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domingo, outubro 26, 2008

Outra realidade


O meu pai tinha uma paleta preta.
Aí desenhava a vida nas manhãs incertas
ou quando a rua não dizia a imagem
das tintas colocadas no tecido.
Eram amanheceres de silêncio
o que me incomodava, a fala muda
mesmo que dialogássemos por hábito
e concordássemos com um sorriso
de longevidade incredível, pelo tempo
que se demorava a desperecer
o movimento dos lábios de ambos.
O desenho era um pormenor, ficção
já rarefeita da realidade
que se mentia tracejando linhas
como em qualquer retrato de circunstância
feito a pedido nos dias inúteis.
Fixávamos o sol até à cegueira
e na visão dorida concluíamos
por unanimidade acerca da condição humana.
Eram dias assim, com a amargura
da visão crítica de longa existência
que saboreávamos a ironia
das vidas que passavam na fugacidade
de cidades traçadas no desenho.

A paleta com tintas e os pincéis velhos
esquecem no sossego de outro tempo
as pequenas memórias incrustadas
no cromatismo seco, apodrecido,
o bolor que ali teima fazer vida,
de onde se construíram irrealidades
e, mesmo, até, às vezes, risos leves
a clarear as horas indevidas.
Uma paleta preta, telas, tintas
no armazém velho com a minha idade
misturam-se com a mobília antiga
e já sem uso, nem utilidade
a não ser a reconstrução da vida
naqueles dias onde a frase morta
ecoa nos ouvidos como um pássaro
que pia no mais silêncio silêncio.

José Félix

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sexta-feira, outubro 24, 2008


No próximo dia 25 de Outubro, sábado, será lançado o primeiro livro da colecção versoREverso da Edium Editores com o título:

“Lições de Eros / Lições de Thanatos”
dos poetas
José Félix e Xavier Zarco.

O evento tem lugar no Recreio dos Artistas (Orfeão Velho), em Leiria, às 15h30m e a obra será apresentada por Rui Daniel Sousa da Faculdade de Letras de Lisboa.

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quarta-feira, outubro 22, 2008

O meu veneno
O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas? O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas. O acelerador de partículas.
José Félix

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terça-feira, outubro 21, 2008

Nocturnos


[1]

O sorriso desfaz-se
na dor mais terna.

uma pequena luminosidade
apaga-se definitivamente.


[2]

O que diz uma lágrima?

A lembrança ou o esquecimento
a memória no cheiro
de uma flor.


[3]

Só o piar dos pássaros
amanhece
a quietude das árvores

Um gato, um cão e um melro
passeiam sobre as folhas secas


[4]

Descobre o rosto, meu amor
as dálias abriram-se
com o sol da manhã

Principia a cura
da ferida aberta


[5]


Segue-me a sombra
duplo silêncio
na confidência do caminho

Quanto mais se ilumina o dia
mais transparece a sombra
nas arestas da cidade.


[6]


Tenho a doença das manhãs submersas

No paradigma da respiração
sustenho a morte
que lentamente vai
abrindo a porta
da corrente da água.


[7]


O sono é a irrealidade
da morte

mesmo que estejamos deitados
na mesma inocência


[8]


Com a ponta dos dedos
desenho ninhos de água

Distorce a realidade
o rosto límpido
na fuga líquida da simetria.


[9]


Anoitece

recolhe o dia ao casulo do silêncio

as lágrimas
são o prenúncio
de uma dor calma


[10]


O trigo
o joio

as sombras iguais no espelho.

José Félix

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quinta-feira, outubro 16, 2008

lisboa labirinto


no labirinto que é lisboa
as putas passeiam-se levando a ingenuidade
entre as pernas com que compram bmw
e viagens para londres.
o sorriso de deusas de quinta categoria do olimpo
ainda captam alguns imberbes
e velhos com disfunção eréctil
que apertam o cinto até ao último furo
numa falsa elegância
para enfeite das calçadas à portuguesa.

a cidade, pornográfica, vende revistas
com meninas na capa trabalhadas em photoshop
para esconder a celulite e as rugas
que aparecem cada vez mais cedo.
o marketing do sexo escarrapachado nos comboios, nos eléctricos, nos autocarros
nos taxis, nos carros das empresas particulares e das instituições públicas
movimenta-se desde o rossio até camarate.
a cidade vende-se por sexo em cada esquina
e nos ministérios do governo
com a troca de favores libidinosos por alguns milhares de euros.

velha, caquéctica, amarga e dócil, lisboa, actriz porno
em fim de circuito recebe um cliente bêbado
a cantar um fado da severa na mouraria
na bica e no bairro alto
despejando a dor de corno e o ciúme.

lisboa a cidade mais pornográfica da Europa
adulta e adolescente
albergue de prostitutos
oferece carícias desde o cais das colunas
até às portas de Benfica que levam para casa
sapatilhas nike e le coq sportif
com o sémen derramado sobre o tejo
que alimenta as ninfas de camões
para gáudio dos críticos literários
que vivem fora da contemporaneidade
e se alimentam dos escarros e dos conceitos do passado.

lisboa, a puta do comércio, a vagina do país
em desconstrução.
os pobres, os ricos, os remediados, a pequena e a média burguesia,
os padres, os acólitos, as religiões,
todas as religiões
todos eles mergulham nas pernas de alabastro
numa orgia interminável.

odeio esta cidade com a capa de puritana
odeio os habitantes da desgraça recolhendo-se nos templos
para rezarem a um deus sem rosto que não sorri
e saem de lá como se tivessem a alma lavada
para, depois, meterem as mãos entre as coxas da cidade
e babarem-se como touros com meia dúzia de ferros
com carícias de olhos arregalados, os lábios a endurecerem
com o cheiro de um corpo à espera.

odeio-me, sim, odeio-me por fazer parte
desta procissão escrupulosa no seu dever
odeio-me por me amar nesta lisboa petéquia
que me abraça, corrói, drama, gasta
na satiríase dos seus genes.
odeio o tejo, o mosteiro dos Jerónimos
a sé, a igreja de são domingos, são pedro de alcântara,
a estrela, a graça, a rua dos bacalhoeiros, o coliseu,
as avenidas novas, a almirante reis, o conde redondo,
o parque eduardo sétimo, mártires da pátria, a rua do ouro,
e lisboa inteira, puta nua vestida de virgem messalina.

adormeço com o fado dos búzios de ana moura
e sabe-me bem. lisboa, rainha jezebel, encosta-se no meu ombro.


josé félix

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quarta-feira, outubro 08, 2008

a paciência dos búzios

sei que tens a paciência dos búzios
e a admiração da primeira palavra
na iluminação de mil sóis.
na puerícia dos gestos
inventas eros no jardim dos lábios
que vão abrindo a estação
no tremor do corpo coberto pela nuvem.
o feitio do dia descansa em nocturna oração
no rogo da contínua luminosidade
que lava o rosto na borla da sombra.

José Félix

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quarta-feira, outubro 01, 2008


A FRACTURA POSSÍVEL

José Gil, Fractura Possível, Edium Editores, Porto, 2008

Este livro de poemas de José Gil, e por ser o primeiro livro de poemas, porque o autor tem obra no campo da Escrita Criativa e poemas publicados em antologias, principalmente na Antologia de Escritas e na Di Versos, este livro remete-nos para as imensas possibilidades fracturantes da linguagem e do discurso poético.
Após ter lido com a atenção que o livro de poemas requer, sendo este mais volumoso em relação a tantos outros e de outros tantos autores, só poderia ter este volume. A quantidade de poemas é diversa de tal modo quão diverso e fracturante é o discurso.
O poeta conduz-nos para uma sensualidade carregada de gestos que nos transporta para uma relação muito estreita, quase se fundindo, entre semiologia e semiótica.[1]
Os signos desempenham um papel importante na comunicação poética dos textos tornando-os comuns ao leitor médio e, até, ao leitor que só, excepcionalmente, lê um verso ou outro. Aqui, comunicar vai, estreitamente, para o significado etimológico: comunicar quer dizer “pôr em comum”.
Assim, no poema nº 5 temos uma criação poética com a utilização corrente dos signos que leva cada leitor a construir, segundo o seu grau de conhecimento e saber, várias construções de sensibilidade e sensualidade:

Se o mar acariciar as rosas espero-te / na vírgula mais doce / onde o lápis toca o teu rosto / e penetra os teus lábios […] se a letra engrossar na falha abre-me / a folha ao Carmelo da oração, / no sagrado prazer do acento.
Há um condicionalismo recorrente neste poema, agradável, que, apesar de tudo, induz ao movimento da escrita: a escrita constrói a ideia e a ideia constrói a escrita. Há signos psíquicos constituídos pela união dos significantes e dos significados. A relação entre estes leva-nos ao chamado «valor» de Saussure.
Esta perversão da linguagem, constante ao longo do livro, lembra-me, também, considerações de Roland Barthes.[2] [Poema nº 7, página 16]

Há uma sensualidade verbal que se transpõe ao longo do livro mesmo considerando as mutações constantes no discurso.
Na representação verbal da realidade, José Gil parte da desconstrução linguística, do caos, e, seguindo, quase sempre, o mesmo princípio e depois o mesmo percurso, reorganiza os signos de tal ordem que confere ao texto, ao poema, aquela realidade transformada e polissémica. [Poema nº 41, pag.56]
Neste poema o centro do caos a ordenar é “em torno de uma sombra giratória”. A partir daqui o poeta vai desenvolvendo, colocando tijolo a tijolo na construção atípica de um texto que se vai harmonizando semanticamente.
A máscara da linguagem vai retratando a realidade sobre outra realidade num inconformismo discursivo, teatral.
E é nesta língua do teatro que o José Gil notabilizou: O poeta começa de uma forma magistral, lembro Eliot no início do século XX numa das citações de um dos seus “Quatro Quartetos” [Em meu princípio está meu fim], com uma citação própria, a que se seguem muitas outras citações: “as actrizes e os actores todos eles falam / com o corpo como eu e tu”. [Poema nº 63, pag.82]
O poeta – actor transforma a linguagem da escrita na linguagem da fala: uma linguagem invasiva, não itinerante; uma linguagem lâmina que atravessa vários campos do saber a assinalar os poemas dedicados a Marcel Duchamp, Klee, Renée Char.
Os poemas de José Gil são criação pura onde a palavra, o verso, fazem renascer imagens de extrema beleza na construção semiótica bem estruturada em que a imaginação do leitor completa eficazmente cada leitura. [Poema nº 133, pag.177]
“Fractura Possível” é um conjunto de textos inter-textuais com um modelo narrativo próprio onde se encontra o estilo do poeta, com alguns desvios se analisarmos todos os textos à face de uma Gramática da Narrativa. Desvios, aqui, pressupõem diferenças estruturais, evidentemente.
Fractura Possível cria imensas possibilidades de leitura, de análise, e, até, de degustação, recordando Natália Correia: a poesia é para comer.
Não é de fácil leitura este livro mas, e cito Jorge de Sena, “Qualquer poesia, para ser compreendida exige, antes de mais, um sincero desejo de compreendê-la”. E ainda “ a poesia é essencialmente uma educação” ou, e terminando “ A complexidade que se exige da linguagem de hoje é a que resulta de um sistema de correlações semânticas e globais, que ultrapassa a natureza unilinear das estruturas tradicionais [Poema nº 108 pag.146]



[1] A Semiologia, também conhecida como a Linguística saussureana, é ciência da linguagem verbal, e a Semiótica é a ciência de toda e qualquer linguagem. “A Semiótica é a ciência que tem por objecto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenómeno de produção de significação e de sentido.” A Semiótica peirceana não é uma ciência aplicada, nem é uma ciência teórica especial, ou seja, especializada." A Semiótica, ou lógica, "é uma ciência formal e abstrata, num nível de generalidade ímpar.

[2] Barthes afirma: “A rigor, poderíamos dizer que o objecto do estruturalismo não é o homem rico de certos sentidos, mas o homem fabricante de sentidos, como se não fosse absolutamente o conteúdo dos sentidos que esgotasse os fins semânticos da humanidade, mas o simples ato pelo qual esses sentidos, variáveis históricas, contingentes, são produzidos

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