsche.
“O verdadeiro crítico começa por criticar a crítica para a poder situar com verdade onde ela se dá para se anular, opinião de uma opinião: a verdade de uma inverdade, a defesa de um condenado condenado…, a filosofia dum sofista:”
A atitude crítica que tomas é a de um verdadeiro anarquista, mas de uma anarquista sem apelo à anomia, mais um anarquista do tipo de Max Stirner, um anarquismo individualista, mais complexo, mais crítico.
Quanto ao livro “Intima loucura” gostei bastante da leitura que fizeste, sem qualquer tipo de compromisso que não fosse a leitura e as sensações que ele provocou, também subjectivas porque cada leitor abrigará as sensações que captar da leitura dele, até que as minhas são diferentes hoje, se o ler, das que foram ontem ou quando escrevi os poemas.
Lembro-me de que falaste há tempos acerca da importância das palavras, de uma leitura do Livro do Desassossego de Fernando Pessoa, mormente do prefácio, e que eu escrevi um poema lembrando-me disso e que não terá chegado à lista AL por impedimento do meu correio-e.




a importância das palavras

uma palavra
no teu ventre anseia
o lábio do silêncio
no martírio

da voz que crava
o dorso que enleia
o desejo do início
no delírio

de uma distância.
do facto ao remoque
não há palavra que sinta ou evoque.

que importa a ânsia
da palavra escroque
se o gesto foge ao mais pequeno toque.

Por muito que queiramos que tudo bata certinho – nem os relógios são capazes de o fazer, nem os suíços – há sempre uma vírgula que fica a mais ou que fica de menos. Neste caso, e atendendo que na minha sintaxe poética dou mais importância à respiração dos versos, a vírgula não deveria estar no fim do primeiro verso. Estando ali, forçosamente teria que estar no fim de «peregrinos». Que eles me perdoem! Os peregrinos e as vírgulas. E cheguem em paz ao irremediável destino, que é a única distinção possível: irremediável e possível.

S obre o aspecto formal do livro tentei imprimir uma certa globalidade no que se refere à língua que escrevemos, a portuguesa. Poesia portuguesa, porque não? Também, na minha opinião, é poesia portuguesa a que se escreve no Brasil, em Angola, em Moçambique, na Guiné-Bissau, em Timor. Pelo menos devia ser. É o «imenso Portugal de que fala Chico Buarque de Holanda. Claro, isto não implica a portugalidade, a angolanidade, a moçambicanidade que explicita as particularidades de cada país: linguísticas e, por isso mesmo, interpretativas. Hoje escrevi acerca de Manuel C. Amor que aquelas particularidades linguísticas estão a perder-se em poesia, principalmente, pois, em prosa, há ainda alguns escritores que preservam essas características, mesmo eu sofram a influência do Luandino Vieira, o logoteta conforme lhe chamou Salvato Trivo na tese de doutoramento há já alguns anos. Exemplos disso são os escritores Ondjaki, Jofre Rocha, Manuel Rui, Pepetela, e, com alguma acutilância, José Eduardo Agualusa.
Peço desculpa pelo tempo que demorei a dar uma resposta mas só há dois ou três dias o meu provedor de internet resolveu o Spam que assolou a minha caixa de correio electrónico.

Um forte abraço

Post-scriptum
O verbo agoniar é muito interessante. No poema, agonia pode ser um verbo ou substantivo. Pode-se, ainda, adjectivá-lo. Luiza Neto Jorge foi uma poetisa exímia a adjectivar e / ou substantivar os verbos. No caso presente (à guisa de explicação) agonia é muito mais invasiva do que agoniza. Esta forma é, quanto a mim, efémera.


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