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quarta-feira, outubro 01, 2008


A FRACTURA POSSÍVEL

José Gil, Fractura Possível, Edium Editores, Porto, 2008

Este livro de poemas de José Gil, e por ser o primeiro livro de poemas, porque o autor tem obra no campo da Escrita Criativa e poemas publicados em antologias, principalmente na Antologia de Escritas e na Di Versos, este livro remete-nos para as imensas possibilidades fracturantes da linguagem e do discurso poético.
Após ter lido com a atenção que o livro de poemas requer, sendo este mais volumoso em relação a tantos outros e de outros tantos autores, só poderia ter este volume. A quantidade de poemas é diversa de tal modo quão diverso e fracturante é o discurso.
O poeta conduz-nos para uma sensualidade carregada de gestos que nos transporta para uma relação muito estreita, quase se fundindo, entre semiologia e semiótica.[1]
Os signos desempenham um papel importante na comunicação poética dos textos tornando-os comuns ao leitor médio e, até, ao leitor que só, excepcionalmente, lê um verso ou outro. Aqui, comunicar vai, estreitamente, para o significado etimológico: comunicar quer dizer “pôr em comum”.
Assim, no poema nº 5 temos uma criação poética com a utilização corrente dos signos que leva cada leitor a construir, segundo o seu grau de conhecimento e saber, várias construções de sensibilidade e sensualidade:

Se o mar acariciar as rosas espero-te / na vírgula mais doce / onde o lápis toca o teu rosto / e penetra os teus lábios […] se a letra engrossar na falha abre-me / a folha ao Carmelo da oração, / no sagrado prazer do acento.
Há um condicionalismo recorrente neste poema, agradável, que, apesar de tudo, induz ao movimento da escrita: a escrita constrói a ideia e a ideia constrói a escrita. Há signos psíquicos constituídos pela união dos significantes e dos significados. A relação entre estes leva-nos ao chamado «valor» de Saussure.
Esta perversão da linguagem, constante ao longo do livro, lembra-me, também, considerações de Roland Barthes.[2] [Poema nº 7, página 16]

Há uma sensualidade verbal que se transpõe ao longo do livro mesmo considerando as mutações constantes no discurso.
Na representação verbal da realidade, José Gil parte da desconstrução linguística, do caos, e, seguindo, quase sempre, o mesmo princípio e depois o mesmo percurso, reorganiza os signos de tal ordem que confere ao texto, ao poema, aquela realidade transformada e polissémica. [Poema nº 41, pag.56]
Neste poema o centro do caos a ordenar é “em torno de uma sombra giratória”. A partir daqui o poeta vai desenvolvendo, colocando tijolo a tijolo na construção atípica de um texto que se vai harmonizando semanticamente.
A máscara da linguagem vai retratando a realidade sobre outra realidade num inconformismo discursivo, teatral.
E é nesta língua do teatro que o José Gil notabilizou: O poeta começa de uma forma magistral, lembro Eliot no início do século XX numa das citações de um dos seus “Quatro Quartetos” [Em meu princípio está meu fim], com uma citação própria, a que se seguem muitas outras citações: “as actrizes e os actores todos eles falam / com o corpo como eu e tu”. [Poema nº 63, pag.82]
O poeta – actor transforma a linguagem da escrita na linguagem da fala: uma linguagem invasiva, não itinerante; uma linguagem lâmina que atravessa vários campos do saber a assinalar os poemas dedicados a Marcel Duchamp, Klee, Renée Char.
Os poemas de José Gil são criação pura onde a palavra, o verso, fazem renascer imagens de extrema beleza na construção semiótica bem estruturada em que a imaginação do leitor completa eficazmente cada leitura. [Poema nº 133, pag.177]
“Fractura Possível” é um conjunto de textos inter-textuais com um modelo narrativo próprio onde se encontra o estilo do poeta, com alguns desvios se analisarmos todos os textos à face de uma Gramática da Narrativa. Desvios, aqui, pressupõem diferenças estruturais, evidentemente.
Fractura Possível cria imensas possibilidades de leitura, de análise, e, até, de degustação, recordando Natália Correia: a poesia é para comer.
Não é de fácil leitura este livro mas, e cito Jorge de Sena, “Qualquer poesia, para ser compreendida exige, antes de mais, um sincero desejo de compreendê-la”. E ainda “ a poesia é essencialmente uma educação” ou, e terminando “ A complexidade que se exige da linguagem de hoje é a que resulta de um sistema de correlações semânticas e globais, que ultrapassa a natureza unilinear das estruturas tradicionais [Poema nº 108 pag.146]



[1] A Semiologia, também conhecida como a Linguística saussureana, é ciência da linguagem verbal, e a Semiótica é a ciência de toda e qualquer linguagem. “A Semiótica é a ciência que tem por objecto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenómeno de produção de significação e de sentido.” A Semiótica peirceana não é uma ciência aplicada, nem é uma ciência teórica especial, ou seja, especializada." A Semiótica, ou lógica, "é uma ciência formal e abstrata, num nível de generalidade ímpar.

[2] Barthes afirma: “A rigor, poderíamos dizer que o objecto do estruturalismo não é o homem rico de certos sentidos, mas o homem fabricante de sentidos, como se não fosse absolutamente o conteúdo dos sentidos que esgotasse os fins semânticos da humanidade, mas o simples ato pelo qual esses sentidos, variáveis históricas, contingentes, são produzidos

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