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quinta-feira, julho 31, 2008

A Revista Sulscrito, Círculo Lirterário do Algarve vai estar presente na Feira do Livro de Faro. Segue a transcrição do comunicado retirado do blogue da revista:

Sulscrito na Feira do Livro de Faro 2008

Mais uma vez vamos marcar presença na Feira do Livro de Faro. Este ano é de 31 de Julho a 12 de Agosto.

Vamos ter connosco autores e os seus livros, livros de editoras alternativas e independentes, livros de Espanha, do México e de Portugal e vamos estar sempre por lá para conversar e divulgar os nossos projectos.

Como no ano passado será apresentada a revista Sulscrito, desta vez o nº 2, e encontrarão os livros da colecção bilingue de poesia “Palavra Ibérica”. Vai ainda acontecer um encontro de autores, o “Aproximando Margens/Acercando Orillas”, com autores do Algarve, da Andaluzia e das Canárias.

Têm muitos motivos para passar por lá. Com certeza encontrarão publicações interessantes, que de outra forma nunca chegariam a Faro, e autores desconhecidos por muitos mas de grande qualidade.

Fica a agenda de eventos:

Data:2 de Agosto
Autor: Paulo Kellerman
Livro: Silêncios entre Nós
Editora: Deriva

Data: 3 de Agosto
Autor: Pedro Afonso
Livro: ainda aqui este lugar
Editora: 4águas

Data: 4 de Agosto
Autor: Fernando Cabrita
Livro: O amor é um claro mês
Editora: Gente Singular

Data: 6 de Agosto
Ler Alto (leituras públicas)

Data: 7 de Agosto
Aproximando Margens/Acercando Orillas
Escritores Algarve – Andaluzia – Canárias
(António Manuel Venda, Fernando Esteves Pinto, Gabriel Cruz, Pedro Afonso,
Quintin Cabrera e Uberto Stabile)

Data: 10 de Agosto
Lançamento do nº 2 da revista de literatura Sulscrito

Data: 11 de Agosto
Autor: Manuel A. Domingos
Livro: Mapa
Editora: Livrododia

Até lá.


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quarta-feira, julho 30, 2008


Foto retirada de pt.Wikipedia



o mundo, amor, é o arco-íris
da nossa existência.
calcorreamos as calçadas
e quando vamos para o bairro alto
no elevador da glória
as tuas mãos afagam as minhas
e só nos admiramos olhando lisboa
do jardim de são pedro de alcântara.
como são lindas as janelas de maluda!
e o rio, a fonte do mar com a sombra dos flamingos!
hoje o dia é mais branco, não sei por quê.
talvez a iluminação dos teus olhos
atravesse as árvores, os corpos que se movimentam
na avenida, os carros, os canteiros com flores de verão.
meu amor, a estas horas ainda mortas
quando os amantes saem das tabernas
e com a voz rouca do vinho
dizem amo-te, só o meu olhar
é um texto peregrino nos lábios
que te saboreiam o corpo.

josé félix

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segunda-feira, julho 28, 2008

Tributo a Alceu, poeta do séc. VII a. C. - Grécia
ao poeta Xavier Zarco

Da condição humana tu conheces
as aventuras mais difíceis, fáceis
para os que não ludibriam a vida
até ao vir da morte.
Por isso bebes com o Melanipo
a vã certeza da viagem nua
no caudaloso e cálido Aqueronte
sossegando no leito.

Nem Sísifo, Alceu, logrou manter
o engenho e arte do alicerce dúbio
ao ousar passar a água que mantém
a margem das ossadas.
Bebamos, pois, à correnteza própria
da vida aparecida na existência
de Zeus, na oferta com tudo o que o dia
nos pode oferecer.
[1]

José Félix


[1] Alceu

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quinta-feira, julho 24, 2008

O silêncio de deus

Tenho a literatura entre os dedos
como se deles saíssem as pétalas
de uma flor encarnada que sem nome
se consumisse toda,
no texto apropriado, no contexto
da formação da escrita, revelassem
o mais pequeno pormenor, sentido
programático, útil.

Porém as coisas não são como são
as coisas impossíveis, porque estas
têm a lucidez dos lábios crus
na pronúncia da frase
quando a palavra queima um simples sopro
e um verso sai das asas de aves raras
na construção do livro corrompido
de formação estética.

A personagem que vai tendo forma
personaliza a dor na conclusão
do pensamento, quando se apetece
sair desta estrutura
onde a composição solidifica
o diálogo mais ou menos teatral
e a dor que vem de deus só se transforma
em pólipos na pele.

Religião da fala, não sei bem
onde leva a pronúncia que acontece
a dor tardia na imaginação
do acto pré-concebido.
São vozes de papel que se pressentem
guardadas nas profundas dos jarrões
que um dia as mãos descobrem na procura
da memória diluída.

Um dia saberei de toda a escrita
com o tal pormenor dos inocentes
ferindo a voz com a palavra viva
no domínio da morte.
A permanência do segredo tem
no desenho das mãos de sangue e água
a estrutura guardada, o compromisso
do silêncio de deus.

José Félix

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domingo, julho 20, 2008

se / és

tenho o corpo vivo
dentro de um espelho

a sombra da imagem
aquece-me a pele

a surdez e o riso de deus
dizem que sou outro
com a mesma voz

josé félix

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sexta-feira, julho 18, 2008

O meu veneno


vagabundagem (folheando os dias)

um tributo ao poeta chinês so século VII Han-Shan[1]



1.

desenho silêncios
nas folhas em combustão.

os braços são como os ramos do carvalho
presos no vento

como posso regressar à terra
com outra escritura?

a água da chuva limpa-me
a língua na ira das palavras

2.

leio-te nas folhas secas
e percebo a longevidade das pedras.

a fala é um rio que sussurra
nas cachoeiras, e nas fragas
se deixa cair na púbis
enfeitada com jacintos.

o olhar é a diferença repetida.

3.

envelheço como a árvore que me dá a sombra.

apesar de tudo o meu olhar é jovem
e tremo quando toco nas flores de laranjeira.

vens sempre de tarde
quando o sol ruboriza as faces.

4.

as cigarras cantam
nos pinheiros bravos.

as pinhas estalam com o calor do verão.

dou conta da visita dos amigos
que trazem vinho e conversa
entre fatias de queijo serrano.

o cheiro forte da caruma dos pinheiros.

5.

um velho distribui miolo de pão
pelos pardais.

as crianças comem amoras silvestres.

a vida é simples: um passo depois do outro.

6.

caem as primeiras chuvas de outono.
os pardais recolhem-se nas copas das árvores.

com o peso do pó
piso o pó do caminho.

as marcas dos passos
vão com o vento entre a folhagem.

7.

vou caminhando com serenidade.

eu sei que este caminho
me conduz

ao mar tranquilo.

as folhas do salgueiro
caem como flocos de neve.

8.

dou-te o outono numa folha de papel

olha uma vez, outra vez e ainda outra vez

a realidade transforma-se
diante dos teus olhos
com o vento.

9.

o meu amigo mostrou-me
a iluminação da árvore

na próxima estação colho os frutos.

10.

caminhei muito
vi o sol e a lua em vários lugares
e não aquietei o meu coração.

levei comigo a casa
o som dos passos
a sombra dos habitantes.


josé félix in Di Versos Poesia e Tradução, nº 10, outono de 2006

[1] Han-Shan, poeta chinês que viveu provavelmente no século vii. O seu nome está associado ao budismo Chan (Zen em japonês), sendo-lhe atribuídos 311 poemas. Foi dado a conhecer no Ocidente através de poetas da Beat Gneration, nos anos 50

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quinta-feira, julho 17, 2008

O meu veneno


1. Parasitas

2. Eufemismo

3. Moderação

1. Parasitas


Há alguns dias fui atacado por um parasita. Um parasita com propriedades miméticas, que muda a cor do nome conforme vai correndo os sítios da Rede ou da blogosfera, resolveu pousar no meu corpo, digo, no meu blogue, e de uma forma acintosa iniciou um concerto de provocações com o objectivo de denegrir o meu bom nome, com base na vingança e na inveja.

Não vou por aí. Se há parasitas que desaparecem com antibióticos e soluções tópicas, há outros que lhes basta não fazer nada para começarem a alimentar-se da própria pústula. É nesta última classe de parasitas que se insere a autora ou o autor de um blogue, que o criou com a intenção atrás referida.

Claro que esse blogue só existe porque eu existo. Se eu não existisse o blogue não seria criado e o parasita mimético não se alimentava às minhas custas.

Claro que tudo tem um fim. Basta navegar pelo mundo da blogosfera para se verificar da vida curta, diria, curtíssima, de alguns blogues; morrem com a mesma velocidade com que nascem.

A minha atitude no mundo da blogosfera não deve ser tão má pois a "Teia da Aranha" existe há seis anos. Isto confere-me uma certa dose de paciência para afastar alguns dos parasitas que me atacam.

Portanto, a partir de agora não comento mais sobre o parasitismo e o sintoma inicial é que nem sequer nomeio o blogue, tão pouco o autor ou a autora dele. Veremos o tempo que dura.

2. Eufemismo

Então em que ficamos? Há uma «recessão económica» ou um «abrandamento do crescimento económico?» Ora, uma «recessão económica» entende-se logo que há um declínio na taxa de crescimento económico». Oh Sr. Engenheiro! Só um país de tolos é que, ainda, atura isto.

3. Moderação

Eu não vou pedir escusas por estar a moderar este blogue. Não é a primeira vez e não será, certamente, a última. Não se espantem com isto.

Não somos moderados quando circulamos nas estradas ao abrigo do Código da Estrada? Não somos moderados desde que nascemos e nos vamos fazendo cidadãos ao abrigo das leis da República? Não somos moderados no local de trabalho, na escola, no templo?

tanka

na manhã de sol
um arco-íris entre as árvores -
chuva molha-tolos

hoje as primeiras efémeras
vieram pela manhã.

José Félix e Anibal Beça Folhas da Selva, Chá das Quatro, Editora Valer, Manaus, 2006

Nota: este tanka faz parte das Ramas de Verão feito a quatro mãos com o poeta Aníbal Beça.
O livro contém, essencialmente, haicais, e tankas feitos segundo o método de Jane Reichold.





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quarta-feira, julho 16, 2008

O meu veneno

A ignorância e a estupidez

Pior do que a ignorância é a estupidez. Pior, ainda, é a estúpida ignorância.

Quando alguém fala de alguma coisa e afirma determinado princípio sobre essa coisa, deve fazê-lo com conhecimento de causa.

Ora, têm aparecido na blogosfera muitos caçadores recolectores que ainda não passaram da fase de recolher frutos e folhas para o seu sustento. Parecem máquinas de bobinar que ora servem para bobinar ora servem para desbobinar. Há, na verdade, em certas camadas da população portuguesa «aquela» raiva e ódio de querer intrometer-se na vida dos outros, principalmente quando os «outros» têm algum sucesso na vida.

A vingança e a inveja são uma característica do português de todas as classes sociais. Esta afirmação não é só minha. O filósofo José Gil no livro “Portugal Hoje – o medo de existir” retrata claramente o estado permanente de inveja do português.
Há, claro, excepções e essas notam-se como as papoilas nos campos.

Está claro que não vou colocar aqui a mensagem enviada por alguém com falta de carácter que me disse querer vingar-se de mim por causa da proprietária de um blogue que copiou uma frase minha, e que iria fazer-me a mesma coisa do que eu tinha feito ao blogue visado. A mensagem está devidamente guardada para ser apresentada na altura e sítio apropriados.

Também não vou discorrer aqui sobre o «infinito» porque a maioria dos leitores, provavelmente, não leu ou desconhece o «paradoxo de Zenão». Nem vou escrever sobre o infinito potencial nem sobre o infinito real. Nem vou falar de hiatos, de ditonguização ou de figuras da gramática.

Para entender de alguma coisa é preciso, também, um pouco de imaginação. O que se espera da estúpida ignorância? Nada!

apenas uma circunstância

talvez o pormenor esteja no texto. compões o corpo e os lábios
mas sou eu que lhes dou o sentido literário. a comoção. a emoção
do leitor. sem sobreaviso arranco-te o coração e dou-o à mercancia
do desejo. é a finalidade da escrita. e tu só para mim. objecto das
palavras que reinvento. planto-te nas tempestades e chuvas
contínuas como se fosses o único espelho bafejado pelo sopro da
criação. através da leitura dás-me outros ventos e outras searas
com papoilas e pássaros nos olhos dos inocentes. regos de tera
manchados de sangue de um amor puro quase impuro. uma parede
branca cheia de sombras. vejo-te beber uma palavra. morrer num
verbo e numa explosão de flores ateias toda a gramática do jardim.
a suprema dor da fala. a beleza do incêndio no leito das mãos. as
bocas pronunciam os novos sinais e o fogo aceso espalha a chama
com toda a inocência. o texto talvez seja um pormenor.
a existência apenas uma circunstância da leitura.

José Félix in "Poema", Antologia de Poesia Portuguesa Actual, AULLIDO, Revista de Poesia Aullido, nº15, Punta Umbria, Huelva, Março 2006(edição bilingue).


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O meu veneno

A crítica literária

A "crítica literária" é a produção de um discurso acerca de um texto literário individual ou da obra global de um autor. A "crítica literária" está condenada à interpretação e, por isso mesmo, não pode ser inocente nem neutra. Paul de Man (P. de Man, 1971) observou que o crítico literário, seja qual for o plano institucional em que se coloque, relaciona-se com a literatura, principalmente com a literatura sua contemporânea, através de uma espécie de cegueira. O crítico literário ou aquele que pensa que é crítico literário, interpreta um texto com uma cegueira interessada que só vê o que quer ver ou o que pode ver.[i] Falta-lhe o sentido criativo do autor para anular os erros interpretativos com análises baseadas em estereótipos. Falta-lhes, sobretudo, o conhecimento da linguística para poder aceitar a novidade de uma palavra.

Isto vem a propósito, ainda, de outra espécie de crítico literário movido pela «dor de cotovelo», incapaz de escrever um verso, acoitado no anonimato, que descarrega a falta de criação artística sobre quem quer que seja, com argumentos sem qualquer sustentabilidade, ou com uma sustentabilidade frágil. O mais comum da cegueira do crítico literário com inveja do autor criativo é afirmar que o que lê não se entende, que o autor não escreve para o povo, que a escrita é enviesada, cheia de metáforas e de outras figuras de estilo cujos nomes vão relembrar na consulta dos livros.

Bem, eu não sou avesso à análise crítica de um texto. Falar de um texto após uma leitura leve só para dar curso à verborreia pensando que assim passa a existir mais, é errado, como é errada a pose à qual se submete, pois só diminui quem se acomete a tais atropelos. Falar de um texto com argumentos sustentáveis, sim. Venham eles mesmo que eu não concorde em absoluto. É evidente que um autor existe não só depois de ser publicado mas também devido ao crítico, literário.

De qualquer modo recordo Michel Foucault: "quando não se entende um texto, a culpa é sempre do leitor"; ou Fernado Pessoa: "sentir, sinta quem lê".

Uma dedicácia para os críticos que pensam ser donos da iluminação do templo:

fogo fátuo

acendem estertores iluminados
na podridão dos ossos pulverinos
arqueando luzes cheias de veneno
em vozes mansas tidas de meninos.
a chama ondeia falsa e insinua;
crepita a verve dúbia do idílico.
sem alimento o fogo não aquece,
ouve-se longe o eco a voz do tísico.
enquanto a fátua chama lá fenece
o lume brando vivo mais aquece.

josé félix


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numerus lexicon

0 - Zero


tenho a idade da semente
a claridade do espelho

e na face de tudo que é nada
grávido, o tempo
liberta a multiplicação das flores

a metade do infinito
perseguindo os meus passos

no mais redondo silêncio e harmonia.

1 - Um

fálico. único.
a lança na travessa da semente
um abraço no espelho
no esconderijo do escudo.

guerreiro impune
o começo do nada o princípio da fala
a verticalidade solitária

uma papoila rubra na seara.

2 - Dois

uma duplicidade desenhada
na altivez natural
carrega para sempre
o outro lado do espelho

o reflexo é a diferença da face

o duplo do decúbito ventral



3 - Três

a trindade religiosa
incompleta
o recinto do infinito

púberes e o ventre
quase na explosão da flores.

4 - Quatro

círculo imperfeito
na beleza da quadratura

o centro agarra-se ao lápis

e um sorriso se desfaz
na queda da linha

segura, ainda, o papagaio de papel
uma sereia azul com asas
na imaginação do vento.


5 - Cinco

a concha do teu corpo
cativa o pólen das anteras

e na orquídea do tempo

nasce um sorriso de erva-doce
na abertura da ânfora

a mão de flor recolhe a água
liberta da sede.


6 - Seis

furtiva a sílaba entre a dor palpita

breve e grávida
a fala do princípio aguarda o sol
na semente da aurora.




7 - Sete

na cadeira da cabala
fizeste tremer o faraó

e na fonte dos sete sábios
platão bebeu a sede dos deuses

perto do infinito
alongas a distância vezes sete
fechada em lábios de silêncio.


8 - Oito

uma semente grávida
na divisão do núcleo
principia no espelho do que é nada.

a verticalidade do infinito
na linha imaginária
do fim da vida
no princípio da morte.

9 - Nove

a radícula rasga a terra
suporta na semente o infinito
a árvore gentílica

o prenúncio de todos os caminhos

simples flor frágil
lábil pedúnculo

na brisa vai o pólen e o aroma.


josé félix (inédito)

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terça-feira, julho 15, 2008

na calada da noite
o amante
vê-se
no espelho da água

passa pelo rosto
a sombra de narciso

josé félix

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segunda-feira, julho 14, 2008

O meu veneno

A fuga ao problema

A Administração Interna portuguesa, a polícia, revela-se como os casais que não resolvem os problemas mas fogem deles. Ora, a comunidade cigana do Casal da Fonte sai do bairro e quer ir para outro local. A Administração Interna deste país diz que sim.
Errado. Essa atitude é tapar o sol com a peneira e incentivar que, futuramente, as comuidades ciganas exijam ir para os bairros só com ciganos transformando-os em guettos.
A Administração Interna deve exigir que as comunidades ciganas regressem às suas casas, quer queiram as comunidades africanas quer não queiram. Isso é que é justiça. O contrário é uma falácia.

o olho de hórus

crisálida, a noite
viaja com o olho de hórus

a sabedoria simples
numa trindade pagã
é a metamorfose do tempo
na busca da eternidade.

josé félix

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terça-feira, julho 08, 2008

O meu veneno

O corridinho do Algarve

O corridinho do Algarve, o bailinho mandado, é o paradigma da vivência da sociedade portuguesa. Andamos todos, perdão, quase todos, comandados pelo vilão-mor deste país a fazer querer que tudo vai bem «no reino da Dinamarca» mas, na verdade, é como na tragédia Hamlet de Shakespeare: podre, e muito podre vai este reino onde as leis da justiça, feitas com tal flexibilidade e múltiplas leituras, permite, por isso, múltiplas sanções. Dura lex sed lex devia ser o lema da aplicação da justiça. Ora, o que eu registo é uma frase ouvida num dos canais de televisão, a propósito da violência contra os juizes em Santa Maria da Feira, dita por uma cidadã daquela localidade: a justiça é forte para os fracos e é fraca para os fortes.
Quanto ao vilão-mor, que se cuide; há já muito boa gente que sabe distinguir um prego de uma agulha.

homenagem a lope de vega[1562 - 1635]

de volúpia seu nome
no cálido leito dorme
a deusa fria
talvez por isso não sente
as vezes que a boca mente
a deusa fria

de vil virtude se acoita
quando no falo se afoita
a deusa fria
é que a carne é mais carne
com pantominas de verme
a deusa fria

a noite de fauno breu
pequeno fogo acendeu
a deusa fria
ao som da avena de pã
nasceu nua p'la manhã
a deusa fria

na quieta luz campesina
volúpia é de menina
a deusa fria
se à noite é rubra a face
de dia não é rapace
a deusa fria

cumprindo se vai vivendo
de noite e dia em crescendo
a deusa fria
vai mentindo ao som da flauta
cantando uma nova pauta
a deusa fria


josé félix

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domingo, julho 06, 2008

Por uma questão de princípio, e de carácter, todos os comentários anónimos são retirados do blogue.

José Félix

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terça-feira, julho 01, 2008

O meu veneno

De vez em quando caem na minha teia uns seres esquisitos, que não são carne nem peixe, seres hermafroditas , sobre os quais, quando lhes toco, não sei se lhes titile o clitóris ou lhes alise o falo. Eu prefiro o clitóris. Ora, mais um ser andrógeno caiu num dos fios da minha teia sem saber o que fazer. Vai daí, pergunta-me se eu tomo ácidos. Mais ainda, acidos, sem o respetivo acento agudo, o que pressupõe uma falta de conhecimento acerca da língua portuguesa.
Do Dicionário de Língua Portuguesa On Line retirei o seguinte:

ácido s. m. adj.
do Lat. acidu
s. m., Quím.,
substância capaz de formar iões de hidrogénio quando dissolvida em água;
composto hidrogenado em que o hidrogénio pode ser substituído por metais, para formar sais;
substância que reage com uma base, formando um sal ou, por vezes, água;
substância que tem um Ph inferior a sete;
substância que torna vermelho o azul de tornesol;
adj.,
acre;
azedo;
agro;
s. m.,
(no pl. ) corpos derivados por oxidação dos álcoois e dos aldeídos.

Após este esclarecimento informo que não sei o que é que o ser hermafrodita "santis" quis dizer ao fazer-me tal pergunta. Se me perguntar se eu tomo ácidos, ainda sou capaz de lhe responder por uma questão de educação. Se me pergunta se eu tomo acidos a questão fica por responder, pois não sei o que pretende.
Coloco aqui uma série de poemas com o título "Lições de Eros" acabados de sair do forno poético. Talvez o ser andrógeno, esse e /ou outros que me visitam tenham uma «revelação» e descubram qual dos sexos mais lhes convém.


Lições de Eros

/um/

liberta o corpo
o tronco verga à posse dos sentidos

o aroma do desejo
a analepse
dos gestos

memória fina, turva.

/dois/

no teu olhar
descubro o meu corpo

a tua sede é a minha sede

/três/

quando tomo o teu corpo
e o desejo
sacia a minha sede

a revoada de pássaros
alisa
a folhagem da árvore

/quatro/

a mão descobre tímida
aventura

húmida
seiva revela a candura

a dádiva do corpo
descoberto

/cinco/

a frase obscena
acende o corpo o tronco
liberto da folhagem

maduro, o fruto
tem o sabor da primeira
colheita

/seis/

o fruto esconde-se
entre a folhagem

a mão, precisa
toca-lhe na pele

onde o incêndio principia

/sete/

o teu corpo é a clareira
onde eros sossega
sob as estrelas

mortal e imortal adormece
ao som da flauta de pã

/oito/

lascivo como um fauno
acaricio
a concepção dos lábios

no abraço de eros
morro e vivo
segundo a natureza


/nove/

podes ver-me psiquê
com a iluminação dos olhos

quando a gota de cera me queimar
o peito
possuo-te
até à consumação do círio



/dez/

nasci de pínia
ando em completa nudez
para que bebas do meu corpo

embriagado com néctar
conforme me ensinou poros, meu pai

usa do artifício
e dá-me o aroma do aloendro

/onze/

cruzas as pernas
sobre o himeneu

botão de flor aberto no primeiro
raio de sol

/doze/

as minhas mãos
passeiam no teu corpo
a paciência do sol

vens messalina
e quando te aquietas
tens o olhar puro e virgem
da manhã submersa

/treze/

as coxas são
colunas de alabastro

ao toque leve
deixam passear
os dedos que procuram o gineceu
da flor aberta à fantasia

/catorze/

fálico
gesto toca as pétalas
do hibisco

a brisa eleva o linho
rocegando
os seios no murmúrio dos lábios


/quinze/

gotas de água
iluminam o teu corpo

é a sede da pele
em desassossego

/dezasseis/

beijo os teus seios

as mãos escondem-se na flora

para colher o fruto maduro

/dezassete/

pequenos lábios grandes
lábios

o aroma da rosa-de-saron

/dezoito/

com um hibisco entre os dedos

os teus lábios tocam
no carpelo e nos estames

quando o sol
te acaricia as pálpebras

/dezanove/

a espuma cobre a nudez

o silêncio
de sacra admiração

desenha o corpo
no murmúrio da água

/vinte/

mil vezes morro
mil vezes vivo

sacio a sede do corpo
e deixo eros a virtude a volúpia
nas asas de fantasia

José Félix in Lições de Eros (inédito)

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