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sexta-feira, agosto 29, 2008

o vislumbre

hoje, sem qualquer travo etílico
vi-me no espelho dos dias
e disse para mim tens uma gravata surrada
pensei no colarinho sujo
e nas palavras que acompanham
esta visão de pedinte que se constrói
através da literatura.

qual quê. a miserabilidade é um pequeno esforço
para nos sentirmos grandes perante as convenções
que guiam as páginas do poder
e, tal como os miseráveis que vomitam nas catacumbas do metro
ou os que tocam pessimamente instrumentos de corda
ou concertina com uma mão e a outra estendida ao mundo
nas esquinas da cidade ou no fim das passadeiras para peões
sentimo-nos escarro
conforme a escrita se vai colocando
em frases, em parágrafos, com algumas metáforas pelo meio.

os pombos continuam arrulhando
sobre os candeeiros velhos
e os dejectos já não deixam ver
como é o rosto da estátua de bronze
que definha verde no largo da cidade.

uma velha boceja de tédio
à sombra do salgueiro.

a janela é o vislumbre da escritura
na construção natural da condição humana.

josé félix

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quarta-feira, agosto 20, 2008


O meu veneno

A política de veludo


A União Europeia continua na senda da política de veludo. Foi assim nos anos noventa nos Balcãs, também foi no Iraque, no Afeganistão, e agora, claro, no Cáucaso.

A Geórgia deixou-se enredar pela política de urso da Rússia, enveredando por um caminho cuja resposta czarista veio pôr fim. Os políticos da União Europeia desconhecem a história ou fingem desconhece-la. A política russa é uma política imperial com o sonho da Grande Rússia que teve o auge com a União Soviética e, penso, com um interregno pós glassnost. Putin, saído das malhas da antiga polícia do KGB imprimiu a nova dinâmica para a construção da Grande Rússia, além das influências geoestratégicas. A garra do Urso já fez algumas feridas no Cáucaso. É um sério aviso àqueles que querem tentar sair de debaixo do seu jugo.

A União Europeia cala e consente com medo de perder o gás que vem dos gasodutos que atravessam os países da zona. Esta política de veludo de uma no cravo outra na ferradura terá os seus custos.

Além disso, a U. E. não tem moral que baste para condenar a Rússia quando nada fez nem nada faz quanto à desagregação nos Balcãs com a separação do Kosovo da Sérvia.





Para o Pedro Mexia



O meu inimigo



Andas comigo, amigo inimigo
grudado no meu corpo como a carraça das ervas.
És a sanguessuga e sorves o meu sangue
a minha palavra, o meu desejo.

Às vezes tenho a sensação
de que andas com o meu rosto
e te ris como eu me rio
e serves-te da minha mão, da minha caneta.

Vascas como se eu estivesse ao espelho.
Não! Tu, que estás desse lado não sou eu;
não sou tu quer queiras ou não;
sei que existes e não és nenhum fantasma.

a rondar a minha biblioteca, o meu quarto.
Não cabes nas fendas das janelas.
Tens a cumplicidade da minha voz.
Sem mim não és nada.

Finges que andas sobre as árvores como os duendes
e te escondes nas ramadas
com o intuito da imitação dos meus gestos
do tom da fala, das minhas frustrações, da doença.

Garanto-te, inimigo amigo, que tens os dias contados.
O relógio biológico que te regula é o meu.
Quando chegar a hora da partida
nem o fantasma da tua sombra me terá.


José Félix

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